Ouça agora

Ópera para quem tem pressa


Por RAPHAELA RAMOS

07/08/2011 às 07h00

Grupo vem ensaiando no conservatório desde o final de 2010

Grupo vem ensaiando no conservatório desde o final de 2010

Para o dia seguinte ao espetáculo, a professora Patrícia Guimarães espera repetidas chamadas pelo telefone. Por quê não? "Marcamos uma única apresentação, mas gostaríamos de receber convites para outras oportunidades." Natural expectativa. Desde o fim do ano passado, Patrícia coordena os ensaios de "Carmen", uma pocket ópera em concerto apoiada pela Lei Murilo Mendes. A produção, incomum por aqui, envolve 35 cantores e 30 músicos. Segundo a professora, tanto trabalho não pode se aprisionar em uma noite apenas, marcada para o início de outubro, no Cine-Theatro Central. "Esse é só o começo. Já estamos com ideias para o ano que vem."

O projeto nasceu em sala de aula. Estudantes do Conservatório Estadual de Música Haidée França Americano, dispostos a se arriscar nos palcos, convidaram Patrícia para capitanear a proposta, logo levada além dos muros da instituição. "Ficamos entre ‘Carmen’ e ‘La traviata’. Com a aprovação na lei, decidimos e começamos a ensaiar", conta a professora, soprano lírico-ligeiro, que assume o papel de Micaela. Carla Rosa, soprano dramático que também leciona canto, dá corpo à personagem-título. "Estamos tendo a chance de mostrar a existência desse tipo de formação musical na cidade", menciona ela.

Segundo o integrante Samuel Lima, poucas empreitadas do gênero vieram à tona desde o fim do Teatro Experimental de Ópera de Juiz de Fora na década de 1990. Dirigido pela professora e poeta Alayde Cunha e fundada em 1955, a companhia levou ao Central inúmeros concertos líricos abertos ao público. Outra iniciativa surgiu durante o Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, promovido pelo Centro Cultural Pró-Música. Em sua 15ª edição, o evento apresentou "Zaíra", a mais antiga ópera composta no país cuja partitura sobrevive.

Formação de plateia

Patrícia Guimarães destaca que todos os solistas de "Carmen" são artistas locais. Um deles, Carlos Eduardo Nascimento, está no elenco do Theatro Municipal de São Paulo e foi um dos primeiros alunos do conservatório. Tenor lírico-ligeiro, ele encara Don José, um honesto cabo do exército que muda seus valores após se apaixonar pela andaluza Carmen. Escamillo, famoso toureador também enfeitiçado pela protagonista, é vivido pelo barítono Alexandre Pereira. Michele Flores e Polyana Monteiro fazem, respectivamente, Frasquita e Marcêdes, amigas da sensual espanhola.

De acordo com Polyana, uma das idealizadoras do projeto, o objetivo é alcançar todos os tipos de público. "Vamos levar sessões didáticas para as escolas públicas. Queremos mostrar como se faz uma ópera." Conceição Ferreira, membro da comissão organizadora, acrescenta que o gênero está presente no cotidiano das pessoas, como pano de fundo de comerciais e programas. "Ele pode ser consumido por qualquer um. Vende perfume, vende carro, embora ainda não se venda."

 

Caldeirão de vozes

Para formar o grupo composto por estudantes, advogados, filósofos, comerciantes e donas de casa, Patrícia organizou testes e selecionou timbres fortes. Nesse caldeira de vivências, estão também alunos do conservatório e do curso de música da UFJF. "Todos amantes de ópera", comenta a professora. Conforme acrescenta ela, as três horas e os quatro atos originais foram reduzidos para uma hora e 15 minutos, em um total de dez músicas. "Os espectadores de hoje, em sua maioria, não têm paciência para espetáculos tão longos."

Com verba pequena, a produção optou por não utilizar cenário. "Por isso dizemos que é uma ópera em concerto", explica a coordenadora. Os figurinos, custeados por cada integrante, dão à proposta um clima de noite de gala. Cada cor faz menção a traços psicológicos dos personagens, sendo que o vermelho é exclusivo de Carmen. As músicas escolhidas, as mais festivas e conhecidas dessa criação do francês Georges Bizet, são costuradas por um texto escrito pelo professor da UFJF Rodolfo Valverde. Ainda segundo Patrícia, a atriz Cintia Brugiolo faz a narrativa da trama, e Paulo César Maia e Maria Teresa Assis oferecem consultoria musical e pianística. A orquestra regida por Guto Cimino e Ronilson Garcia complementa a cena.

Liberdade

Para afiar o francês do elenco, uma professora vem acompanhando os ensaios de quase duas horas, realizados uma vez por semana. Patrícia conta que, ao fazer uma dinâmica com o grupo recentemente, descobriu que, no princípio, ele considerava quase impossível aprender as composições, tanto por sua complexidade quanto pela língua. "Fiquei surpresa, pois todos me pareciam bem seguros, e o resultado está ótimo", elogia a comandante, afirmando que qualquer pessoa pode aprender a cantar.

De acordo com ela, Bizet inova ao ir desintegrando a linha melódica do espetáculo à medida que os personagens perdem seus valores. Com libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy, a ópera "Carmen" estreou em 1875, em Paris. Nela, uma cigana andaluza coloca a liberdade acima de qualquer amor.