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Futuro do presente


Por MAURO MORAIS Repórter

22/12/2012 às 07h00

Anunciaram e garantiram que o mundo ia acabar… E o tal do mundo não acabou. O cinema, em toda sua velocidade e agilidade, aproveita-se disso para especular como seria o futuro, que, apesar de todas as profecias, ainda não chegou. Ainda que outras áreas artísticas versem sobre a vida no pós-apocalipse, o meio cinematográfico notabilizou-se por produções de alto custo e imagens de imenso impacto, bem como a popularidade de prospectos extremamente intuitivos e, por vezes, pouco prováveis.

Rica em títulos de ficção científica, a literatura mundial contabiliza histórias de grande inventividade acerca do ponto final do mundo, como "A estrada", de Cormac McCarthy, lançado em 2006 e considerado uma das obras-primas do pós-apocalipse contemporâneo. Atração da 29ª Bienal de São Paulo, a carioca Alice Miceli se destaca no cenário internacional pela criação fotográfica a partir de resíduos de eventos da memória e da história mundial. Seu "Projeto Chernobyl" reúne imagens inquietantes que investigam os efeitos da explosão de um reator ocorrida em 1986 na usina nuclear localizada na cidade ucraniana de Pripyat. A vida pós-catástrofe de Alice sugere a aridez e a lugubridade da ausência, mas não cria o choque que algumas cenas de "No mundo de 2020", filme de Richard Fleischer, lançado em 1973, são capazes de despertar. A superpopulação e o caos urbano e ambiental da ficção apresentam imagens de um mundo à beira do colapso e surpreendem pelo angustiante prospecto do que poderá vir após o fim.

Sucesso de público e crítica, a animação "Wall-E", de Andrew Stanton, diretor de "Procurando Nemo", também enfoca um catastrófico meio ambiente, num planeta em 2805, e cuja limpeza fica a cargo de um pequeno robô. Quando surge Eva, uma moderna e ágil robô, que servirá ao mapeamento de áreas vegetativas no mundo cheio de lixos e outros detritos, Wall-E logo se apaixona, dando um tom romântico para a trama profética. "Por ser uma arte que mobiliza uma série de códigos – visuais e sonoros -, o cinema consegue oferecer um espetáculo pós-apocalíptico mais envolvente", explica Alfredo Suppia, professor do Bacharelado em Cinema do Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF e autor do livro "A metrópole replicante: Construindo um diálogo entre Metropolis e Blade runner".

Segundo Suppia, além de pertencer ao gênero da ficção científica, o subgênero pós-apocalíptico ainda pode ser desmembrado em diversas outras categorias, dentre elas a chamada "terra arrasada", mais comumente frequentada pelo cinema hollywoodiano. Esses filmes, em sua maioria construídos no entorno de uma saga heróica, se iniciam em um cenário devastado e aterrador. Para o especialista, os maiores representantes dessa safra cinematográfica são "Mad Max" (1979), de George Miller com Mel Gibson no elenco; "A hora final" (1959), de Stanley Kramer, com atuação de Gregory Peck e Ava Gardner; e "La jetée", curta-metragem ficcional de Chris Marker, baseado em imagens em preto e branco fixas, sobre uma experiência pós-guerra nuclear.

 

"O uso da energia nuclear pode levar a um apocalipse, não é à toa que existem potências mundiais com bombas nucleares. De fato, a filmografia que faz essa reflexão é fundamentada", aponta Márcia Gomes de Oliveira, pesquisadora e diretora do Festival Internacional de Filmes sobre Energia Nuclear – Urânio em Movimento. De acordo com Márcia, o festival, criado em 2010, já soma mais de 130 filmes sobre o assunto, entre estrangeiros e nacionais. Preocupada em conferir maior visibilidade aos produtores brasileiros que se debruçaram sobre o tema nuclear, Márcia recorda o cineasta Roberto Pires, morto em 2001, vítima de câncer, causado, provavelmente, por seu contato com o metal Césio 137, durante as gravações do documentário "Césio 137: O pesadelo de Goiânia", de 1989. No Brasil, entre os filmes que tratam da questão, destacam-se "Abrigo nuclear", de Roberto Pires, lançado em 1981; "Parada 88", de José de Anchieta, de 1977; e "Brasil ano 2000", de Walter Lima Jr., lançado em 1968.

Uma das preferências do professor Alfredo Suppia, "Blade runner" também transita pela energia nuclear. Clássico cult, o filme dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford, Rutger Hauer e Sean Young foi lançado em 1982 e indicado ao Oscar no ano seguinte. "’Blade runner’ tem um cenário urbano, de megalópole, mas não deixa de ser pós-apocalíptico porque, além de ser fruto de uma degradação ambiental, no romance que deu origem ao filme, tudo se passa depois de uma guerra nuclear", afirma Suppia, comentando a forte realidade ainda presente nos filmes do gênero. "No campo das artes como um todo, e não necessariamente na ficção pós-apocalíptica, não é possível criar algo inimaginável. Nós trabalhamos dentro de certas balizas, que têm a ver com a nossa percepção. Algo muito radical seria o abstracionismo na pintura, mas, ainda assim, não é impensável", reflete.

Crítico cinematográfico no portal Pipoca Moderna e mestre em Estética, Rede e Tecnocultura pela UFJF, Dimas Tadeu aponta para o aumento dos símbolos relacionados ao fim do mundo ao longo dos anos. Segundo ele, o cinema contribuiu para o fortalecimento de uma representação do apocalipse no imaginário social. "O cinema e a arte em geral ajudam a construir a forma como as pessoas imaginam a realidade", explica Tadeu, que acredita ser impossível projetar o que seria o pós-apocalipse.

Para Suppia, o que menos importa no cinema pós-apocalíptico é a realidade futura, tendo em vista a profusão de possibilidades de reflexões que elas provocam. "Como um todo, essa ficção especulativa é voltada para o presente, não é um exercício de futurologia. Para o cinema pós-apocalíptico, não interessa se aquele futuro vai se concretizar ou não. As previsões tendem a falhar, mas elas funcionam como metáforas", defende o professor.