Diário de bordo
Realizo meu doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais na Universidade Federal de Juiz de Fora, onde estudo as relações desiguais de gênero no mercado de trabalho e a presença da mulher no trabalho informal. Fui contemplada através do PDSE/CAPES com uma bolsa de doutorado sanduíche para aprimorar minhas pesquisas para a tese no Instituto de Ciências Sociais (ICS) na Universidade Clássica de Lisboa, Portugal. Ao embarcar para o doutorado em outubro de 2012, não esperava realizar com tanta plenitude este sonho acadêmico alimentado há quase 15 anos. Vamos por pontos. Inicialmente: morar sozinha ou em república? É importante ressaltar que morar na residência própria para pesquisadores estrangeiros e professores foi uma decisão acertada, pois a experiência me permitiu conviver de forma próxima com pessoas de culturas diferentes da minha, dividindo banheiro, cozinha, sala e apenas uma televisão.
Quando cheguei, era a única brasileira e morei com colegas de seis nacionalidades. Aprimorei a paciência, o amadurecimento, o valor àqueles que estão distantes, abriu-se espaço para ser melhor em várias áreas. Outro ponto foi a relevância de estudar no ICS, um importante centro de investigação em ciências sociais de Portugal. Obtive todo o apoio do Instituto, como laboratório, gabinete e impressão para a realização das pesquisas. A minha tese ganhou uma dimensão muito rica com a bibliografia internacional consultada e com as leituras que eu já havia me dedicado no Brasil.
Mas o ponto alto no estudo ocorreu durante o contato com as brasileiras que trabalham em profissões com remunerações mais baixas. Conversei com diaristas, restauradoras e manicures. Percebi de perto seus medos e receios, embora nem todas apresentassem consenso sobre voltar para o Brasil. Destaco a importância destas mulheres no período da minha permanência em Lisboa, como me ajudaram e se tornaram próximas. Do ponto de vista cultural, Portugal é um país belíssimo e, comparado a outros países europeus, é bem mais barato para se conhecer.
Elaborei um cronograma de estudo, fui dedicada e disciplinada para ter a oportunidade de visitar alguns pontos turísticos. Aliado a isso, o levantamento e o controle das despesas que teria durante todo o período foram importantes para que conseguisse me programar financeiramente e soubesse empregar bem a minha reserva.
Encerrei este ciclo em março. Há domingos em que sinto saudades do Rossio, de caminhar até a Praça do Comércio (Terreiro do Paço) e de contemplar o Rio Tejo, sereno, refletindo o sol, enquanto o Cristo, de braços abertos, observa a 25 de abril e os inúmeros lisboetas e imigrantes que por ali transitam procurando uma resposta qualquer para a vida. Mas uma coisa esta experiência me ensinou: para tudo existe um tempo. E o tempo agora é de lançar sementes em outras direções.









