‘Queremos o negro na nova administração’
Flávio Aloísio Cardoso, o Flavinho da Juventude, é natural de Ubá e filho de chapeiro de caminhão. Aos 6 anos de idade, buscando uma vida melhor, mudou-se para Juiz de Fora, acompanhado da mãe, já falecida, e dos irmãos. Depois de residir em vários bairros da cidade, foi no Vila Olavo Costa que construiu a trajetória de sambista e militante. "Eu já conhecia o livro "Pedagogia do oprimido", de Paulo Freire, mas foi na década de 1970 que comecei o trabalho no movimento. Ajudei a demarcar os lotes da minha comunidade."
Há quase seis décadas, é intérprete da Juventude Imperial, escola que vai para a avenida no próximo ano com o samba-enredo "Chico Rei, um monarca nas terras de Minas". No último dia 20, o compositor – presidente do Batuque Afro-brasileiro de Nelson Silva e integrante do Conselho Municipal de Valorização da População Negra – foi convidado a participar de uma entrevista que inicia projeto que pretende resgatar a memória do negro na cidade. O encontro integrou a programação do Mês da Consciência Negra, realizado por meio de uma parceria entre a Divisão de Memória da Funalfa e o Movimento Negro.
"A ideia é convidar afro-descendentes que tenham um envolvimento com a cultura juiz-forana ou que tenham uma história para falar sobre suas experiências de vida. Começamos com o Flavinho pelo trabalho que desenvolve e pelo que representa para a cidade", explica Zélia Lúcia Lima, do Departamento da Diversidade Cultural da Funalfa. Apesar de a iniciativa ter sido recebida com entusiasmo pelo movimento, resta saber se as ações continuarão a ser desenvolvidas ao longo de 2013.
Finalizando as comemorações, nesta sexta, o Centro Cultural Bernardo Mascarenhas vai abrigar a 5º Festa da Juventude Negra – Black Beat, a partir das 19h30. Hip-hop, duelo de MCs, apresentação de bboys, além de concurso de beleza negra, animarão a noite. O evento é organizado pela União de Negros pela Igualdade (Unegro) com apoio da Funalfa, e a entrada é gratuita.
Tribuna – Como você avalia a participação do negro na política de Juiz de Fora? Existe abertura para o movimento?
– A primeira vez que um negro concorreu à prefeitura de Juiz de Fora, não tinha preparo algum. Até fiquei muito sentido com o PT, porque não preparou e não orientou o Jorge Lima na realização de um programa de governo adequado, o que acabou com as nossas perspectivas de conseguir eleger um representante. Aproveito a oportunidade para falar para o nosso novo prefeito que nós votamos, somos um número significativo na sociedade, fomos os maiores braços na construção da Estrada União e Indústria, e Juiz de Fora sempre foi uma das cidades com o maior número de negros. Então, queremos ver a percentagem afro-descendente refletida na nova administração pública.
– No mês de novembro, há uma extensa programação com objetivo de refletir sobre os séculos de preconceito enfrentado pelos negros. No restante do ano, o que é feito pelo movimento para que essa discussão não fique restrita a um só período?
– Nós temos um Conselho Municipal de Valorização da População Negra – cuja presidência ocupei entre 2007 e 2009 – que busca verificar, nacionalmente, o que está sendo feito pelo negro, no que diz respeito à cultura, à saúde e ao cumprimento das leis. Nosso trabalho é realizado por meio de palestras em escolas e em comunidades com agremiações e terreiros de umbanda e candomblé, por exemplo.
– Você é um negro que se formou em química na UFJF numa época em que não existia o sistema de cotas. Como vê a reserva de vagas em instituições públicas federais para negros, índios e pardos?
– É uma conquista. Quando os brancos chegaram aqui, tiveram casa para morar, emprego, escola e eram ouvidos. Nós, ao contrário, fomos escravizados por séculos e discriminados. Eu, por exemplo, tive que brigar muito para concluir meus estudos. Consegui fazer a antiga quarta série, somente, depois da década de 60. Lembro que era o melhor aluno, mas premiaram o segundo lugar, porque era um branco. Quando já estava na universidade, percebia que vários alunos não se assentavam perto de mim por puro preconceito. O sistema de cotas é o pontapé inicial, mas não é só isso que queremos. Ainda há muito o que caminhar. Nosso desejo é a aprovação do estatuto da igualdade racial.
– De que forma o Batuque Afro Brasileiro Nelson Silva trabalha para o resgate da cultura negra aqui na cidade?
– O batuque funciona com a missão de resgatar e não deixar o Nelson Silva, seu fundador, cair no esquecimento, assim como fizemos com o sambista João Cardoso. Tiramos esse importante nome do samba do anonimato, mostrando como era a poesia na década de 1940, através de suas letras, e também relembramos as Irmãs Barbosa – grandes nomes da cultura popular, principalmente, como intérpretes de escola de samba da década de 1980 e integrantes do batuque. Sempre que vamos nos apresentar, procuramos recordar essas figuras importantes para a cultura negra. A finalidade é acordar, aproximar um negro do outro.
– Você também comentou no depoimento sobre a falta de engajamento social das escolas de samba de Juiz de Fora. Gostaria que falasse um pouco sobre isso.
– A Prefeitura deveria aproveitar o momento de prestação de conta da verba destinada ao carnaval e exigir contrapartida das escolas. É preciso ter relacionamento dentro da comunidade. A diferença das nossas escolas para as do Rio e de São Paulo é que as nossas são muito acomodadas e antissociais, porque não cumprem o dever de envolver a população. Cito como exemplo a Beija-Flor. Quem era a Beija-Flor em 1975 e quem é a Beija-Flor hoje? Joãozinho Trinta desenvolveu a autoestima do povo de Nilópolis, que era uma cidade de dormitório. Hoje, ela tem toda uma infraestrutura para realizar os vários projetos sociais. Moro na Vila Olavo Costa há 58 anos, conheço a realidade da época em que não tínhamos água e energia elétrica, e posso dizer que a Juventude conseguiu mudar esse panorama. O mundo não precisa de artista e sim de justiça. Por isso, vamos usar nossa arte em função das pessoas.
– Há quem diga que o carnaval de Juiz de Fora já foi muito melhor. Como você avalia o carnaval da cidade?
– Na década de 1980, percebi que o carnaval foi jogado de lado. O juiz-forano deixa de aproveitar os desfiles da cidade para correr atrás de trio elétrico em Cabo Frio. É preciso ter em mente que é uma festa de valorização da nossa cultura, além de ser um momento de reivindicações.
– O que você acha do samba como instrumento de conscientização?
– Todas as vezes que estamos avançando dentro das escolas de samba, falando de questões sociais e da cultura afro-descendente, temos um retrocesso. Atualmente, por exemplo, as escolas começaram a comprar enredo, o que é muito triste. Tínhamos que aproveitar as letras para contar nossa história. Quando a Velha Guarda da Bateria da Mangueira esteve aqui, sábado passado, dentro do Mês da Consciência Negra, foi incapaz de entoar aquele famoso refrão: "O negro samba, o negro joga a capoeira, ele é o rei na verde-rosa da Mangueira". Ainda existe, sim, uma preocupação em se trabalhar o social por meio dos sambas, mas muito aquém do que deveria ser. Quanto maior a consciência do povo, melhor para o nosso país.









