‘Não vou ficar refém de apenas reclamar dos problemas sociais’
Ele driblou o errado, hoje fala querendo entender, canta para espalhar o saber e para mostrar que "há sempre um mundo, apesar de já começado, há sempre um mundo pra gente fazer, um mundo não acabado". Ele, o personagem de "Milionário do sonho", poema de Elisa Lucinda, pode ser Emicida que escolheu os versos para abrir seu primeiro álbum, "O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui". Nascido Leandro Roque de Oliveira, o jovem de 28 anos cresceu no Jardim Fontalis, Zona Norte de São Paulo, e ganhou o país com sua fusão do rap com outras linguagens musicais. Em "Samba do fim do mundo", ao lado das cantoras Fabiana Cozza e Juçara Marçal, Emicida evoca os ritmos africanos, lançando mão dos tambores e da agressividade de versos como "É preciso não ter medo, é preciso ser maior". Mas ele é pop rock também, com Pitty, em "Hoje cedo". Junto de Tulipa Ruiz, bebe na fonte da bossa, brincando com a paternidade: "menos um dente, joelho ralado e eu atrás tipo um velho, cuidado, cuidado". A filha, Estela Vergílio, divide com o pai os vocais da canção. Mas é a mãe de Emicida, dona Jacira, a responsável pelas lágrimas do disco recém-lançado. "Crisântemo" conta a história da morte do pai do cantor, com a voz da mãe, relatando em primeira pessoa, as dores da palavra órfão. A vida, segundo a música, é só um detalhe. E parece que é seguindo tal filosofia que o rapper, que lançou em 2008 sua própria gravadora Laboratório Fantasma, segue sua rotina comum. Em entrevista à Tribuna, Emicida, que faz show no Cultural Bar nesta sexta, às 23h, fala de sua carreira e de suas influências, confirmando o que diz em "Levanta e anda": "nos basta só sonhar, seguir".
Tribuna – Sua carreira não começou agora, mas o reconhecimento amplo parece recente. Como lida com o sucesso?
Emicida – Acho que com os pés no chão. Quem convive comigo sabe que continuo tendo a mesma rotina que tinha há sete anos. Venho todo dia para o trabalho, ando a pé na rua, faço os meus corres como qualquer pessoa.
– Mesmo conhecido, aparecendo na TV e tocando no rádio, você ainda segue na carreira independente, com seu próprio selo e com a sua turma. Como classifica essa independência?
– Não sou inimigo das gravadoras, mas até hoje nunca tive qualquer proposta realmente interessante e que eu achasse que está à altura do trabalho que estamos desenvolvendo. Conquistar espaço nesse mercado sendo independente é um grande feito, e não foi fácil no começo, não é fácil hoje. Talvez por isso, para que eu abra mão agora, a proposta terá que ser realmente muito boa. Eu classifico isso, sendo assim, como amor à música, à minha arte, valor ao meu trabalho de tantos anos.
– Ainda que o rap tenha um grande processo de elaboração, ele não é reconhecido como poesia. Ao contar com a Elisa Lucinda e recitar versos, você parece evidenciar essa estreita relação…
– Espero que isso mude. Vou até o fim dos meus dias brigando por isso. Para que a nossa arte seja reconhecida com o valor que merece. Eu sou grande fã da Elisa e de poesia. Me identifiquei demais com "Milionário do sonho" quando ela me mostrou. Eu havia pedido que ela escrevesse algo para o disco, ainda sem saber como usaria. Quando li o poema, nem acreditei. Ela nem havia ouvido o disco, mas as músicas parecem conversar com o texto, daí surgiu a ideia de espalhá-lo ao longo do disco.
– Seu disco, "O glorioso retorno…", toca nas feridas sociais de forma bastante sensível, e seu canto também segue nesse sentido. Onde está sua agressividade?
– Acho que está em algumas das minhas letras, canalizo para a minha arte, para as causas que julgo justas e defendo.
– Em "Crisântemo", você expõe uma dor pessoal com uma linguagem extremamente universal. Como surgiu o desejo de contar a história da perda de seu pai?
– Acho que cheguei a um momento de amadurecimento em relação a essa situação, em que me senti pronto para revivê-la de alguma forma. Trazer minha mãe para esse contexto, em uma música, foi a maneira que encontrei de me expressar sobre isso.
– O quanto de biográfico há na sua arte?
– Há algumas situações pontuais e outras livremente inspiradas em coisas que escuto, leio ou vejo. Não quero e não vou ficar refém de apenas reclamar dos problemas sociais. É poesia, arte, e isso implica em ser livre.
– Logo na capa você exibe uma classe que está presente em todo o disco. Por que apresentar essa fala que é denúncia com a classe que o faz?
– Porque não vejo razão para que as duas coisas não andem juntas. Só por que é rap, denuncia desigualdades sociais, não pode ter terno, ser bonito? (risos)
– Seu disco escancara várias referências para além do rap. Quais são as suas principais influências?
– Nossa, admiro muitos nomes. Desde uma rapaziada nova do rap, como Amiri, passando por nomes como Flora Matos e Rael – que eu admiro tanto que trouxe até para o meu selo (risos) -, Ogi e, claro, Racionais, Sabotage. Fora do rap, tem Caetano, Djavan… São muitos nomes. Sou muito influenciado pelo samba de Adoniran Barbosa, por Clementina de Jesus…
– Seus shows hoje devem ter uma galera completamente misturada, do morro, do asfalto… Esse era seu desejo de sempre?
– Claro, eu brigo para ver o rap reconhecido como música. Para levá-lo a lugares com boa infraestrutura. Quero espalhar minha mensagem o máximo possível, para o maior número de pessoas possível.
Emicida
Hoje, às 23h
Cultural Bar (Av. Deusdedith Salgado 3955 – Teixeiras)









