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Música é música, e pronto


Por BRUNO CALIXTO

19/04/2012 às 06h00

Quem disse que não dá?, pensou o produtor e arranjador Eumir Deodato, ao assumir a frente de Samba de preto, novo trabalho fonográfico da jovem banda paulista Huaska. Por ter importantes nomes da bossa-nova no currículo – como Tom Jobim e a maioria da turma do banquinho e violão -, Deodato era o tempero que faltava ao grupo formado por Alessandro Manso (guitarra e violão), Carlos BlinqueMilhomen (guitarra), Rafael Moromizato (voz), Caio Veloso (bateria) e Julio Mucci (baixo). Achamos mais que interessante ter o arranjador de Tom Jobim neste projeto, ao qual incluímos elementos de corda e metal às bases do rock que encabeça nossa verve. Ele deu o aval e topou na hora, conta Rafael Moromizato, antes de destacar a releitura – quase heavy metal – para Chega de saudade, carro-chefe do movimento que imprimiu a música brasileira no mundo. Quando resolvemos pela regravação de uma bossa, teria que ser o ‘marco zero’. Nossa ideia foi inserir nossa sonoridade à canção e repassar o resultado ao público mais jovem, que, como nós (faixa dos 30), não viveu aquela época, completa o vocalista.

Inconformado com rótulos, Moromizato afirma fazer MPB, música popular britânica (rock) e brasileira (samba). Tudo ao mesmo tempo. A gente começou a misturar música brasileira com rock, porque queria fazer rock pesado em português, informa. Sempre ouvimos bastante o new metal de bandas como Faith No More, System of a Down e até mesmo o Metallica. Mas não somos tão agressivos, não é essa a intenção. Pretendemos ser, simplesmente, intensos.

O nome Samba de preto, segundo ele, foi pensado na caracterização rock and roll que o grupo queria ver no samba e na bossa executados no Brasil. Terceiro disco do grupo (E chá de erva doce, de 2006, e Bossa nenhuma, de 2009), a obra sai com dez faixas, sendo que na terceira, a faixa-título, eles contaram com a participação de Elza Soares. Ela sempre fez essa coisa meio samba e meio jazz nos anos 60 e 70, por isso pensamos nela. São dois mundos dentro da mesma cantora, e sua voz rasgada casou com a proposta, destaca Rafael Moromizato, revelando a forma como chegou à carioca. Trocamos e-mails com o empresário dela, que viu, ouviu e gostou do que propomos. O encontro durou um dia de estúdio, e ela disse que adorou a sintonia. Inclusive, o mesmo empresário passou a vender nossos shows.

Cientes da mistura que não é novidade na cena da música nacional – já que ícones do rock como Raimundos, Raul Seixas e O Rappa incorporaram, respectivamente, elementos de forró, viola caipira e reggae -, os músicos da Huaska querem entrar para a história da irreverência sonora pela porta da pluralidade de ritmos. Por isso, a colisão entre guitarra e cuíca, na trajetória dos paulistas, vai além do espírito pulsante do metal ou fino da bossa. Começamos com o rock pesado no primeiro álbum, com apenas quatro músicas tocadas com violão, e, aos poucos, foi surgindo tamborim, pandeiro, cavaquinho e percussão. É a evolução natural do nosso som, e o ‘Samba de preto’ é o resultado final disso, conclui o vocalista.