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A universalidade do blues


Por BRUNO CALIXTO

18/08/2011 às 07h00

A 12ª edição do Ibitipoca Blues reúne quem entende do assunto para a agenda de shows, amanhã e sábado, no Ibitilua. Entre os destaques, Celso Blues Boy, Jefferson Gonçalves e Danny Vincent estão de volta, enquanto o jovem Artur Menezes experimenta, pela primeira vez na serra, o sabor do gênero que se torna, cada vez mais, universal dentro do Brasil.

Durante o dia, duas oficinas serão oferecidas aos participantes. O veterano Jefferson Gonçalves ministra aulas de gaita, enquanto o argentino Danny Vincent fica a cargo do minicurso de guitarra e artesanato com materias reciclados.

Aos 17 anos, Celso Ricardo Furtado de Carvalho iniciou sua carreira acompanhando Raul Seixas, com quem gravou a faixa "O diabo é o pai do rock", e atuando também com a dupla Sá e Guarabyra, além de Luiz Melodia e Renato e Seus Blue Caps. O tempo passou, e o instrumentista, cantor e compositor carioca adotou como nome artístico Blues Boy, em homenagem a Blues Boy King, ou simplesmente B.B. King. Observando e ouvindo o blues produzido na América do Norte, Celso concluiu que a temática das canções são, evidentemente, distintas daquelas ouvidas no Brasil. "A dificuldade dos músicos neste estilo por aqui é muito grande, é uma carga muito pesada ser um ‘bluesman’ branco, apesar de esse ser, ao mesmo tempo – e tanto quanto o rock -, um estilo musical plural", considera.

"A única barreira contra a qual eu me deparo é a da ala mais radical do blues, que quer que a gente toque como o americano, pois é cultural", ressalta o gaitista Jefferson Gonçalves. "Não tem como contar um sofrimento que não é seu, por isso eu pego a harmonia do blues e até alguns clássicos e coloco dentro dos ritmos brasileiros do meu modo." O gaitista sugere ainda que, apesar de não haver possibilidade de solar da mesma forma como os negros dos EUA, a música nordestina e o blues vêm de um mesmo lugar, a África, onde, aliás, ele gravou parte de seu último CD ("Encruzilhada"), que será lançado neste final de semana em Ibitipoca. "Me lembro de um vídeo do diretor Martin Scorsese em que um cara vai até a África descobrir a origem do blues e encontra um blueseiro tocando pífaro (espécie de flauta nordestina)", diz, adiantando como será o passeio musical do final de semana. Entre autorais e clássicos, o músico vai ainda de country blues, folk, funk blues, entre outros.

Como o próprio Gonçalves define, seu som "é fruto de viagens pelo Nordeste do Brasil, sobretudo as regiões do Cariri cearense e de Pernambuco". Desde 2001, ele tem feito pesquisas de ritmos, encontrando similaridades com gêneros norte-americanos e demonstrando, dessa forma, que a música desconhece barreiras. "Fui em busca de ritmos que poderiam ser feitos a partir da gaita, pois queria tocar ritmicamente, como já era feito nos anos 20 e 30 no Brasil", justifica. "Em 2002, encontrei um cara chamado Tavares da Gaita que nunca havia escutado gaita na vida. Ele é de Caruaru (PE), e sua referência era só a sanfona, portanto tocava como se estivesse tocando sanfona, o que me abriu ‘N’ possibilidades de versões dentro do blues, como alguns fraseados e algumas sonoridades diferentes", finaliza.

Celso Blues Boy observa que a farta mistura de conhecimento musical enriquece ainda mais seu trabalho. "O blues é um rio que criou seus afluentes, como o próprio rock", resume o músico, que está lançando o CD ‘Por um monte de cerveja’, projeto criado através do seu encontro com Tico Santa Cruz (Detonautas).

Apesar da pouca idade, o estreante Artur Menezes, 26 anos, é guitarrista há 13. O interesse pela música começou por influência de sua família e referências que vão de Jimi Hendrix ao rei do baião Luiz Gonzaga, passando por Albert Collins, Albert King, B.B. King, Stevie Ray Vaughan, Buddy Guy, James Brown e Johnny Winter. "Sou nordestino (natural de Fortaleza) residindo em São Paulo há um ano e meio. Corre em minha veia o fato de o blues e o baião serem semelhantes quanto a escala, estrutura harmônica e ritmo, além do contexto social nordestino, do trabalhador rural que sofre com a seca", define.

Menezes passou duas temporadas em Chicago(EUA). "Notei que, por aqui, tudo ainda é muito tradicional, enquanto que lá eles misturam blues com hip-hop, funk e música eletrônica, o que atrai outros públicos", dispara. O músico vem solidificando o que já colocara em prática no álbum "Early to Mary", gravado em inglês. "Ainda não consegui compor blues em português", assume, informando ainda que vai levar à serra versões para importantes nomes da cena internacional, como Led Zeppelin e Dick Dale.

Perpetuando a fusão entre o blues americano e o rock latino, o argentino Danny Vincent, novamente, demonstra seu lado "Santana da América Latina" no arraial. Compositor, guitarrista e produtor, ele é um dos mais importantes expoentes do blues portenho no Brasil, o que vem somar à mistureba sonora proposta pelos comparsas.

 

IBITIPOCA BLUES

A partir das 21h, no Ibitilua

Amanhã; – Wan Blues, Jefferson Gonçalves, Danny Vincent e Mojo Society

Sábado – Artur Menezes, Celso Blues Boy e Rodrigo Nézio