Ouça agora

Encontros e descobertas nos caminhos da música MARCIO HALLACK


Por LEONARDO TOLEDO

21/10/2011 às 08h00

A palavra encontro parece tomar um significado especial na trajetória de Marcio Hallack. O primeiro deles ocorreu aos 5 anos de idade, quando ele se viu diante de um piano, depois de uma sessão de cinema. Seus dedos encontraram quase instintivamente as teclas, dedilhando Love is a many-splendored thing, tema do filme que acabara de assistir. Na juventude, o talento ao piano conquistou incontáveis parcerias, eternizadas em shows e gravações de CDs, seus e também de amigos. Em seu quarto álbum, Piano solo, choros e canções, o artista juiz-forano promove outro encontro; dessa vez, entre três vertentes de sua música. A conhecida veia instrumental marca presença em composições autorias, acrescidas de releituras de choros, que realçam a atualidade de gênios como Ernesto Nazareth e Pixinguinha. No novo trabalho, Hallack ainda dá voz, literalmente, a suas canções, em três composições inéditas. Em O amor me acordou(parceria com Márcio Itaboray), o pianista perde a timidez e estreia nos vocais.

Um show, hoje, no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), marca o lançamento oficial de Piano solo, choros e canções, CD em que Marcio Hallack afirma ter encontrado novos horizontes. Fui buscando alguma coisa diferente, sintetiza. Além de O amor me acordou, o álbum traz as canções Lua inquieta, (parceria com Murilo Antunes), na voz de Carla Villar, e Moda pro Cacaso(parceria com Luís Sergio Henriques), gravada por Nelson Ângelo. Nelsinho participou do meu primeiro LP, depois do Tudo azul e, agora, está de volta, cantando uma música, comenta.

O manancial de canções promete render novos frutos em breve. Marcio Hallack já prepara seu próximo CD com repertório, aprovado na Lei Murilo Mendes. Com o título de Algumas canções, o álbum será dedicado exclusivamente a esse tipo de composição .

Piano solo, choros e canções, que sai pelo selo Ethos Brasil, representa um retorno aos estúdios depois de oito anos. Segundo o músico, a lacuna deve-se às viagens para shows, além das participações em projetos de outros artistas, como instrumentista e compositor. Nessa leva, entraram os arranjos para o CD Daniela Aragão face a Sueli Costa face a Cacaso, da cantora Daniela Aragão.

Não gosto de entrar no estúdio só para dizer que gravei mais um disco. Acredito que é preciso sentir o momento, explica. Prova dessa atitude foi a maturação gradual de Piano solo, choros e canções, que começou a ser gravado há três anos e passou por estúdios em Juiz de Fora, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Araras.

O tempo sem gravar também foi dedicado ao estudo de orquestração. A dedicação, aliás, é marca de um instrumentista que teve como base o clássico. O conhecimento técnico resulta na sofisticação harmônica dos choros presentes no novo CD. Vejo que esse é um caminho bacana, porque é um modo de preservar a música instrumental brasileira. Essas releituras têm lugar na atualidade. Não modifico a melodia, mas levo a harmonia e o ritmo para uma linguagem mais atual. Essas composições possibilitam isso. Talvez, esses autores pensassem em tudo que a gente está fazendo agora, avalia.

Marcio Hallack já foi apresentado pelo crítico Zuza Homem de Mello como a junção entre a introspecção mineira e a liberdade carioca. Sua música, em outra perspectiva, poderia ser resultado de outra combinação: a precisão do cirurgião com a alma lírica do artista. A carreira de cardiologista, segundo Hallack, não entra em confronto com o piano. Para mim, nunca houve problema. Sempre consegui fazer as duas coisas com meus compartimentos cerebrais totalmente separados, afirma o músico, que divide o tempo com a cardiologia.

Hoje, com quase 40 anos de carreira, a dupla jornada ainda não dá sinais de desgaste. Hallack afirma ter na gaveta material para, pelo menos, mais cinco CDs. O músico conta ainda com dois DVDs não lançados oficialmente, um deles gravado ao vivo, em 2004, no Teatro Isabela Hendrix, em Belo Horizonte. O outro no Espaço Constituição, no Rio de Janeiro, registrado em 2006. Na agenda das próximas semanas está a participação no Festival de Tiradentes, em duo com Hélio Delmiro.

