Tarja preta

Série de fotos dedicada a explorar o corpo
Sim. O nu ainda causa estranheza, para não dizer espanto. Pelo menos, é o que pensa a fotógrafa juiz-forana Adriana Stehling. A artista assina uma série dedicada a explorar o corpo feminino, na qual as modelos aparecem sem uma peça de roupa sequer, em uma busca pela sensualidade cotidiana. As mulheres contam apenas, por vezes, com acessórios e objetos sugestivos, como um colar de pérolas ou uma taça de vinho. A mostra esteve em cartaz, no último ano, no Fórum da Cultura, mas esta não teria sido a primeira tentativa de expor as obras ao público.
"O que é indecente ou pornográfico depende muito de quem está olhando", avalia Adriana, que vê na nudez inúmeras possibilidades de se encontrar a sutileza e a beleza. "Ainda que não haja uma censura explícita, a imagem real de uma pessoa nua, como é o caso da fotografia, choca grande parte das pessoas." Integrante de uma linhagem de artistas, a fotógrafa assegura enxergar o nu como algo extremamente natural. "Minha mãe posava para o meu pai, e eu achava isso lindo", completa.
As técnicas que permitem explorar o corpo humano com perfeição sempre ocuparam lugar de destaque na formação artística, sobretudo nos últimos séculos. Entretanto, as representações – ou interpretações – atuais da nudez, mesmo que em meio à enxurrada de informações e permissões da contemporaneidade e suas tecnologias, ainda conseguem ocasionar polêmicas.
O blog francês "Les notes de véculture", recentemente, soou o alarme quando o Facebook removeu a imagem de "Ema" (Akt auf einer treppe), de Gehrard Richter, de 1966, da página do Pompidou Centre. A retrospectiva de Richter esteve em cartaz no museu, situado em Paris, no segundo semestre do último ano. Antes de ter desaparecido da rede social, a imagem recebeu 1.300 "curtidas". Depois de reclamações da instituição, o Facebook retornou a pintura de Richter à página. O episódio foi taxado de "puritanismo institucional" nos Estados Unidos.
Tabu ou não, tamanha a curiosidade em relação ao modo que viemos ao mundo, a página ”Let’s get naked in the snow" (Vamos ficar pelados na neve), também do Facebook, criada pela assistente social britânica Leanne Myers, logo alcançou sucesso na rede, recebendo imagens de usuários – pouco friorentos – de Estados Unidos, Alemanha, Itália e até do Brasil.
A ideia de ficar nu em praça pública não foi criada por agora, mas muitos ativistas ainda se apegam à "tática" para defender suas causas. No último dia 30, manifestantes protestaram a favor da liberdade da nudez no Parque Ibirapuera, em São Paulo. O evento, organizado por intermédio das redes sociais, pretendia defender a cultura da nudez no Brasil. Segundo organizadores do manifesto, é a proibição da nudez que causa pornografia e violência. Em fevereiro, um grupo fez outro ato pela liberdade da nudez na Praça da Paz, também no Ibirapuera.
A nudez atraiu ainda os refletores no último Festival de Teatro de Curitiba. Embora a exposição total do corpo dos atores no palco seja cada vez mais recorrente, a nudez dos artistas em um espetáculo encenado ao ar livre virou caso de polícia. A peça "Hasard", representada pelo Erro Grupo, de Florianópolis, sofreu intervenção da Polícia Militar quando os atores, por um capricho da sorte, "tiveram" de ficar nus. A trama utiliza um baralho para interagir com o público, e esta interatividade define o final. Há quatro possibilidades, de acordo com o naipe da carta sorteada, e uma delas exige a nudez completa.
"Vieram em grande número, disponibilizaram uma estrutura relativamente grande. As viaturas começaram a se aproximar, a ligar as luzes, e os policiais cruzaram a roda, dois com arma em punho, e se posicionaram no nosso lado na cena. Eles não falaram para parar, mas nós não conseguimos continuar. O público ficou revoltado", relatou uma das atrizes, Luana Raite, ao portal G1, na ocasião, que se disse surpresa com a reação do público, de respaldo em relação à cena. A PM explicou à imprensa que recebeu uma denúncia de que havia nudez em espaço público e que advertiu os integrantes que a situação configura "ato obsceno".
Obsceno, certamente, foi o adjetivo usado por alguns dos visitantes que passaram pela rampa da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, de São Paulo, nos últimos dias. Até a última quarta, fotos de pessoas nuas foram espalhadas pelo ambiente, no qual foi montada uma casa, com móveis como cama, mesa e sofá, tudo para que o visitante pudesse se sentir à vontade para sentar-se, admirar e analisar as fotografias. A iniciativa é de André Martins e João Zambom, autores do livro "Flexões – um estudo sobre a sexualidade plural", publicado pela editora nVersos.
"O nu com certeza é um tabu", constata o autor André Martins, bacharel em teatro e licenciado em arte-educação. "Acredito que as pessoas se espantam tanto por causa da falta de conhecimento do próprio corpo, da própria pele. Muito se fala que a nudez é banalizada, mas as pessoas se assustam com o que o próprio corpo é capaz de fazer. Não vejo o estranhamento como algo específico do meu trabalho, mas algo arraigado ao tema", avalia o autor das imagens, muitas delas propositalmente provocativas, caso de um senhor de 70 anos nu. Na obra, as imagens figuram ao lado de inserções de outros artistas, como músicas, obras de arte, crônicas e ensaios de profissionais de diversas áreas, além de respostas de jovens sobre perguntas relacionadas à própria imagem.
Para Martins, convencionou-se que o que é velado é sensual e o que é explícito é pornográfico. "Não necessariamente", defende. "Essa linha não existe, é inventada. Nem sempre a nudez total é tão provocante ou tão erótica. Muitas vezes o trabalho de um grande fotógrafo que explora o nu é arte, enquanto o trabalho de outros artistas, que pode ser bom, é obsceno. A aceitação depende muito da maneira como o público vê aquela obra, mas, principalmente, de como a ideia é vendida."
Se o nu que retrata homens e mulheres que se encaixam em um suposto padrão de beleza pode soar como indecente, imaginem qual não foi a repercussão do projeto "FullBeauty", do fotógrafo italiano Yossi Loloi, que ganhou destaque na web recentemente. O fotógrafo retratou mulheres com obesidade mórbida nuas, ensaio cuja prévia foi publicada pelo "The Sun". Cada uma das modelos de Loloi pesa pelo menos 190kg, chegando algumas aos 300kg, o que não intimidou as mulheres diante das câmeras. "Eu queria mostrar que a beleza não é propriedade de pessoas magras. Para este fim, o projeto teve que ser provocativo, mas ao mesmo tempo confortável, por isso eu foquei na feminilidade das mulheres como uma forma de protesto contra a discriminação", disse o fotógrafo ao "The Sun", rejeitando o que chamou de "ditadura do gosto".









