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Os donos das palavras cantadas


Por MAURO MORAIS

21/07/2013 às 07h00

De olho nos cantos escuros, Zé Pedro encontrou sua fórmula perfeita para comemorar as sete décadas de vida da compositora de sua geração Sueli Costa. Reconhecido DJ, com passagens pela televisão e pelo rádio, o criador do selo Joia Moderna lança, no segundo semestre, o álbum "Simples pessoa: as canções de Sueli Costa". "Daqui a dois segundos, o ano vai acabar. Estou consciente desses 70 anos da Sueli desde o ano passado. Vejo o tempo passar e as pessoas sonhando em coletâneas feitas pela Nana Caymmi, pela Bethânia, ou pela Simone. Isso não vai acontecer. Se ninguém agir, não haverá disco nenhum", protesta ele. "Resolvi, então, tomar a aquela minha velha iniciativa, mil cópias, músicas escuras e cantoras desconhecidas", conta, experiente após lançar recentemente "Mulheres de Péricles" e "Coitadinha bem feito", coletâneas que alcançaram sucesso ao reunir velhos compositores em novíssimas interpretações. Recorrente nesse ano, o formato tributário, além de revisar a história recente da MPB, reacende as discussões sobre a relevância da música na cena literária.

Nascida no Rio de Janeiro e criada em Juiz de Fora, Sueli completa 70 aniversários no próximo dia 25. Em sua trajetória musical, ela se tornou reconhecida pela composição, muitas delas em parceria com nomes de peso, como Paulo César Pinheiro, Ana Terra, Aldir Blanc e o frequente Abel Silva. Elis Regina, Gal Costa, Lucinha Lins, além de Nana, Bethânia e Simone foram algumas de suas ilustres intérpretes. "A Sueli Costa não é uma compositora que possibilita grandes transgressões harmônicas. Esse vai ser um disco mais ‘careta’. Agora vou pegar cantoras da noite, que não tiveram ainda sua oportunidade. É um disco todo obscuro", comenta Zé Pedro, apontando para a faixa-título, gravada por Leci Brandão em sua estreia em 1975.

Apesar de disponível no YouTube, em gravação original da sambista, "Simples pessoa" não é, nem de longe, a mais conhecida canção da autora de "Jura secreta", "Coração ateu" ou "Dentro de mim mora um anjo". A brincadeira do DJ que se tornou um dos maiores pesquisadores de música realmente é feita no escuro. Da mesma forma, ele criou "Coitadinha bem feito", no qual resgata tesouros na obra de Angela Rô Rô. O paulista Leo Cavalcanti nem era nascido quando Angela gravou "Came e case" no histórico disco "Escândalo", de 1981. O baiano Lucas Santana tinha apenas 9 anos quando estourou "Amor meu grande amor", um dos sucessos do disco de estreia da cantora de voz grave e rouca. Ao lado de outros 15 jovens cantores da cena contemporânea da música brasileira, Leo e Lucas deram nova roupagem às criações da sempre polêmica artista.

Comprovando a potência das mulheres na nova cena, 17 cantoras – entre elas as badaladas Tulipa Ruiz, Céu e Mallu Magalhães – também reinventaram as composições do carioca Péricles Cavalcanti, reconhecido através das assinaturas de músicas já gravadas por Caetano Veloso, Gal Costa e Adriana Calcanhoto. "Na minha comunicação com os cantores, peço a eles que entortem as canções, que subvertam e, acima de tudo, realcem a letra, a poesia, para as pessoas entenderem que aquela obra resiste ao tempo", pontua Zé Pedro, que financia o selo com o próprio bolso, apostando, também nos downloads gratuitos. "Os orçamentos são muito pequenos e geram singelas obras-primas", derrete-se.

