Vasculhando as estantes
Decididas a reinventar as relações que envolvem a busca pelo conhecimento, as bibliotecas vêm negando, a cada dia, o rótulo de lugar em que se "guarda" livros. "A ideia principal é a disseminação desse conhecimento. Atrair as pessoas para um lugar que possui elementos que permitam abrir horizontes, ampliar a capacidade pensante, tornar o homem mais preparado e, consequentemente, transformá-lo", sugere a bibliotecária, escritora e professora Maria Helena Sleutjes. O ideal de transformação dos espaços – que deveriam estar sempre abertos e prontos a atender os interesses de um público cada vez mais diversificado e, ao mesmo tempo, específico – baseia-se no dinamismo, na promoção de atividades culturais e na incorporação de novas tecnologias.
Com acervo aberto ao público em geral, a UFJF foi uma das pioneiras no país na contratação de bibliotecas virtuais e bancos de dados. Neste ano, R$ 451 mil foram investidos na implementação de um novo conceito em difusão do conhecimento. "O maior problema que enfrentamos é a falta de informação. Muitos não sabem que qualquer pessoa que se cadastrar pode ter acesso aos arquivos da universidade. Os títulos também são de diversos gêneros e áreas do conhecimento e não somente acadêmicos", destaca a coordenadora do Centro de Difusão do Conhecimento da UFJF, Adriana Aparecida de Oliveira, que participou este mês da 10ª Jornada sobre a Biblioteca Digital Universitária, na Argentina.
Segundo Adriana, a aquisição dos bancos de dados e e-books ainda é vista com certa resistência por ser uma experiência nova. Contudo, sua utilização em bibliotecas agrega vantagens importantes. "É uma solução para o problema do espaço físico e o armazenamento dos títulos, além de ser muito útil nos programas de educação à distância", explica. O conteúdo virtual possibilita ainda certa independência do usuário da biblioteca, que pode realizar buscas mais precisas de forma autônoma.
Os valores necessários à implementação de títulos virtuais surgem como sério empecilho diante da realidade dos espaços públicos da maioria das cidades do país. "Mas isso está mudando. Os valores das assinaturas estão caindo, principalmente pelo fato de várias empresas estarem se voltando a esse mercado", completa Adriana.
"Os suportes vão mudar, com certeza, mas sem que o livro perca o seu lugar de destaque entre os que realmente gostam de ler", avalia Maria Helena. A jornalista e proprietária da livraria A Terceira Margem, Izaura Rocha, também se surpreende diante do interesse, sobretudo do público infantojuvenil, pelos tradicionais exemplares de papel que, inevitavelmente, acumulam a poeira das estantes. "A despeito da concorrência das novidades tecnológicas (e-books, games, tablets), esse público se interessa e muito pelo suporte tradicional do livro e se encanta com eles", diz. "Essas obras estão cada vez mais bonitas, ricas em ilustração e recursos como pop-up, texturas, sons."
Panorama literário
Embora questões que envolvam as bibliotecas públicas precisem ser revistas na maioria das cidades brasileiras, Juiz de Fora cumpre um papel interessante com relação a sua biblioteca pública, segundo Maria Helena. "A Biblioteca Murilo Mendes funciona. A frequência de usuários é um dos melhores termômetros desse funcionamento", acredita. Segundo a diretora do espaço, Gerda Machado, a biblioteca, construída em 1995, já é pequena para atender o número de frequentadores que a procuram. "Temos uma média de 500 usuários por dia, existindo períodos em que essa demanda se duplica", afirma Gerda. A biblioteca também possui uma sucursal em Benfica, a Delfina Fonseca Lima.
"Nossa necessidade atual passa pela criação de divisões de obras patrimoniais e de artes, que abrigarão materiais raros e ricos em informação, ilustrações e história. A Divisão de Memória da Cidade já demanda um espaço maior pelo crescimento constante de seu acervo, bem como a Divisão de Obras em Braille, que atualmente está tendo seu espaço remodelado", relata Gerda.
Um incentivador a mais da leitura na cidade, segundo as entrevistadas, é o fato de outros espaços complementarem o papel da biblioteca pública. Além do Centro de Difusão do Conhecimento da UFJF, a biblioteca do Museu de Arte Murilo Mendes, ainda que assuma caráter mais especializado, reúne importante acervo de arte e literatura, incluindo a biblioteca particular do poeta que dá nome ao museu.
Engrossa a lista a Biblioteca Redentorista, com acervo de cerca de 70 mil livros e seis mil periódicos antigos e atuais, principalmente, da área das ciências humanas. "Temos obras para todos os tipos de leitores", diz a bibliotecária Karen Cristina de Oliveira. O espaço conta ainda com rica coleção de jornais nacionais e estrangeiros e obras originais e raras por sua data de impressão – como livros do século XVI – e por não serem mais encontrados em outros acervos. A página virtual da biblioteca recebe buscas de usuários de todo o mundo. "Recentemente um leitor da França nos procurou por ter encontrado no site uma obra em que já havia procurado por quase todo o Brasil", completa Karen.
"O que falta realmente é o hábito de leitura", pontua Izaura Rocha. "Não se pode mais culpar o preço do livro, porque ele tem se mantido estável e até caiu 6,1% recentemente, segundo dados da Câmara Brasileira do Livro." Para ela, de forma geral, as cidades estão em débito com a atualização dos acervos. E, sobretudo, faltam políticas públicas de incentivo à leitura, com a promoção desses espaços por meio de atividades culturais, exposições, oficinas de leitura e criação literária, cursos, debates, encontros literários com autores. "As bibliotecas não precisam ser meros arquivos de livros, podem ser mais dinâmicas e interessantes, com uma programação mínima de atividades no espaço. E Juiz de Fora já poderia ter uma boa festa literária, como muitas que estão acontecendo país afora."
Às ideias, Maria Helena Sleutjes adiciona programas de leitura que incluam pais e professores, veiculação de acervos itinerantes, além de serviços da biblioteca para os bairros mais carentes, ambientes mais adequados, que inspirem e propiciem o gosto pela leitura, e pessoas realmente engajadas nesses propósitos. "A biblioteca pode e deve funcionar como uma ponte entre os livros e as pessoas e facilitar todas as formas de acesso a ele", conclui a escritora.









