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Mãos cheias de ficção e realidade


Por MAURO MORAIS

24/07/2013 às 07h00

Ao reunir seus sentimentos mais sinceros aos muitos traçados estéticos e discursivos que havia aprendido ao longo da carreira, Cristovão Tezza ganhou notoriedade, além dos mais importantes prêmios nacionais (Jabuti, São Paulo de Literatura e alguns outros) e a oportunidade de viver apenas das palavras com O filho eterno. Em seu relato ficcional com altas tintas biográficas, o autor revela o tortuoso caminho entre a descoberta do diagnóstico do filho com síndrome de Down até o desfecho de aceitação e amor. Nascido em Lages, interior de Santa Catarina, Tezza lançou mais de uma dezena de títulos antes de ganhar o mundo – literalmente, já que o autor foi traduzido em mais de seis línguas, dentre elas inglês, francês e espanhol. Em Um operário em férias (Editora Record, 230 páginas), que acaba de chegar às prateleiras, o escritor, que já foi professor de linguística na Universidade Federal do Paraná e hoje se dedica ao mercado literário, confirma sua queda para o real em cem crônicas retiradas do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, do qual é colaborador desde 2008.

Organizada pelo jornalista e professor Christian Schwartz, a coletânea parte da multiplicidade de temáticas das crônicas para confirmar o vigor estilístico do escritor. Tezza se mostra um pensador perspicaz do Brasil e do mundo, e – mesmo em textos curtíssimos e no fio da navalha entre fato e ficção que é a crônica – é o ficcionista de sempre, de mão cheia, comenta Schwartz, que escolheu o título, retirado de um dos textos, para brincar com a entrega total do escritor diante do universo dos livros. Desde que se decidiu pela escrita, ele não tira férias, mas, em contrapartida, vive intermináveis momentos de prazer proporcionados pela profissão. Na maior parte do tempo, o romancista – esse sujeito sempre cercado de certo mistério, uma aura até inexplicável num país, em geral, indiferente à literatura – se revela homem comum, caseiro, analisa o jornalista.

Curiosidades de leitor

Entre os muitos impulsos que levaram Cristovão Tezza a escrever semanalmente para um jornal destacam-se os textos que se referem à arte da escrita. Do mercado às participações em feiras e palestras, passando pelo doloroso processo de criação, algumas das crônicas revelam o complexo meio literário, que já não sobrevive apenas das vendas e muito menos da ideia romântica do escritor com a pena na mão diante de uma folha minuciosamente escrita. Minha profissão é uma fraude, ou, dizendo de outro modo, somos livres atiradores, mais ou menos como bicheiros, mas felizmente sem sofrer nenhuma perseguição legal – pelo menos em tempos democráticos, escreve em Ser escritor, concluindo com uma boa dose de humor: Ninguém quer um escritor para nada. E no entanto trabalhamos sem parar. Estou sempre na luta, para garantir meu espaço.

Pouco à frente, ainda no primeiro capítulo da coletânea – A vida é sonho, um dos melhores – Tezza discute dom e técnica em sua artesania. Segundo ele, todas as pessoas estão intimamente ligadas à literatura. É verdade que é preciso ter alguma inclinação inicial, sempre misteriosa – mas a questão central está em outra parte: é a vontade, ou o desejo, de escrever. Para quem não quer ser apenas um diletante, o desejo de escrever é uma aposta quase que sem volta que acaba por ‘escrever’ o escritor, analisa. Na crônica A primeira crítica, o escritor recorda o julgamento de um professor ginasial, um dos primeiros de sua extensa carreira. À distância de quase meio século, não lamento. É tentadora a ideia de dar ao incidente algum sentido e decidir, que, naquele instante, pressenti que o problema central da literatura seria antes ético que técnico. Talvez, mas não pelo momento, que apenas indicava que ele não conhecia nada de literatura, diverte-se sobre o mestre arrogante.

Passadas crônicas sobre as leituras feitas por Cristovão Tezza, a paixão pelo futebol, assuntos triviais e cheios de lirismo, a vida excêntrica de Curitiba, onde vive e reflexões políticas e sociais sobre o país e o mundo, o organizador prepara para as últimas páginas a apoteose de Um operário em férias. Seis pequenos contos publicados no espaço da Gazeta demonstram que, de fato, Tezza é um ficcionista. História de amor, sobre o reencontro de um casal que se conheceu quando jovem mas seguiu caminhos opostos, é uma das grandes joias que o livro reserva. A trama parece identificável, parece comum, parece real, mas é a pura poesia do cotidiano que o autor de O filho eterno faz com incontestável talento.