Cinema movido pela paixão

Depois de quase não acontecer por dificuldades de patrocínio, o Primeiro Plano: Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercocidades chega às telas da cidade amanhã, com motivos para celebrar. A escassez de recursos não é exatamente uma realidade nova para os organizadores do festival, mesmo se tratando de um dos principais eventos do calendário cultural da cidade. Contra todos os percalços, entretanto, o festival completa sua décima edição, número que pode ser considerado um emblema da persistência necessária para se fazer cinema no país. Esse espírito de perseverança e dedicação, aliás, está presente em muitas produções exibidas anualmente no evento, que tem a obra de diretores estreantes como foco principal. Cabe indagar o que mobiliza cineastas e cinéfilos a continuarem investindo suor e dinheiro em um mercado que oferece poucas perspectivas de retorno financeiro.
"É difícil, mas, no ano que vem, esqueço e começo tudo de novo", diz Aleques Eiterer, que, além de ser coordenador geral do Primeiro Plano, é um dos organizadores do Festival Brasileiro de Cinema Universitário. Segundo ele, a consolidação do evento no calendário da cidade não garante facilidades na captação de recursos. "Todo ano começamos do zero", afirma.
Mesmo contra adversidades, os organizadores do festival comemoram a qualidade dos títulos presentes nas sessões deste ano. "Apesar de tudo, acho que conseguimos fechar uma das melhores programações que o festival já teve", afirma Eiterer, destacando a exibição de filmes como "Las acácias", do Argentino Pablo Giorgelli (vencedor do prêmio de melhor diretor estreante no Festival de Cannes), "A hora e a vez de Augusto Matraga", de Vinícius Coimbra, "Trabalhar cansa", de Marco Dutra e Juliana Rojas, e o documentário "Malditos cartunistas", de Daniel Garcia (ver programação no site da Tribuna www.tribunademinas.com.br).
A continuidade do festival apoia-se no público, que vem prestigiando todas as edições do festival. Pelo visto, não será diferente neste ano. Os organizadores se dizem surpresos com a participação alcançada no concurso "O melhor dos melhores de todos os tempos", lançado no site do evento, com objetivo de eleger o preferido entre os curtas regionais exibidos nos dez anos de Primeiro Plano. Da mesma forma, as produções inscritas aumentam em qualidade. "Foi uma seleção difícil, porque recebemos muita coisa boa", destaca o coordenador de mídia do festival e professor da Faculdade de Comunicação da UFJF, Nilson Alvarenga.
Com a popularização da tecnologia digital, as chances de se fazer cinema com pouco dinheiro aumentaram. Há dois anos, o festival recebeu uma produção, com dois minutos de duração e imagens captadas pela câmera de telefone celular. "Há possibilidade de fazer cinema com muito pouco dinheiro, desde que a proposta seja adequada aos recursos disponíveis", pondera Eiterer, que aposta nas produções menores como uma oportunidade de experimentação de linguagem, sem o cerceamento de um compromisso comercial.
A propósito, a décima edição do evento tem como temática o cinema coletivo, estratégia que tem viabilizado a execução de filmes com poucos recursos, um tipo de produção feita entre amigos, que se revezam em várias funções. Entre os destaques desse segmento está o curta "Estrada Ythaca", do Coletivo Alumbramento, do Ceará.
O cineasta Marco Dutra participou pela primeira vez do Primeiro Plano em 2004, com seu curta de estreia, "Lençol branco", em parceria com Juliana Rojas. Depois de uma passagem como júri do festival, o paulistano retorna com seu primeiro longa-metragem, "Trabalhar cansa". "Vencer o festival foi parte das coisas que me encorajaram a continuar", afirma.
De acordo com Dutra, a persistência continua a ser um valor fundamental do cinema em todos os âmbitos. Apesar de ter arrematado vários prêmios com seus dois curtas, o diretor afirma ter enfrentado o mesmo estigma de estreante, ao captar recursos para o primeiro longa. "Passei por um processo semelhante. Aliás, oportunidade nunca cai do céu", conta.
Tirar dinheiro do próprio bolso para viabilizar uma produção é uma realidade para boa parte dos diretores estreantes que participam do Primeiro Plano. Na maioria dos casos, o investimento se justifica pela simples, porém difícil, oportunidade de começar uma carreira no cinema, em uma espécie de investimento a longo prazo. "A expressão audiovisual motiva as pessoas a fazerem independentemente de recursos. É uma questão de amor ao cinema, mas espero que esses jovens cheguem ao profissionalismo", acrescenta Nilson.
O diretor Francisco Franco investiu cerca de R$ 4 mil em recursos próprios no curta "Cachorro morto". Segundo ele, valeu a pena. Além de concretizar seu projeto de conclusão de curso na Faculdade de Comunicação da UFJF, o jovem cineasta arrematou o troféu Incentivo Primeiro Plano na edição 2010. O prêmio rendeu reconhecimento e a possibilidade de um segundo filme, em condições bem melhores. "Achei que valia a pena apostar nesse projeto, e isso acabou me levando a uma segunda oportunidade. Quem sabe não é o início do caminho para conquistar meu espaço nesse mercado", indaga.
Esforço conjunto
Na produção de "Bomba", Francisco contou com a estrutura de estúdios profissionais e R$ 5 mil em orçamento. Mesmo assim, foram necessárias adequações para a viabilização do projeto, como a substituição da película por tecnologia digital. Assim como no curta de estreia, elenco e equipe técnica tiveram que trabalhar sem ganhar cachê, em uma verdadeira rede de camaradagem que envolveu cerca de 20 pessoas diretamente.
Um dos profissionais que colaborou com o projeto de Franco foi Felipe Scaldini, diretor de "Droba pra lá", que encerra a programação do Primeiro Plano, no dia 3 de dezembro. O documentário contou com financiamento da Reserva de Ibitipoca. Apesar de suficiente para a efetivação da proposta, a verba exigiu cuidados especiais com o orçamento, como a restrição da equipe a apenas três pessoas. "Como éramos poucos, tivemos que acumular algumas funções, mas deu para fazer", resume o diretor.
Bem recebido no festival de Paulínia, "Droba pra lá" conquistou o patrocínio da Usiminas. O dinheiro, entretanto, será aplicado na distribuição do próprio filme. A rentabilidade ficará por conta da expectativa da venda de ingressos e das cópias em DVD. "O investimento é maior do que o retorno, mas são medidas para tentar sair dessa atrofia de mercado", explica.
A trajetória do diretor Marco Dutra pode exemplificar os bons resultados desse investimento a longo prazo no cinema. Mesmo sem facilidades, o trabalho de Dutra cresceu em proporções. Da produção de estreia, financiada pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP (no valor de R$ 2 mil, além da estrutura oferecida pela faculdade), o diretor chega a seu primeiro longa-metragem com orçamento de R$ 2 milhões, captados em diferentes leis e programas de incentivo cultural. "Não alterei minha estratégia de trabalho, embora tenha mudado a estrutura."
Segundo o cineasta, o dinheiro garantiu o cachê do elenco e da equipe de trabalho. O retorno financeiro, entretanto, ainda depende do desempenho do filme nos próximos meses. Apesar das incertezas do mercado, o diretor define sua dedicação ao cinema como uma condição de vida. "Não é propriamente uma escolha. Se há uma vontade genuína, não podemos desistir dela", finaliza.









