Técnica dos afetos
Entre a intuição, espaço tão recorrente no universo artístico, e a noção precisa, que entende a arte como ciência, João Rossi atravessou o tempo. Entre a sala de aula e o ateliê, descortinou a relevância da pesquisa, servindo-se de uma paleta antes de tudo harmônica. Reconhecido professor paulista – responsável pela criação de faculdades e cursos de artes plásticas em São Paulo, dentre elas a Faap, Mogi das Cruzes, Unaerp, MAC, Mube e Mackenzie -, Rossi ganha a retrospectiva "João Rossi, através do tempo", que abre hoje, às 20h, no Espaço Cultural Correios. Num recorte de cerca de quatro décadas 101 obras contribuem para resgatar uma trajetória capaz de reunir, com êxito, técnica e emoção.
Nascido em 1926, na Rua Augusta, região emblemática da capital paulista, o artista transferiu-se, aos 24 anos, para o Uruguai, onde se aproximou da cultura latino-americana. Das raízes e dos interesses continentais, surgiram os dois temas de sua predileção: o espaço urbano e os ameríndios. Considerado pelo crítico de arte Mario Schenberg como um precursor do que seria o neoexpressionismo brasileiro, Rossi bebeu em muitas fontes, como o próprio expressionismo, criando uma obra altamente original. "É impressionante perceber que é possível identificar a pessoa com a obra. O que norteou o trabalho dele foi o ser humano e a arquitetura", analisa a curadora da mostra Simone Ajzental.
Da gravura em metal ao desenho, passando por litografia, colagem, cerâmica, aquarela e pintura a óleo, chama atenção um neologismo: polimatéria. A expressão, criada pelo artista para identificar suas pesquisas, caracteriza tanto seu percurso na academia quanto no ateliê, onde era procurado pelas invenções de materiais. "Ele sempre pesquisou novos suportes e formas de fazer a tinta. A aquarela era ele quem fazia", comenta um dos filhos, Enrique Rossi, responsável pelo acervo do pai.
Segundo a neta do artista, Tatiana Rossi, a criatividade é o principal ponto de suas lembranças. "Nos cavaletes ou nas mesas sempre haviam jornais nos quais ele desenhava. Não tinha hora para trabalhar, ele ficava muito tempo naquele lugar", recorda Tatiana. "Fazia projetos a qualquer momento, e dali surgia uma obra", completa Enrique. Segmentada por técnicas e poéticas, a exposição apresenta alguns desses esboços, com destaque para a imagem de uma índia, feita com caneta esferográfica vermelha, tão contemporânea quanto os grafites, que partiram das ruas para as galerias.
"Queríamos uma mostra que revelasse a variedade do artista", comenta Simone Ajzental, que optou pelo dinamismo, preferindo agrupar obras sem enfileirá-las, o que resultou em disposições profundamente familiares, como quadros numa sala de estar. No clima solene, e ao mesmo tempo acolhedor, habitam cores que, mesmo fortes, como o preto, o azul e o verde escuro, não caracterizam peso. "Mesmo sombrio ele é harmônico", pontua a curadora.
Fazia por acreditar
Apesar de ter se aposentado em 1986, João Rossi nunca abandonou o exercício que o tornou amplamente conhecido no meio artístico paulista. "A academia nutriu o lado pensador dele, mas ainda assim ele criou com a mesma maestria", pondera a curadora. "Ele era um homem muito dócil e sempre teve a postura de professor. Quando via interesse em alguém, logo se dispunha a ensinar. Não sei se ele preferiu a academia ou se era uma questão de sobrevivência. Ele sempre teve essa veia, mas isso não anulou sua produção", emociona-se Tatiana, creditando às políticas da arte o fato de o avô não ter alcançado amplo reconhecimento no país.
Imagem de um romantismo que há muito já se dissipou no mercadológico sistema da arte, Rossi é lembrado como um crédulo no poder transformador de seu artesanato. "Toda ação dele, tanto como professor quanto como artista, tinha bastante vibração", relata Enrique.
Tamanha sensibilidade também resultou em versos – ao todo, Rossi deixou 120 poemas nunca publicados: "Meu mundo é o abstracionismo. / E, na coerência do ancestral tropismo, / compreendo, claramente, a sociedade". O olhar solidário, que se expressa nas figuras ameríndias, também se propõe a refletir a passagem do tempo que o artista via da janela. A verticalização das cidades, o surgimento das favelas e a ausência de projetos amplos de urbanismo e arquitetura saltam aos olhos em suas pinturas (a maioria delas pertencentes ao final da década de 1980 e início de 1990) e litogravuras (grande parte feita nos anos 1980).
Localizado no bairro Vila Sônia, Zona Oeste de São Paulo, o ateliê do artista, anexo a sua residência – onde ainda vive sua esposa, Isabel -, reúne cerca de 1.200 obras, nos mais variados suportes e técnicas. De acordo com Enrique, o legado é mantido de forma bastante precária, o que dificulta a divulgação e a difusão da obra. "A gente trabalha como louco para viver e acaba não fazendo o que deveria", lamenta. O desejo de Rossi era que o espaço se transformasse em um museu-escola, com oferta de oficinas e lugar para pesquisas.
"Fazemos tudo de uma maneira muito caseira. Gostaríamos de tornar tudo uma fundação, mas é difícil. Quando percebemos que alguém tem interesse genuíno em comprar uma obra, não temos problemas em repassá-las", explica Tatiana, confirmando o desejo em tornar ainda mais pública a trajetória do avô. "Para selecionar, tivemos que tratar e emoldurar. Foi muito difícil escolher o que expor, mas, ao mesmo tempo, apaixonante", comenta a curadora, indicando o amplo universo que ainda há por explorar. Para Jacob Klintowitz, curador de uma de suas últimas individuais em vida, feita em 1992, na Pinacoteca de São Paulo, João Rossi poderia ser um formalista, mas, ao sintetizar sua poesia, diz: "este extremo requinte formal está aliado a sua visão humanística".
JOÃO ROSSI, ATRAVÉS DO TEMPO
Abertura hoje, ás 20h. De segunda a sexta, das 10h às 18h, sábados, das 10h às 14h. Até 20 de julho
Espaço Cultural Correios
(Rua Marcehal Deodoro 470)









