De volta ao começo
Milton Nascimento é homem de palavra. Na consagrada "Canção da América", promete a um amigo que voltará a encontra-lo qualquer dia e, no caso de Juiz de Fora, voltou mesmo.Quase um ano após estrear o show comemorativo de seus 50 anos de carreira no Cine-Theatro Central, em abril de 2012, o artista apresenta hoje os maiores sucessos de sua trajetória em "Uma travessia", clara referência à canção que, segundo o próprio, "foi o começo de tudo". "Foi o Agostinho dos Santos que a inscreveu no Festival da Canção, com outras duas, eu fui saber muito depois, quando as músicas já estavam classificadas. Se não fosse ele fazer isso tudo escondido, talvez eu ainda demorasse muito tempo para aparecer com meu trabalho", conta Bituca, como é carinhosamente chamado, em entrevista à Tribuna.
O retorno tem sabor de acolhimento, já que os grandes amigos juiz-foranos rendem várias visitas por ano à cidade. "Além disso, tocar no Central é sempre uma honra muito grande, é um dos melhores teatros do Brasil. Inclusive, no começo dos anos 1990, fiz questão de participar do seu movimento de reabertura. Era um absurdo completo um teatro desse nível ter passado tantos anos abandonado. Me lembro também de que o slogan da campanha foi tirado de um depoimento meu: ‘Central, a emoção de todos nós’".
Ao lado de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Ney Matogrosso, Milton faz parte de um seleto grupo de músicos brasileiros que – ainda bem, diga-se de passagem – viu o passar dos anos de cima dos palcos, em plena atividade. "É um privilégio que me deixa até sem palavras. Além de ter o prazer de estar no palco, também temos a oportunidade de fazer muitos amigos por todos os lugares que passamos, aqueles que a gente reencontra nessas viagens", diz ele, com a simplicidade típica de Minas, que acolheu o carioca de berço ainda menino.
Na noite de hoje, a poderosa voz de Milton, que segundo Elis Regina, seria a que Deus teria se cantasse, interpretará verdadeiros hinos, como "Coração de estudante", " Nos bailes da vida", "Maria Maria" e "Caçador de mim". "Entre tantos discos, foi muito difícil chegar ao repertório", confessa o músico, referência na cultura brasileira não só pelo timbre, mas pela beleza de composições que vão da leveza do Clube da Esquina à acidez de críticas ferrenhas ao regime militar.
No que depender dos planos de Bituca, a "Travessia" em 2013 será movimentada. Além da continuidade da turnê, o cantor terá histórias de sua vida contadas por Chico Amaral em um livro. Ainda em março, no dia 20, o musical "Nada será como antes" estreia em São Paulo. Também este ano, a Editora Abril lança uma caixa com 20 álbuns do cantor, que terá todo seu acervo digitalizado pelo Instituto Antônio Carlos Jobim. "Muitas outras coisas muito importantes devem acontecer, mas ainda não posso falar, é surpresa!", conta ele, aguçando nossa curiosidade.
‘Que notícia me dão dos amigos?’
Se na belíssima "Nada será como antes", Milton canta sobre o desconhecimento do paradeiro de companheiros do passado, o mesmo não acontece com seus parceiros musicais de longa data. No show "Uma travessia", Bituca divide o palco com os amigos Wagner Tiso e Lô Borges, que o acompanharam em importantes passos da trajetória.
"Conheci o Milton ainda criança em Três Pontas. Ele me contou, anos depois, sobre uma certa birra pelo que diziam na cidade: que todos os músicos eram ‘Tiso’. Na época ele dizia que nunca tocaria com um de nós. Mordeu a língua, está tocando comigo até hoje", diverte-se Wagner, fiel escudeiro de Bituca em diversos momentos destes 50 anos e co-autor de um dos sucessos mais aclamados, "Coração de estudante". "Pouca gente sabe, mas ele pegou uma melodia que compus para o filme "Jango" e fez a letra, que fez da canção o que ela é. Se não fosse pelo Milton, ia ser mais uma das centenas de trilhas que fiz para filmes", revela o instrumentista.
Ao contrário do que a história parece querer pregar, não foi em uma esquina da vida que os caminhos de Lô Borges e Milton se cruzaram, mas nas escadas do Edifício Levy, em Belo Horizonte. Com apenas dez anos, o jovem Lô desceu os degraus procurando o dono da voz e dos acordes de violão que tanto o encantavam, encontrando o vizinho músico, na época com 20 anos e amigo dos dois irmãos Borges mais velhos, Márcio e Marilton, que também viriam a integrar o Clube da Esquina no fim dos anos 1960. "Quando ele disse que queria dividir um disco comigo, eu ainda nem tinha 18 anos. Foi uma surpresa e algo que mudou minha vida. Na época, eu compunha, mas não pensava em seguir carreira musical."
No show, os convidados especiais participam com canções que traduzem a estrada ao lado de Bituca, e ambos comemoram o reencontro. "É muito bom poder estar no palco novamente com alguém que tenho como mestre", diz Lô Borges. Além da satisfação pessoal, Tiso também destaca o prazer profissional de estar ao lado do amigo, com quem percorreu tantos bailes da vida e bares em troca de pão. "Tocar com ele é a coisa mais bonita que existe. Nunca vi um artista que dá tanta liberdade aos seus parceiros musicais para serem quem são e fazerem o que fazem melhor."
Mais passos na ‘travessia’
Iniciada no ano passado, a turnê "Uma travessia" foi parte das comemorações dos 50 anos de carreira de Milton e ainda renderá frutos este ano, com o lançamento de um DVD homônimo, dirigido por Régis Faria, também diretor do show. O material traz o show, entrevistas e imagens de ensaios e bastidores.
"Quisemos mostrar o Milton como ele é, sua representatividade na cultura brasileira, e o repertório foi escolhido com composições que ilustram isso. Mas procuramos ressaltar sua relação com os músicos, usamos ângulos distintos dos tradicionais, com um olhar mais documental", conta o diretor, que também integra o círculo de amizades do artista.
Segundo Régis, o produto final, que deve ser lançado em abril, não será igual a show algum da turnê. "Porque o Milton nunca faz o mesmo show! Ele tem uma coisa de improviso, até meio jazzística, de deixar os músicos exercerem sua criatividade, o que faz com que cada apresentação seja singular." Apesar disso, além de Lô Borges e Wagner Tiso, há outra participação especial das apresentações que se repete no DVD. "Como o show passeia pelos grandes sucessos da carreira dele, o público é praticamente uma segunda voz, é emocionante de ouvir."
UMA TRAVESSIA
Com Milton Nascimento
Hoje, às 21h30
Cine-Theatro Central
(3215-1400)









