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Pioneirismo na TV


Por LEONARDO TOLEDO

10/11/2011 às 07h00

Os esforços de três décadas para se produzir TV em Juiz de Fora são resgatados em depoimentos e cenas inéditas no documentário "Cariocas do brejo entrando no ar", do professor e funcionário da UFJF, Flávio Lins. Cobrindo os anos 1940, 50 e 60, o vídeo de 45 minutos rende uma homenagem aos pioneiros desse meio de comunicação na cidade, incluindo informações sobre experimentos que antecederam a inauguração oficial do veículo e a existência da TV Mariano Procópio. "Esse vídeo é um tributo aos pioneiros que acreditaram ser possível fazer TV em Juiz de Fora", comenta o diretor. Lançado ontem, o filme será exibido, no dia 3 de dezembro, no Festival Primeiro Plano.

Oficialmente, a TV no Brasil começou com a inauguração da TV Tupi em São Paulo em 1950. Na década anterior, entretanto, o técnico em eletrônica Olavo Bastos Freire já realizava seus experimentos em Juiz de Fora. Segundo Flávio, esse mineiro nascido em Leopoldina foi responsável pela primeira transmissão realizada na América Latina, feita a partir de um conjunto rudimentar de emissor, transmissor e receptor, construído por ele próprio. Esses equipamentos integram o acervo do departamento de memória da Funalfa.

O mais impressionante, talvez, seja o modo como Bastos Freire concebeu sua "engenhoca". A construção obedeceu a um modelo de equipamento publicado em revista americana para radioamadores. Como o técnico não sabia inglês, a tradução foi feita palavra a palavra com o auxílio de um dicionário. Mesmo rudimentar, o aparelho chegou a efetuar várias transmissões, incluindo um jogo de futebol entre Tupi e Bangu.

No documentário, há relatos de pessoas que assistiram às demonstrações públicas que Bastos Freire organizou na Rua Halfeld. Em uma das primeiras experiências, a câmera foi colocada no alto do antigo Edifício Clube Juiz de Fora. Sem conhecer direito essa tecnologia, os convidados para o evento se reuniram dentro do prédio e não diante do aparelho receptor, instalado em outro local. Foi necessário o telefonema de um espectador que aguardava as imagens para que o sucesso do experimento fosse confirmado. Mesmo assim, muita gente voltou para casa sem acreditar na façanha.

Na opinião de Flávio Lins, esse histórico pioneiro é explicado por uma cultura implantada na cidade pelas produções da João Carriço Filmes. "Acredito que Carriço tenha plantado em Juiz de Fora o desejo pela imagem. O povo se acostumou a se ver na tela. Há relatos de pessoas que pagavam a entrada do cinema só para assistir aos cinejornais", relata.

Bastos Freire deixa Juiz de Fora, provocando uma lacuna na cidade por alguns anos, mas lega a inspiração para outros pioneiros. O nome de Maurício Panisset também merece destaque nesse rol. Em 1952, ele criou um aparelho que reforçava o sinal de TV em Juiz de Fora, possibilitando a recepção de imagens. Como não encontrou apoio na cidade, mudou-se para o Rio de Janeiro. Mas as tentativas não cessaram por aí. Luís Antônio Horta Colucci, em 1958, conseguiu trazer o primeiro transmissor para a cidade, a partir de um acordo com um representante dos televisores da marca Emerson.

 

Primeiros aparelhos televisores

Instâncias maiores reservavam, contudo, maiores planos para Juiz de Fora. Em 1960, a cidade recebeu uma das antenas instaladas pela "Operação 21 de Abril", parceria do grupo Diários Associados com o Governo federal, que montou um imenso aparato televisivo entre São Paulo e Brasília para viabilizar a transmissão da inauguração de Brasília no ano seguinte. A partir de então, o município passou a receber o sinal da poderosa TV Tupi, além de ganhar a possibilidade de transmitir programas. Nesse cenário promissor, o grupo Diários Associados começou as tentativas de criação da TV Mariano Procópio.