Curiosamente, Marcio Hallack precisou de um certo empurrãozinho para começar a estudar piano. Apesar do tal episódio com a canção Love is a many-splendored thing, que tomou ares de lenda na família, o garoto não queria saber de música. Eu era obrigado a estudar piano, conta. Até então, o piano não passava de objeto decorativo na casa da família Hallack, na Rua Marechal Deodoro. Dos seis irmãos, nenhum havia se aventurado no instrumento. De tanto conviver com as teclas, acabou se apaixonando por elas. De tanto que forçaram, passei a querer estudar piano. Ficava seis horas tocando direto, tudo de ouvido.

Esse despertar ocorreu por volta dos 18 anos, mesma época em que Marcio Hallack prestava vestibular para medicina. Os estudos de música iniciados em Juiz de Fora avançaram no Rio de Janeiro, com professores como Luiz Eça (pianista do Tamba Trio) e Esther Scliar. Não tinha muito tempo. Cursava faculdade em Juiz de Fora e fazia algumas aulas no Rio. Aproveitava a cidade também para ver as pessoas tocarem, como o Victor Assis Brasil, no Museu de Arte Moderna (Mam). Era um ambiente muito bom, que hoje o Brasil não tem mais, infelizmente, relata.

Referências como essas, somadas ao apuro técnico, resultaram em premiações, como o primeiro lugar no concurso para pianistas do Conservatório Brasileiro de Música, em 1989, e o troféu BDMG, em 2002 e 2007. A lista inclui também o terceiro lugar na Rodada Brahma de Musica Brasileira, em 1991, pelo choro Um presente pro titio.

Gravações, festivais

e amizades

Entre os projetos de Marcio Hallack para os próximos anos está a conversão de seu LP de estreia Talismã (1988) para CD. Dirigido inicialmente por Nelson Ângelo, do Clube da Esquina, o álbum conta com participações de músicos do quilate de Jaques Morelenbaum (violoncelo), Robertinho Silva (bateria), Marcos Suzano (percussão) e Mauro Senise (flauta).

Talismã ainda rendeu outra satisfação a Hallack, a gravação de uma de suas faixas, Música, por Telma Costa.

Em 2002, essa parceria abriu caminho para uma nova empreitada. Dessa vez, com a irmã de Telma, Fernanda Cunha. A convite da cantora, Hallack passou uma temporada em Cleveland, nos Estados Unidos, para a gravação do CD O tempo e o lugar, ao lado dos músicos americanos, Kip Reed (baixo) e Matt Perko (bateria). Esse baterista tinha sofrido um transplante e recebido o coração de um brasileiro. Não me esqueço disso, porque, durante os ensaios, conseguia me comunicar com ele muito bem. Só com um gesto, ele sabia a levada certinha, mesmo sem entender português. Eu brincava que ele já tinha coração e ritmo brasileiros, conta.

Essa temporada rendeu, ainda, a gravação de Luiza (de Toninho Horta) com os instrumentistas americanos. A faixa foi inserida no terceiro CD de Hallack, De manhã (2003). Elogiado pela crítica, o álbum foi indicado ao Prêmio Tim (atual Prêmio da Música Brasileira) na categoria melhor CD instrumental.

De manhã guarda uma homenagem a um dos grandes parceiros de Hallack, Hermeto Pascoal, e aos músicos que acompanharam o alagoano por muito anos. A música Setiberê é uma referência a Itiberê, contrabaixista do grupo. O compositor juiz-forano, aliás, foi um dos responsáveis pela apresentação histórica do multi-instrumentista na Capela Galeria, demolida no final da década de 1980. Desse momento célebre, sobrou uma imagem captada por Humberto Nicoline, que flagra Hallack e Pascoal pulando a cerca que dividia o canteiro central da Avenida Rio Branco.

Hoje, às 20h

Mamm

(Rua Benjamin Constant 790)