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Afinidade literária


Por LEONARDO TOLEDO

24/11/2011 às 07h00

A capa da antologia de contos "Comum de dois" (Editora Funalfa, R$30, 150 p.) traz a assinatura de dois escritores. Mas o arquiteto e professor Vinicius Rocha e o assessor de investimentos Guilherme Lourenço, autores dessa empreitada, garantem que não há espaço para hierarquias ou qualquer disputa nas 150 páginas que integram a publicação. Ao contrário, o livro que será lançado hoje, às 19h, no Hiato – Ambiente de Arte, reúne as afinidades literárias de dois grandes amigos, admiradores do chamado realismo fantástico, gênero que tem o argentino Jorge Luís Borges e o tcheco Franz Kafka como expoentes.

Contudo, é o nome do brasileiro Murilo Rubião que mais desperta interesse nos jovens escritores. "A obra desse mineiro não é tão conhecida quanto merecia, mas é nossa referência maior", revela Vinicius. Por meio dessa linguagem híbrida, que transita entre o social e a fantasia, os 24 contos que integram o livro discutem problemas que afligem o homem contemporâneo. O gatilho para essa reflexão está em situações absurdas, que combinam estranhamento com uma pitada de humor, como o alfaiate que se transforma em um macaco ou o homem que transforma os filhos em papel.

O inusitado das situações, entretanto, torna-se relativo diante da comparação com episódios reais, como os relatados nas notícias de jornal que abrem a publicação. "As ideias que estão nos contos partem da nossa percepção sobre o que acontece. Daí a pergunta: será que a gente inventa ou a realidade é muito mais fantasiosa do que se imagina", indaga Guilherme.

 

Guilherme e Vinicius já se dedicavam à literatura antes de se conhecerem em 1997, quando foram colegas em um cursinho pré-vestibular. Nessa época, entretanto, ambos escreviam poesia. A ficção de contornos absurdos só revelaria como uma opção anos mais tarde. "Identificamos no realismo fantástico aquilo que gostaríamos de fazer", explica Vinicius.

A amizade dos autores se consolidou durante a Faculdade de Arquitetura, que Guilherme abandonou para seguir carreira no ramo das finanças. A literatura, entretanto, permaneceu como mais um elo entre o arquiteto e o assessor de finanças. Nessa convergência de interesses, opiniões e interferências são recíprocas.

Prova desse trânsito livre na produção dos escritores são as duas versões do conto "A mulher impermeável". Criada inicialmente por Vinícius, a história ganhou uma adaptação nas mãos de Guilherme, com uma atmosfera diferente. As duas versões foram colocados no livro, entremeadas por um desenho de Danilo Carvalho Lopes. "Tenho certeza de que esse livro só aconteceu porque foi feito por nós dois ao mesmo tempo, com a mesma força. Talvez eu não tivesse gás para topar um projeto como esse sozinho", afirma Guilherme.