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Casa aberta


Por MAURO MORAIS

15/05/2013 às 07h00

Como em uma típica casa mineira, os jovens que adentraram o Museu de Arte Murilo Mendes na manhã de ontem foram recebidos com o entusiasmo de frases como "Isso aqui é uma casa de vocês, uma coisa pública" e se despediram com um lanche nas mãos. Se depender de Lidia Maria – que estava entre os 36 alunos das duas turmas do primeiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual Ali Halfeld, no Bairro de Lourdes -, o retorno está garantido. "Aprendi muita coisa que eu não conhecia", comenta a jovem de 15 anos. A amiga, Larissa Gonçalves, de 14 anos, também espera voltar, trazendo a família para ver as obras de César Brandão, suas preferidas. Apesar de gostar mais de música e já ter passado pelo museu por algumas vezes, cruzar a porta também foi uma boa experiência para João Victor Careli, 15, outro que deseja regressar, com mais tempo e calma.

Da receptividade do museu ao receber novos visitantes à receptividade dos pequenos estudantes com um universo ainda estranho a seus cotidianos, o clima de hospitalidade tomou conta da casa de Murilo. Mais que um passo rumo à tão almejada democratização de seus espaços museais, a UFJF dá um novo passo com o projeto Coletivo Cultural, o qual disponibiliza um ônibus para que estudantes de escolas públicas da cidade conheçam as exposições do local. "A visita é só um apontamento para uma grande proposta. A universidade tem a obrigação de oferecer uma cultura de longo alcance", analisa o pró-reitor de Cultura Gerson Guedes, contente com os 70 visitantes diários que o museu tem recebido desde a inauguração das últimas exposições, em abril.

Separados em duas turmas, os alunos passaram pelas três mostras em cartaz: "Murilo Mendes – O passeante moderno dos museus", sobre o patrono do espaço; "Homenagem à Kounellis", de César Brandão; e "A iminência das poéticas", seleção de obras expostas na 30ª Bienal de São Paulo. Tomando os cuidados para não resvalar em catequismo, os guias apresentaram as obras e, com frequência, perguntaram aos jovens se eles gostavam do que viam, ou o que sentiam diante dos trabalhos. Segundo Maria Inez Moyses, professora de artes da escola, que acompanhou uma das turmas, apesar de todo o trabalho feito em sala, a fim de criar o interesse pela arte nos alunos, ainda falta facilitar esse acesso. "Quando criamos o hábito, acabamos gostando. É preciso mostrar tudo sem imposições", comenta, certa de que, ao regressarem, a visita renderá muito trabalho.

  

Quebrando barreiras

De acordo com a arte-educadora do espaço Raphaela Corrêa, é preciso extrapolar os muros da escola, na certeza de que o museu também deve desempenhar um papel na educação. "A experiência vale como uma provocação, um convite ao retorno", afirma. "O Mamm está se abrindo. Facilitar o acesso da escola pública é um ganho muito grande", concorda Nícea Helena Nogueira, diretora do museu. Defendendo a formação de público para a arte como um dos caminhos para uma grande transformação social, Nícea explica sua compreensão para um dos termos mais recorrentes no universo artístico: "Entendo formação de público como trazer o estudante para cá, seduzindo-o para que volte e lhe dando os referenciais culturais necessários para a vida. Isso é treinar o olhar".

Num período em que as necessidades mais básicas para a sobrevivência ganham a cena em questionamentos acerca da urgência de uma maior igualdade social, Nícea acredita no efeito multiplicador de ações ligadas ao sensível, principalmente as que tocam gerações mais novas. "Acho que a cultura é tão essencial para o ser humano quanto o atendimento das necessidades primárias. A partir do momento em que você vê outras possibilidades de expressão, você forma um padrão de apreciação. As pessoas também precisam de poesia", observa.

Os trabalhos mais contemporâneos encantaram mais os estudantes. Com os olhos brilhando, eles observavam atônitos o vídeo sem título do islandês Hreinn Fridfinnsson e com a mesma curiosidade se impressionaram com a saga fotográfica do holandês Hans Eijkelboom. O hermetismo da complexa exposição foi superado pelo impacto de reconhecer gestos simples, como a porta quebrada do mesmo Fridfinnsson, que para eles ganhou ares de inserção, na percepção de que também podiam fazer daquela forma. "Esse recorte da Bienal ajuda na aproximação com o espectador. Não é nada que eles não estejam acostumados a fazer", avalia Vinicius Steinbach, também arte-educador do museu.

"Essa cultura para meia dúzia já acabou. Quem não percebeu isso perdeu o bonde do tempo", afirma Gerson Guedes, que ainda não conseguiu disponibilizar o ônibus todos os dias da semana, somente às terças e quintas, em horários no qual o veículo permanecia parado na garagem da universidade. Segundo ele, há um planejamento para que exista um coletivo apenas para o projeto, podendo servir às escolas nos horários que melhor convier. "Gostaria mesmo de levar esses estudantes para todos os espaços culturais dessa cidade", sonha Guedes, que na noite da segunda ficou até tarde pendurando o banner que estampava a logomarca, que ele mesmo criou, com o nome do projeto.