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Knorr produz novo CD ‘Vamos ver que bicho dá!’


Por RENATA DELAGE

02/04/2012 às 23h00

A relação de Knorr com as palavras "é quase carnal". "Eu não vivo sem escrever." E sempre à mão. "Posso contar nos dedos os poemas que fiz em um teclado de máquina de escrever ou de computador. Gosto do ruído do lápis ou da caneta no papel. É uma melodia das palavras, da poesia." O contato de Knorr com a perene matéria-prima de seus trabalhos surgiu aos 12 ou 13 anos, quando se "descobriu" poeta, "com o incentivo de uma tia que escrevia também, Aymar de Mendonça Lopes". As aulas de reforço de português dadas pela tia evidenciaram a facilidade do menino em lidar e brincar com palavras. "Se não fosse ela, hoje eu poderia ser bem mais triste."

A primeira incursão no colorido terreno da literatura infantil aconteceu nos anos 90, quando, a "grande brincadeira poética", que lida com o lado hipocondríaco das pessoas, "Inspirinas – poesia em cápsula", foi estendida e rendeu versão aos pequenos. Em 2004, convidado por José Santos, Knorr participou da coletânea "Poemas esparadrápicos", que teve o direito de uso e a renda das vendas doados aos Doutores da Alegria, em São Paulo. "Os poemas foram reunidos em uma tira adesiva única, como se fosse um esparadrapo mesmo, e a criança desenrola, descola o poema – que está devidamente ilustrado e assinado – e cola onde desejar." Ao todo, 14 autores, como José Paulo Paes, Elias José e Ricardo Azevedo, participaram da coletânea.

O universo infantil é o que recebe hoje boa parte das novas produções do poeta. O segundo volume do CD "Vamos ver que bicho dá!", composto de poemas de Knorr musicados por Alexandre Laguardia, lançado em 2010, já está em fase de produção. "Desta vez, fiz uma parceria com o Gutti Mendes, do Lúdica Música, que já trabalhou com musicalização infantil na cidade. Pretendemos entrar na Lei Murilo Mendes deste ano, e o CD deve contar com a sempre maravilhosa colaboração das lúdicas Isabella Ladeira e Rosana Brito, ‘cúmplices’ de longa data."

Para Knorr, o processo de criação da poesia infantil não se difere do da destinada aos adultos, mas o desenvolvimento da ideia, sim. "O desejo acaba sendo maior, não importa a idade. Mas tenho que ter certas preocupações com vocabulário, mensagem e outras coisas que não me importo tanto quando o leitor, teoricamente, é um adulto. Se bem que, com as crianças de hoje em dia…" Temas fáceis – mas não por isso menos desafiadores -, que atingem, sobretudo, as crianças em fase de alfabetização, são eleitos como os preferidos do poeta. "Criança não gosta de nada muito complicado, nada difícil, mas adora um desafio. Sempre coloco um ‘molho’ especial nesses poemas, para fazer com que elas pensem um pouquinho, reflitam sobre outros temas e questionem sempre. Esse é o sentido da arte: questionar, perguntar. Arte não é para responder nada."

A relação da palavra e da ilustração é para o poeta algo inseparável. "Fazer literatura e poesia infantil sem ilustração é quase um ultraje. A criança aprende pelo visual, não há como negar", avalia. O forte apelo iconográfico, que traz novas significações aos versos a partir de diferentes formas, tamanhos, fontes e posicionamento das letras, permeia a obra de Knorr. A poesia visual destinada, em princípio, aos adultos, ganhou ares ainda mais livres nos trabalhos infantis. "No ano passado, pela primeira vez, resolvi arriscar no terreno da ilustração à mão livre. Não são desenhos primordiosos, mas as crianças para quem os mostro têm gostado muito", brinca. O livro infanto-juvenil que carregará as ilustrações é o "Pequena história das coisas que não deveriam existir", composto de tópicos sugeridos pelos três filhos de Knorr, de 7, 4 e 1 ano de idade. "Ao contrário de muitas relações de pais e filhos, no meu caso, são meus filhos que são meus maiores ídolos."

 

Em relação à literatura infantil no país, Knorr acredita que a "porção poesia" é bastante reduzida. "Há uma produção enorme e crescente de livros, mas ainda há pouca poesia. Vem aumentando, com certeza, principalmente se entendermos as letras de canções infantis como poesia, mas ainda é pouco." Na cidade, Knorr cita nomes que se destacam pela produção literária infantil, como Cleonice Rainho, Marilda Ladeira, Fernando Fábio e Edimilson Pereira. "Somos poucos, mas não menos."

O primeiro volume de "Vamos ver que bicho dá!" teve o apoio da Lei Murilo Mendes e concedeu, como contrapartida, CDs às escolas municipais e às creches de Juiz de Fora. Levar o trabalho destinado aos pequenos às escolas da cidade e da região é um dos projetos que Knorr pretende explorar durante o ano. "Acho que as escolas deveriam prestigiar mais os autores locais, adotando seus livros, trabalhando com esse material. Seria uma troca bacana, e incentivaria cada vez mais o desenvolvimento da literatura – e da poesia – infantil."