Durante essa fase inicial, há registros de participações esporádicas na programação da TV Continental, no Rio de Janeiro. Esse intercâmbio devia-se, em grande parte, ao prestígio do colunista Décio Cataldi, que circulava com passe livre pelos corredores da emissora. Foi assim que foi possível emplacar o programa "Depois das montanhas", ancorado pelo jornalista José Carlos de Lery Guimarães. Apesar da previsão de sequência, o programa teve apenas uma edição, em função de problemas técnicos e de uma série de transtornos ocorridos na noite de estreia. Por conta de um grande temporal, muitos convidados não conseguiram comparecer aos estúdios, fazendo com que o apresentador fosse obrigado a improvisar por mais de uma hora. O desempenho de Guimarães diante do embaraço foi considerado tão bom que ele foi contratado pela TV Continental.

 

Imagem e notícia

O primeiro programa exibido com maior regularidade em Juiz de Fora foi o inusitado "Telefotojornal", que combinava slides de imagens captadas por Jorge Couri à narração do jornalista Rubens Furtado. A atração era a aposta da TV Mariano Procópio para captar recursos, mas o retorno financeiro não correspondeu ao esperado. A resposta veio na ousada criação de um dia inteiro de programação, que recebeu o nome de "Boa vizinhança". Como não havia estrutura na cidade, foi necessária a colaboração de outras emissoras, que enviaram câmeras e toda sorte de equipamentos.

Em 1963, ocorre o grande golpe que acabaria com a TV Mariano Procópio, mas não extinguiria o sonho de fazer televisão daquela equipe. Considerada uma certeza pelo grupo, o direito de transmissão foi concedido para a TV Industrial e não para Diários Associados.

A alternativa foi passar a veicular programas pela TV Tupi do Rio de Janeiro. Apesar de ocupar a escassa programação vespertina da emissora, a atração "Filmando Juiz de Fora" era transmitida para todo o Sudeste. O noticiário, veiculado a partir de 1966, tinha imagens de Jorge Couri, captadas sem som. O jornalista Wilson Cid era responsável pela redação do texto, que seguia de ônibus para o Rio de Janeiro para ser lido pelos locutores da Tupi.

Com a popularização da TV nos anos seguintes, o programa perdeu espaço na emissora carioca e passou a ser transmitido pela TV Itacolomi, de Belo Horizonte. Nessa época, foram produzidos especiais com bandas, cantores, personalidades e artistas da cidade como forma de cativar a audiência. A programação da capital mineira, entretanto, não era bem aceita em Juiz de Fora, e a recíproca também era verdadeira, uma vez que as atrações produzidas aqui eram consideradas cariocas demais. "O olhar é diferente. Percebemos que os modelos eram totalmente inspirados no Rio de Janeiro", avalia Flávio, explicando a escolha do título do documentário.

 

Seis anos de pesquisa

A empreitada de Flávio Lins durou seis anos e teve início em um curso de especialização da Faculdade de Comunicação (Facom) da UFJF. Nessa época, ouviu as primeiras menções à TV Mariano Procópio. "Eram transmissões que nunca tinha ouvido falar, incluindo programas feitos em Juiz de Fora e veiculados no Rio de Janeiro", conta. Essa fagulha de curiosidade pela desconhecida emissora frutificou um ano mais tarde no mestrado em comunicação, também pela Facom.

Depois de exaustivas pesquisas em arquivos e acervos bibliográficos e da captação de depoimentos, Flávio recebeu do jornalista Wilson Cid um dos materiais mais preciosos de seu documentário: rolos de filme em 16mm com alguns dos especiais produzidos na cidade. "Cariocas do brejo entrando no ar" foi gravado e editado pelo pesquisador, com recursos próprios. Na reta final, o trabalho contou com a colaboração das jornalistas Regina Gaio e Andrea Andrade.