Nos livros e nas galerias
Um ofício que se equilibra sem hesitar entre ciência e arte. A ilustração científica está nos livros de pesquisa, mas também nas galerias. Prova disso é a exposição "Passaredo", do mineiro Raphael Dutra, em cartaz no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm). Autodidata, Dutra se interessou cedo pelos animais. Depois veio o desenho. Hoje, ele produz ilustrações para biólogos e empresas do país e do exterior, usando aquarela com guache sobre papel ou acrílico sobre tela. "Sou um plagiador do que Deus criou", brinca. Mamíferos em geral e borboletas estão no cardápio do artista. Os pássaros, porém, consomem a maior parte de sua rotina, que inclui ainda aulas de canto popular. "Sempre estive ligado à arte", comenta o professor, lembrando que foi vocalista da antiga banda de Emmerson Nogueira.
As aves também são a especialidade de Eduardo Brettas, que utiliza a técnica guache sobre papel. Atualmente, ele trabalha no livro "Terra Papagalli", que incluirá todas as espécies da família dos papagaios do país, cerca de 85. A publicação, da Editora Marte Impressões do Brasil, será lançada em 2014, ano da Copa do Mundo verde-amarela. "Serão realizadas em paralelo mostras pelas principais capitais", avisa Brettas. De acordo com ele, a maioria de seus clientes está no exterior, tanto que nunca promoveu uma exposição por aqui, embora tenha exibido pranchas em Atlanta (Estados Unidos) e Dubai (Emirados Árabes).
O artista autodidata, que já ilustrou calendários, camisetas e caixas de alimentos para animais, divide seu ofício em duas fases: antes e depois da internet. Para ele, o recurso facilitou o contato entre os profissionais e a divulgação de informações. "No passado, o círculo era fechado, as pessoas não repassavam os conhecimentos", comenta, lembrando que descobriu a tinta certa para sua atividade, ainda na década de 1990, por meio de uma foto de revista. Quando começou, em 1997, Raphael Dutra encarava uma maratona de ligações telefônicas para fechar contratos. "Hoje, tudo é feito via web."
Riquezas da região
Debruçado na feitura de um livro sobre aves da Bolívia, Dutra, natural de São João Nepomuceno, chega a demorar 15 dias em uma única imagem. Cheia de detalhes e extremamente minuciosa, a ilustração científica exige concentração, como explica o mineiro. "Em alguns dias, a questão não flui. Às vezes, tenho a síndrome do papel em branco, e só relaxo quando consigo levar o que imaginei para o papel." Eduardo Brettas também enfrenta momentos de crise criativa. Nesses casos, prefere engavetar as pranchas por um tempo. "Quando volto a elas, vejo que estava no caminho e logo me deparo com a solução."
O bom profissional, na opinião de Brettas, é aquele que circula com facilidade entre ciência e arte. Além de se preocupar com a posição, a cor e a textura corretas, o ilustrador deve buscar a harmonia da obra. Raphael Dutra concorda: "a composição e o olhar atento à paisagem são os diferenciais". De acordo com ele, a Zona da Mata é uma região esquecida pelos estudiosos, apesar da natureza privilegiada. "Faltam pesquisas", aponta, ressaltando os cerca de 250 tipos de pássaros encontrados na Reserva de Poço D’Anta.
Segundo o biólogo Luiz Menini, a Mata do Krambeck também é interessante para o trabalho em campo. Ilustrador botânico, ele produz imagens para a UFJF. Além de observar as plantas de perto em seu habitat, Menini recorre aos herbários (onde as espécies estão dessecadas, conservadas e organizadas), aos espaços de cultivo (que mantêm as espécies vivas) e às fotografias. Nesse último caso, o biólogo adverte sobre o cuidado com as identificações. "Não se pode escolher qualquer foto na internet."
Para Raphael Dutra, no campo científico, há lugar tanto para ilustradores quanto para fotógrafos. "Mas a ilustração seduz pela ludicidade e pelas possibilidades de registro. Um fotógrafo não consegue, por exemplo, todas as fases de crescimento de uma ave", analisa o artista, que coleciona livros sobre animais.
Luiz Menini, também professor do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF), menciona que, por permanecer estáticas, as plantas podem ser reproduzidas mais facilmente. Depois de fazer um esboço a lápis, o artista prepara a arte-final com nanquim. O computador é usado apenas para digitalização e ajuste de contraste. O mesmo acontece com Eduardo Brettas e Raphael Dutra, que recorrem à tecnologia somente para escanear os materiais. Após fazer anotações e desenhos em campo, eles buscam informações de cores e texturas em museus, como o Museu Nacional da UFRJ, onde as aves estão taxidermizadas (empalhadas). "Depois de um tempo, as referências ficam guardadas na mente", assegura Brettas, comentando sobre a escassez de profissionais da área no Brasil. "Ilustradores de botânica até são comuns, mas vemos poucos especialistas em aves."
Para montar sua exposição, Dutra garimpou os poucos trabalhos que arquiva. Brettas também vende os originais, permanecendo com os direitos de uso. "Outra opção é negociar a imagem como exclusiva por um tempo", completa. No Brasil, como salienta Dutra, a arte naturalista é pouco divulgada, embora não haja preconceitos. "Nos Estados Unidos, vemos inúmeras galerias especializadas", compara.
PASSAREDO
De terça a sexta, das 10h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h. Até 8 de janeiro
Mamm
(Rua Benjamim Constant 790 – Centro)









