Não é Tabajara. É original da Zona da Mata

Gustavo e Gueminho no campus da UFJF
Irreverência é a palavra que define a dupla Gueminho Bernardes e Gustavo Mendes. Antes de começar a entrevista, marcada para a hora do almoço na última sexta na UFJF, eles olharam o prato pedido pelo casal da mesa ao lado. De brincadeira, e para colocar a garçonete um tanto maluca com o pedido, Gueminho dispara: "eu quero o dele", apontando para a mesa vizinha. Gustavo rebate: "Eu quero o que ela pediu, mas com tomate seco". A brincadeira, entretanto, se torna realidade, e é o que eles pedem.
Entre piadas sobre proteínas, verduras, acompanhamentos, bebidas e o tipo físico ideal e sonhado por ambos, os comediantes falam sobre a nova fase que chega para a carreira de ambos. Eles foram, recentemente, contratados pela Rede Globo e já integram a trupe do "Casseta e planeta – Vai fundo", que estréia no próximo dia 30, depois do "Globo repórter". Nesta segunda, eles partem para mais uma gravação, ainda rodeada de segredos contratuais, já que não podem dar pistas do que vai ao ar no final do mês.
Famoso principalmente pela imitação da presidente Dilma Rousseff, a quem chama de presidenta, Gustavo estará a cargo de levar a chefe do estado brasileiro para o programa. Gueminho, que dirige e atua no grupo de teatro TQ, ficará nos bastidores, escrevendo e roteirizando o que Gustavo levará para as telas. A contratação, oficializada no dia 29 de fevereiro, eles encaram não somente como um prêmio, embora comemorem o feito. "Lá é uma luta por espaço. Ganhamos a oportunidade para mostrar serviço e um lugar para levar o nosso trabalho", destaca Gueminho. "É um dos grandes orgulhos que tenho. Vim de Guarani a pouco tempo, e estamos entrando na Globo pelo nosso trabalho e talento. Não tem essa de padrinho", enfatiza Gustavo.
O reconhecimento veio do talento destacado na internet, em que Gustavo lançou-se na imitação da presidenta. "Tenho que chamar como ela gosta, não é", fala com carinho sobre a personagem. Para ambos, a chave do sucesso obtido veio a partir do texto, da construção das situações da Dilma e da imitação de Gustavo. "Criamos um conteúdo muito vasto para a personagem a ponto de hoje poder fazer com ela qualquer coisa. De dar dica de moda até demitir ministro", pontua Gueminho. Gustavo ainda destaca a curiosidade dos brasileiros em ouvir Dilma como outro fator relevante.
A Dilma de Gustavo está longe de ser uma figura "paz e amor", embora inevitavelmente faça um coração com as mãos. É ácida, brava e enfática. Para os fãs desta Dilma, eles garantem que sua essência vai continuar na TV. O medo e uma autocensura no momento da contratação deram lugar à coragem de optar por fazer o próprio trabalho, da maneira como vem sendo feito e esperar o resultado. "A Globo está nos dando liberdade para criar. É claro que na TV falamos para a família, entramos na casa das pessoas, portanto algumas coisas vão mudar, mas nada que vá desagradar nossos fãs da internet", promete Gustavo.
Para compor sua presidenta, Gustavo baixou na internet o que encontrou sobre ela e, por um mês, assistiu a tudo para pegar sua essência. O primeiro vídeo foi gravado justamente no dia em que a então candidata foi eleita ao cargo máximo do país.
A primeira vez
A primeira gravação com os Cassetas ocorreu há cerca de duas semanas. Logo na cena inicial, um filme passou pela cabeça dos dois: a lembrança da primeira gravação, amadora, da presidenta. A bandeira do Brasil ao fundo era uma canga de praia da ex-mulher de Gueminho pregada na parede com fita crepe. "Quando chegamos para gravar no Rio, vi o cenário todo montado, com um banner gigantesco e a mesa da presidenta, achei que o Gustavo ia se sentir sufocado. Mas isso não aconteceu. Ele logo colocou o pé na mesa e começou a interpretar. Então, fiquei observando toda a equipe rindo do que estava acontecendo. Chorei quando vi tudo isso", conta Gueminho.
Apesar de receber com felicidade a aprovação de Dilma para sua imitação, Gustavo não acredita na necessidade de aval por parte de seus imitados. No repertório, além de Dilma, estão cantoras como Ana Carolina, que ele "coloca para cantar" o hit "Ai, se eu te pego", ou Maria Bethânia, que canta um funk. "Com todo respeito ao imitado, não acho que eles devam ou não concordar com o que um humorista faz, principalmente um político. Quem coloca a cara na dianteira tem que estar sujeito a isso. Eu iria me preocupar com uma rejeição do público, que seria o momento para fazer uma reflexão sobre o meu trabalho."
Desde os 8 anos, Gustavo já sabia que ia enveredar pelo teatro. Houve um tempo em que, ainda criança, quis ser pastor evangélico, já que esta era a "única referência de palco que tinha, e padre era muito chato". Para ser ator, o apoio veio da mãe e do avô. Seu pai, porém, tinha certa resistência. "Meu pai queria ser jogador de futebol e por isso desistiu de fazer o curso de laticínios em Juiz de Fora. Não deu certo, e ele se tornou comerciante. Quando me viu largando o mesmo curso para fazer teatro, ficou preocupado." Para não voltar para Guarani, investiu em sua primeira peça "Família unida se lasca unida", em 2007. Pouco depois, conheceu Gueminho e, desde então, divide com ele o trabalho no humor, mas com uma "frustração": "fui da Record, sou contratado pela Globo, mas até hoje não consegui entrar para o TQ."