Na mesma onda, mas em barco diferente, o arte-educador carioca Márcio Bulk, responsável pelo site Banda Desenhada, acaba de liberar na rede o disco "E volto para curtir", no qual reúne um time de representantes do que chama de neoMPB para reverenciar o compositor setentão Jards Macalé. "Pode soar piegas ou ingênuo, mas acredito que exista uma ligação de valores e de postura artística entre as gerações de 1970 e de hoje. Para mim, os artistas chamados injustamente de "malditos" são os verdadeiros pais da neoMPB", analisa.

 

 

Transgredir para renovar

A despeito dos muitos tributos lançados por grandes gravadoras – como os recentes "Vanessa da Mata canta Tom Jobim" e "Lulu canta & toca Roberto e Erasmo" -, esses discos alternativos lançam mão de nomes pouco conhecidos e releituras completamente originais. "Coletâneas, tributos e songbooks existem desde quando o samba é samba. Não é uma novidade no mercado. O que consegui imprimir com a Joia Moderna foi a possibilidade de trazer um compositor que estava esquecido e, em vez de fazer uma coletânea com a obra dele, fiz ele entregar a produção para a nova geração. Esse compositor novamente se torna interessante", comenta Zé Pedro.

Segundo Márcio Bulk, que revisitou o primeiro disco de Macalé, a liberdade dada aos jovens artistas confirma o arrojado e instigante panorama atual. "Uma das minhas maiores preocupações na hora da escolha da música e do intérprete foi justamente dar essa sensação de conforto, de pertencimento em relação à letra. Na minha opinião, todas as músicas poderiam se mimetizar sem dificuldades ao repertório de cada artista convidado", conta, certo de que a variedade de sons na releitura de uma mesma obra confere uma "verdade estética" ao álbum. "Gosto da transgressão, do ‘desrespeito’ à obra original do compositor. Na verdade, o Péricles foi desrespeitado pelas meninas, e a Angela foi desrespeitada pelos meninos", afirma o DJ paulista.

 

Só e acompanhado

Ao revisitarem a produção de compositores nacionais, essas coletâneas não apenas lançam novas luzes sobre nomes escondidos nas fichas técnicas dos discos, mas também reacendem as discussões sobre a relevância desses autores na escrita literária brasileira. Ao chegarem a novos ouvidos através de vozes diferentes em arranjos distorcidos, esses compositores são logo alcunhados de poetas. Mas seria a canção parte integrante da literatura? Já em 1948, no livro "Teoria da literatura", um dos pilares da Nova Crítica, os críticos americanos René Wellek e Austin Warren definem: "A colaboração entre poesia e música existe, não há dúvida; mas a mais alta poesia não tende para a música, e a maior música não precisa de palavras".

De acordo com o professor da Faculdade de Letras da UFJF Alexandre Faria, na cultura brasileira, a canção é muito mais forte do que em outras culturas latinas, e isso se deve a uma tradição do analfabetismo. "É no canto, na oralidade, que se vive o lírico, a experiência do poético. A experiência da leitura está ausente, mas o poético não", analisa. Para Faria, no período pós-bossa nova, que engloba as produções de Macalé, Sueli Costa, Angela Rô Rô e Péricles Cavalcanti, além de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e muitos outros, a canção foi feita de uma forma muito inteligente. "São poetas que descobriram na palavra cantada uma forma de difundir, de veicular a experiência do poético", destaca.

Segundo o antropólogo Francisco Bosco, a canção popular é potencialmente uma experiência estética de alta inventividade e alcance artístico, mas carece de ponderações. "Poema e letra de música são coisas fundamentalmente diferentes: o poema está só, a letra está acompanhada – e eventualmente pode ter a solidão, por paradoxal que pareça, como suplemento", aponta no ensaio intitulado "Letra de música é poesia", presente no livro "Literatura e sociedade", organizado por André Bueno. Apesar de reconhecer que a canção integra um outro sistema de produção, no qual a melodia está colada à canção popular e a letra é sempre um espaço sagrado – permite-se subverter a melodia, mas não as palavras – Faria é um dos defensores da música como forma literária. "A canção é a forma como a experiência poética circulou no que a gente chama de povo brasileiro", conclui.