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Memória e ancestralidade de um povo


Por MARISA LOURES

02/07/2013 às 07h00

Em uma roda de canto e dança acompanhada pelos batuques dos tambores, Jefinho, jongueiro jovem, roga à "Saravá jongueiro velho, que veio pra ensinar, que Deus dê a proteção pra jongueiro novo pro jongo não se acabar". Também decidida a perpetuar o legado cultural da população negra às gerações futuras, a professora do Colégio João XXIII e doutoranda em educação pela Universidade de São Paulo, Carolina dos Santos Bezerra-Perez, levou para "Saravá jongueiro velho!", livro que ela lança nesta terça (2), às 20h, no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), os estudos realizados na comunidade do Tamandaré, que fica em Guaratinguetá/SP, a 15 minutos da cidade de Aparecida. Antes, a partir das 18h, ela profere a palestra "Corpo, memória e ancestralidade", seguida de uma roda de jongo, dentro da programação do 5º Festival Nacional de Dança, realizado pela Funalfa até o dia 7 de julho.

Nas 328 páginas da publicação, que tem selo da editora UFJF, a pesquisadora lança um olhar antropológico sobre o jongo (caxambus, candombes, batuques de umbigada, outras das denominações para a prática) enquanto manifestação artística oriunda das senzalas das fazendas de cana-de-açúcar e de café, mas também como uma forma de transmissão de conhecimento e de resistência. Carolina "mostra como se desenvolvem os vínculos afetivos e familiares que perpassam as relações entre seus membros", aponta Maria do Rosário Silveira Porto, professora da Faculdade de Educação da USP, no prefácio da obra.

"Ensinar os cantos, as danças, o sentimento com relação ao sagrado, era continuar a existir mesmo depois da morte, era projetar e lançar à frente o que havia permanecido vivo no negro de África, e necessitava que fosse adiante para além de uma existência momentânea, para além das condições adversas em que sua própria sobrevivência encontrava-se ameaçada", diz a autora, que registrou relatos de pessoas simples, mas sábias, como o seu Antônio Fortunato, o Togo. "Pro jongo não acabar tem que ter uma reunião de diretoria boa, tem que chamar as criançada, os jovens que está crescendo aí, e vamo fazê uma escolinha de jongo e vamo tocá pra frente, assim não acaba o jongo, mas se não toca acaba, né, pois os ancião morreno tudo, as crianças vão tudo de papagaiada de pagode, o outro vai pra droga, aí acaba o jongo. A direção do jongo que tem que ver isso aí", falou o jongueiro em depoimento transcrito por Carolina.

A pesquisadora defende que, apesar de ser um livro acadêmico, ampliação do seu trabalho de mestrado, ela afirma que sua leitura é passível de ser degustada por qualquer pessoa, não só os iniciados no assunto. As personagens e suas análises vão sendo apresentadas em capítulos, divididos de acordo com os acontecimentos observados nos rituais realizados nas três festas promovidas em sintonia com o calendário católico: Santo Antônio, São João e São Pedro. "Carolina Bezerra-Perez, com sua costumeira sensibilidade e domínio da linguagem simbólica, tece uma descrição viva dessa expressão que vem sendo paulatinamente reconhecida nos meios acadêmicos e educacionais por sua força e relevância no contexto da cultura africana e afro-brasileira", afirma José Abílio Perez Junior, doutorando em ciência da religião pela UFJF.

 

Patrimônio que deve ser reconhecido

Nascida e criada em meio a cultos e saberes nordestinos, desde pequena, Carolina guarda consigo "uma ideia que lhe dava leve consciência de sua espécie e de sua cor", como escreveu Clarice Lispector em trecho escolhido pela pesquisadora para a introdução do livro. Contudo, foi na universidade, quando atuava no Núcleo de Consciência Negra da USP e na coordenação pedagógica de um curso Pré-Vestibular para a população negra e de baixa renda, que ela decidiu se debruçar sobre o tema. Na visão dela, o trabalho torna-se necessário por jogar luz sobre as contribuições dos afrodescendentes, em um momento em que há a necessidade de efetiva implantação das leis que estabelecem a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígenas em todas as escolas do país, sejam elas públicas ou particulares.

"É necessário que revertamos o imaginário negativo com relação à população e à cultura negra, já que, através do conhecimento e da valorização desses saberes, articulados a outras frentes de implementação de políticas públicas para a população negra, teremos possibilidade de difundir o jongo", afirma a autora, destacando que a prática foi tombada como patrimônio cultural e imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2005. "Como patrimônio, é um direito que ele seja conhecido e reconhecido na sociedade como as raízes, o legado cultural que nossos ancestrais trouxeram e que aqui o utilizaram para apaziguar a tristeza do cativeiro e a saudade de sua terra", finaliza.

 

LIVRO, PALESTRA E RODA DE JONGO

Nesta terça (2), a partir das 18h, no Mamm (Rua Benjamin Constant 790)