Insegurança pública interfere no consumo de bens culturais
À noite, eu evito sair sozinha, e com isso deixei de fazer várias coisas que gosto, como frequentar shows, teatros e mesmo o cinema, porque trabalho o dia todo e só tenho a noite livre. O relato da jornalista Paula Faria reflete uma das consequências da insegurança pública em Juiz de Fora: seu reflexo nas mais diversas esferas da vida cotidiana. Na quinta-feira, a Tribuna publicou matéria sobre a vulnerabilidade de espaços culturais a invasões e tentativas de furto, como aconteceu na quinta com o Forum da Cultura. O problema atinge também o público, que nem sempre se sente seguro para sair de casa. O resultado é um esvaziamento de espaços e atividades culturais.
Para o dramaturgo José Luiz Ribeiro, diretor do Grupo Divulgação, o medo da violência urbana interfere diretamente no consumo de bens culturais. Frequentemente, vemos as salas de cinema e teatro com pouquíssimas pessoas, mesmo tendo programação variada e de qualidade. Com certeza, isso tem a ver com a falta de segurança, que muda os hábitos culturais das pessoas, faz com que elas pensem duas vezes antes de sair.
No Centro, espaços como o Cine-Theatro Central e o Cine Palace podem estar perdendo parte do público, que prefere não enfrentar o Calçadão deserto ao final de uma sessão de cinema ou show. É claro que isso não acontece nos grandes shows do Central ou em formaturas, mas, nos eventos menores, a rua fica vazia sim, e não há segurança: basta ver que há pichações nas paredes do teatro, sinal de que não há ninguém tomando conta. O Palace eu deixei de frequentar há muito tempo, porque as ruas da esquina onde ele fica são perigosas à noite: eu mesmo já fui assaltado uns anos atrás, conta o estudante Felipe Cerqueira.
Segundo o pró-reitor de Cultura da UFJF, Gerson Guedes, a segurança no Cine-Theatro Central é reforçada em dias de show, e um pedido de parceria com a Guarda Municipal já foi encaminhado à PJF. Tínhamos seguranças armados na área externa, mas não podemos mantê-los porque ali é uma área de circulação pública, e isso é contra a lei. Temos um vigia 24 horas, e essa parceria com a Prefeitura poderá nos ajudar muito. Reconheço o receio das pessoas, mas acho que os eventos daqui não foram influenciados, a casa está sempre cheia, afirma o pró-reitor.
Ocupação e segurança
Para o superintendente da Funalfa Toninho Dutra, é justamente na casa cheia a que Gerson se refere que pode estar o caminho para a solução do problema. Claro que há medidas que podem ser tomadas, como, por exemplo, melhorias na iluminação de acessos a espaços e eventos culturais, que trazem mais segurança. De forma geral, é preciso batalhar para levar as pessoas onde a cultura está. Quanto mais frequentado um espaço é, mais seguro ele se torna, opina ele, que, a longo prazo, acredita na educação como única possibilidade de mudança de um cenário de insegurança.
É o que também defende a diretora do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), Nícea Nogueira, que não observa oscilações do público do museu, mas percebe a violência afetando o cotidiano do juiz-forano. É importante manter a vida cultural acesa e preocupada e combater a insegurança por meio da educação. A informação sobre os direitos humanos influencia na queda da violência, e os eventos e atividades culturais também podem atuar na formação de cidadãos mais conscientes, conclui Nícea.









