Domínio do cotidiano
Sempre irreverente, Millôr Fernandes foi direto ao ponto. "Inúmeros artistas contemporâneos não são artistas e, olhando bem, nem são contemporâneos." A máxima do humorista, falecido em março, aos 88 anos, evidencia as polêmicas que rodeiam determinado fazer artístico posterior ao famoso urinol do francês Marcel Duchamp. Há algumas semanas, a Tribuna publicou uma reportagem que discutiu uma possível renúncia da técnica nas artes visuais. Agora, esse e outros assuntos se estendem por várias molduras: teatro, dança, música e cinema.
Não raro, diante de uma obra da atualidade, espectadores franzem a testa e questionam o valor do produto acomodado em ribaltas ou salas de exibição. Segundo Daniel Quaranta, pesquisador e professor do curso de música da UFJF, as manifestações contemporâneas, muitas vezes, exigem esforço do fruidor. "A apreciação acontece quando se tem entendimento do contexto." Como explica Quaranta, o século XX fissurou as narrativas lineares. Ainda que fale por si mesma, a arte passou a depender de atitudes ativas e da percepção de detalhes. "Só assim podem surgir as múltiplas interpretações."
Na opinião de José Fernando de Azevedo, docente da Escola de Arte Dramática da Universidade Federal de São Paulo, a junção de pesquisa e feitura permitiu novo tipo de relação com a plateia, a partir da alteração das noções de formação, instrumento e técnica. Um exemplo: em "Quem não sabe mais quem é, o que é e onde está precisa se mexer", da Cia. São Jorge de Variedades, os atores saem às ruas da Barra Funda, em São Paulo, e levam o público que encontram ao teatro para uma montagem que mescla textos do alemão Heiner Müller, além de discursos de Rosa Luxemburgo e trechos do roteiro de "O bandido da luz vermelha".
Cotidiano
Diante do cenário econômico e social atuais, artistas constroem formas outras de produção e, consequentemente, novas estéticas. Estas, de acordo com Azevedo, não se desvinculam da dimensão política. A coreógrafa de Belo Horizonte Dudude Hermman concorda, acrescentando que enveredou pela improvisação a fim de continuar se expressando, pois não contava com possibilidades de viabilização.
Dudude enfatiza a presença do cotidiano na arte. Para ela, a performance surge como campo híbrido, capaz de misturar habilidades e torná-las mais imediatas. Ir para a rua ou trazê-la para o palco, portanto, apresenta-se como uma maneira de capturar espaços sonegados. Segundo o professor do curso de dança da UFMG, Arnaldo Leite de Alvarenga, os fatos do dia a dia sempre estiveram associados à criação artística, desde os gregos, que tratavam em cena questões sociais e políticas. O acadêmico afirma que o cotidiano pode ser representado ou, ainda, vivido, como acontece no caso das performances. Conforme ressalta o docente do curso de teatro da mesma instituição, Luiz Otávio Carvalho, a rotina do ser humano é um fundamento das artes cênicas.
Carvalho, pesquisador das teorias sobre formação, acredita que a técnica seja imprescindível para qualquer ator, ainda que ela não fique explícita. "Isso não passa pelo aprender a atuar, mas pelo aprender a se desbloquear." De acordo com o professor, todo indivíduo que pensa, fala e anda está apto ao teatro, mas necessita de treinamento para transgredir a interpretação reflexiva – que todos praticam desde a infância – e alcançar a condição artística.
Performance e outros corpos
As fronteiras entre os gêneros estão cada vez mais esfumaçadas. Assim assevera Arnaldo Alvarenga, observando que os atores têm mais facilidade para admitir estar com os pés no terreno da performance. "Os bailarinos que lidam com essas ferramentas, em geral, continuam dando a elas o nome de dança." A partir da década de 1970, um novo teatro – chamado pelo alemão Hans-Thies Lehmann de pós-dramático – vem se transferindo da representação para a presença, do resultado para o processo, da significação para a manifestação e da experiência transmitida para a partilhada, como menciona a autora Silvia Fernandes, em seu artigo "Subversão no palco".
Sobre a necessidade da técnica na dança, Arnaldo Alvarenga explica que ela depende da linguagem escolhida. Se o balé clássico exige excelência em certo conhecimento físico, outros estilos recorrem a instrumentos exteriores à dança, como artes marciais e pilates. "Trata-se de uma maneira distinta de organização do corpo", comenta o acadêmico, salientando que algum domínio sempre se faz presente. Para ele, o palco comporta qualquer indivíduo, porém nem tudo pode ser assinado como profissional. Ainda assim, o mercado de hoje está mais aberto. "Resta saber onde se inserir a partir do físico que se tem", sinaliza Alvarenga, que possui 1,82m de altura e já dançou com uma bailarina de 1,51m no Grupo Trans-Forma, onde atuou. "Isso seria improvável no Kirov, da Rússia."
Aprender para esquecer
Como pensar em cinema sem destreza técnica? Para o diretor e roteirista paraibano José Joffily, o ideal, na sétima arte, é aprender para esquecer. Ou subverter. "O que precisa vigorar é a ideia", adverte. Joffily critica os limites impostos pelas regras levadas ao extremo. "Antes do ofício, está a pessoa. A singularidade é o que mais importa." No filme "A falta que nos move", por exemplo, Christiane Jatahy dirige seu elenco com mensagens de texto de celular por 13 horas ininterruptas de filmagem. Conforme o pesquisador Daniel Quaranta, na música, os conhecimentos tradicionais podem auxiliar a elaboração de pensamentos alternativos, mas não necessariamente. De qualquer forma, em todas as paragens musicais, há feituras apuradas.
Segundo Quaranta, distante dos conservatórios e dos valores históricos do belo, existem outros modelos de experimentalismo, deflagradores de obras abertas. Ele citas as chamadas artes sonoras, desvinculadas das narrativas tradicionais. "Nesse caso, também é preciso dominar as ferramentas. É um lugar onde a música se dilui e se nutre de outros gêneros."
Em suas pesquisas, Daniel – que também compõe para instrumentos – desenvolve trabalhos puramente eletrônicos, processando variados sons no computador. "O século XX trouxe constantes reinvenções dos processos criativos, colocando em xeque o estatuto de obra", diz. E completa: "quando Duchamp pinta um bigode em uma reprodução da "Mona Lisa’, de Leonardo da Vinci, está discutindo toda a história da pintura contida nesse gesto. Dessa forma, o que parece banal não é." O professor irá coordenar o curso de pós-graduação em "Tecnologias das artes: artes sonora, cinema e plásticas", que está sendo lançado pelo Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF (www.ufjf.br/tecartes/).









