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Coragem para subir no salto alto


Por Eduardo Vanini

20/08/2011 às 07h00

Há 35 anos, em plena ditadura militar, um grupo de homens vestidos de mulher subia à passarela, em uma quadra de escola de samba da cidade, marcando o início da trajetória do Miss Brasil Gay. Na mesma época, uma trupe formada por 13 homens dava vida ao irreverente Dzi Croquettes, no Rio de Janeiro. Munidos de salto alto e roupas femininas, eles divertiam plateias e deixavam sua marca na cultura brasileira, com performances irreverentes e debochadas. É exatamente este link que dará o tom do 35º Miss Brasil Gay, que reúne candidatos de todos os estados brasileiros, mais Distrito Federal, hoje à noite, no Sport Club Juiz de Fora.

"O tema deste ano é ‘Há vida após a AIDS’, e precisávamos fazer uma abordagem que combinasse com a alegria do nosso show. Com os Dzi Croquettes, isso foi possível, devido à irreverência deles na década de 1970 e à quebra de preconceitos durante a ditadura militar", explica o diretor-geral do evento, André Pavam. Para ele, o Miss Gay possui um viés semelhante, visto que é preciso "muita coragem para subir em um salto". Como relata, a história do evento em Juiz de Fora começou como uma brincadeira do criador Francisco Mota, o Chiquinho, inspirado nas escolas de samba, em 1976. "No entanto, a coisa deu certo e acabou indo para o Sport, em 1977, ganhando a proporção que as pessoas podem conferir hoje."

Pavam, que este ano assume a direção do espetáculo, conta que, para marcar as homenagens, haverá exibição de um clipe de cerca de dois minutos antes das apresentações, contando a história dos Dzi. Em seguida, um número de dança coreografado pelo assessor de criação da Cia. de Dança Deborah Colker, Jaime Bernardes, abre a cerimônia. No decorrer da noite, o público também vai assistir a um bolero dançado por dois homens, além das participações de Léo Áquilla e Suzy Brasil. Lully Fashion assume o posto de repórter da noite, que tem como apresentadores Fernanda Müller e Jaime Bernardes. "Estamos muito empolgados. Fazemos isso com muita paixão. É uma responsabilidade enorme manter um evento que, além da tradição, é patrimônio imaterial da cidade e faz parte do calendário oficial de Minas."

Para este ano, o palco foi idealizado como uma "caixa preta", com um grande telão de LED de alta definição ao fundo. O objetivo é que as cores e as fantasias dos candidatos se sobressaiam, já que são as grandes atrações. Em relação às roupas, inclusive, o diretor-geral garante o deslumbramento. Segundo ele, a qualidade dos figurinos equivale a uma competição paralela entre estilistas. "Temos investimentos altíssimos. A miss Piauí gastou cerca de R$ 60 mil com os trajes de gala e típico. A representante do Tocantins está gastando aproximadamente R$ 50 mil. Isso é quase um carro zero ou um apartamento popular", compara Pavam.

Outro ponto destacado por ele é que, a exemplo do que ocorre no Miss Brasil, as candidatas não lançam mão apenas de maquiagens para se preparar para o concurso. "Quase todas passaram por algum cirurgião plástico. Fizeram um ajuste no nariz ou uma bioplastia." Mas, como faz questão de frisar, só não podem colocar próteses, já que travestis não podem participar do concurso.

Surpresa

Um dos ex-integrantes do Dzi Croquettes, Benedicto Lacerda Neto, foi pego de surpresa ao ser informado pela Tribuna, na quarta-feira, sobre a referência ao grupo. "Não estávamos sabendo. Mas sempre acho legal cada vez que somos homenageados." Para ele, o Miss Gay tem grande importância, por ter se estabelecido em uma cidade pequena, onde a questão da "família mineira" era – e ainda é – muito forte. Na visão dele, na década de 1970, o preconceito era muito mais latente em Juiz de Fora que no Rio de Janeiro, onde os Dzi também chocavam o público. Outro link observado por Benedicto é o fato de serem homens vestidos de mulher para uma apresentação. "Transformar-se é uma forma de arte. Sempre achei que ser gay é algo que não obrigatoriamente significa ao homem aderir comportamentos femininos ou se vestir de mulher. Falávamos disso em nossos espetáculos." Ele também elogiou a abordagem acerca da AIDS, já que possui muitos amigos soropositivos, que ainda enfrentam resistências. "Eles não podem se abrir para as pessoas por conta desse preconceito."

Parada Gay leva multidão ao Centro

Ao meio-dia de hoje, uma multidão de pessoas é esperada para marchar pelas duas principais avenidas da cidade – Rio Branco e Independência – em defesa de um país sem preconceitos, na 9ª Parada da Cidadania e do Orgulho LGBT. O evento voltou ao traçado original, saindo do Parque Halfeld em direção à Praça Antônio Carlos, e tem como tema "Sou Juiz de Fora, sou MGM", lembrando os dez anos de atuação da entidade. Segundo o presidente do Movimento Gay de Minas (MGM), Marco Trajano, são esperadas cerca de 140 mil pessoas. Como adianta, o clima deverá ser de comemoração aos resultados alcançados pelos debates e palestras que fizeram parte da programação da Rainbow Fest ao longo da semana. "Vamos estar a bordo de quatro trios elétricos, celebrando a diversidade, com muita paz e harmonia."

Já no primeiro trio, o tom político do evento será evidenciado. Isso porque estará ocupado por representantes de movimentos em defesa dos homossexuais de quase todos os estados brasileiros. Além disso, estão confirmadas as presenças de nomes como o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) e o estilista e coordenador Especial da Diversidade Sexual da Cidade do Rio de Janeiro, Carlos Tufvesson. A coreógrafa Fernanda Müller será a "rainha da parada". A dispersão deve ocorrer por volta das 17h30, na altura da Praça Antônio Carlos. Em seguida, a festa continua com atrações musicais no Terreirão do Samba. Além disso, às 23h, haverá a Stomp/Ideal Party, que é a festa oficial da Rainbow Fest, no Multiplace (Rua Roberto Stiegert s/nº – São Pedro).

Segurança

Pela primeira vez, ruas perpendiculares às avenidas Rio Branco e Independência terão grades de proteção. Quem for acessar a passeata por estas vias passará por uma revista. Além disso, mais de 500 homens, entre policiais militares, guardas municipais e fiscais de postura, cuidarão da segurança do evento. Também está prevista a presença de policiais à paisana infiltrados no público, para tentar evitar brigas e identificar agressores.

Já o trânsito começa a sofrer interdição total em trechos de vias como Rio Branco, Santa Rita e Espírito Santo, a partir das 11h. Após as 15h30, parte da Getúlio Vargas, Independência e Marechal Deodoro também passam pelo mesmo processo. Os desvios serão apontados por agentes de trânsito e policiais militares. Linhas de ônibus coletivo terão seus itinerários alterados a partir das 11h. Os táxis situados no ponto do Parque Halfeld deverão entrar e sair pela Marechal Deodoro, não podendo acessar a Rio Branco.