De mãos dadas com o samba
Um dos compositores que mais ganhou versões na voz de intérpretes brasileiras, Paulo César Pinheiro coleciona nomes que vão das vivas Nana Caymmi, Simone, Alcione e Maria Bethânia às falecidas Elizeth Cardoso, Elis Regina e Clara Nunes. Fundamentais para a solidificação da obra de Pinheiro, esses nomes também são referências para três gerações de intérpretes de samba em Juiz de Fora. "Minha relação profissional com o samba é bem recente, apesar de sempre ter nutrido grande simpatia pelo gênero e ser cotidianamente ouvinte", conta Juliana Stanzani, 23 anos. "Seja samba de roda, samba-enredo ou qualquer outro tipo, é fundamental ter ritmo, suingue, coordenação, depois é preciso ser afinado, ter um bom timbre e muito amor ao samba", enumera Sandra Portella, 36. "Ser a veterana é maravilhoso, principalmente porque meu repertório, exclusivamente voltado à MPB, veio ganhando afinidade com o samba desde que passei a dividir o palco com outros veteranos, como o Mamão", resume Marly Silva, 62.
Marly está na estrada há 39 anos. "Comecei a cantar com um grupo em Juiz de Fora, fui para Santo Antônio de Pádua, após trabalhar em Leopoldina, onde eu namorava o guitarrista da banda Brasilian Show. Naquela época, era tudo junto, samba, bossa-nova e música popular", lembra Marly, muito elogiada pelas outras duas colegas de profissão. "Minha primeira impressão da Marly foi ótima, ela cantava no Barracão (antiga casa de show instalada no Mariano Procópio), acho que em 1999, e eu dava os meus primeiros passos como cantora. Eu a vi subir no palco e cantar lindamente com o seu doce timbre a música ‘Tarde em Itapoã’, fiquei encantada com aquela voz, daí alguns amigos abusados pediram para ela deixar eu dar uma ‘palinha’, e ela prontamente me convidou para cantar. Foi lindo. Ela me conquistou pela generosidade", lembra Sandra Portella.
A mais nova entre as bambas locais, Juliana Stanzani só entrou em contato com Marly no segundo Concurso de Marchinhas, em fevereiro deste ano, quando a interpretação da primeira garantiu o segundo lugar para o compositor Toinho Gomes, e a da concorrente deu o terceiro para Ricardo Barroso. "Sei que ela faz parte de uma geração forte do samba e da MPB em Juiz de Fora, tem um papel importante nessa história toda", elogia. "Comecei cantando rock’n’roll, me ‘infiltrei’ na MPB e no regional, até mesmo pelo estilo das minhas composições, e, ultimamente, digo que o povo do samba está tentando me pegar pelo pé. Os convites começaram a surgir constantemente no ano passado, de compositores como Carlos Fernando Cunha e Roger Resende, e eu fui me deixando levar, estou me encantando, o samba é um caminho sem volta", avisa a mais nova das três.
Sandra e Juliana estudaram canto na Universidade de Música Popular (Bituca), em Barbacena. "Apesar de ter sido em momentos distintos, tivemos aula com a mesma professora, a Babaya. Conheci a Sandra pessoalmente em um dia em que eu reencontrava a Babaya em estúdio, foi muito especial, deu para criar laços, que eu, sinceramente, espero que se mantenham por muito tempo", conta Juliana. E Sandra responde: "Esse ano fiz questão de convidar Juliana para participar comigo – e com Débora Almada, filha do Zezé do Pandeiro – da ala de intérpretes da escola de samba Unidos do Ladeira, e deu certo".
Entre o gesto e a poesia
O samba é um estilo musical que está passando por constante processo de rejuvenescimento. Vivendo este processo na íntegra, em quatro anos de atuação na cidade, Juliana Stanzani é, além de intérprete, compositora, como grande parte das novas vozes surgidas no Brasil. É dela, inclusive, a maior parte do repertório da Banda Matilda. "Como intérprete, tento pensar o canto de acordo com o enredo da canção, como numa conversa entre gesto e poesia. No palco, sou a portadora da palavra. Como compositora, meu processo de inspiração é relativo ao método, ao momento, à motivação da composição. Escrever uma letra quando a melodia vem pronta de um parceiro é diferente do que quando se constrói as duas coisas juntas. Normalmente eu não me forço a escrever, deixo a letra vir com a vontade, e até agora tudo tem fluido bem dessa forma", explica a musicista, envolvida com a produção do CD de estreia da Matilda ("Patuá"), previsto para daqui a alguns meses.
Sandra Portella também está na corrida para tirar do forno o primeiro CD de autorais, "Samba do morro". Enquanto isso não acontece, lembra os velhos tempos. "Já cantei em muitos bailes, interpretando feras internacionais como Witney Houston, Dione Warwick, Carpenters etc. A diferença para o samba é grande. Aliás, é como pisar no freio, andar de carro a 10km/h, viajar na melodia e valorizar mais a interpretação", opina. "O samba mexe comigo, pois quem comanda é o ritmo e a cadência, e a emoção fica por conta da euforia, da energia que recebemos e transmitimos."
Marly é da época das intérpretes acostumadas à dramatização de letras longas e melodias cheias de notas. "Tenho influências que vão de Leny Andrade a Elza Soares, passando por Alcione, mas meu timbre é da Elis Regina, por isso sempre procurei sambas gravados por ela, como ‘Madalena’ e ‘Querelas do Brasil’", diz. "Existem pessoas do ramo que dizem, por exemplo, que para cantar samba não se pode ter vibrato (efeito executado com a voz), que não se deve usar esse ou aquele recurso vocal, mas eu aposto naquilo que o gênero tem de mais essencial, em que ‘menos é mais’. O samba tem que sair do peito, passar pelas cordas vocais é mera convenção", arremata Juliana.
Se, até hoje, a veterana Marly, como ela mesmo atesta, nunca foi vítima de preconceito por ser mulher e negra, com Sandra, apesar da popularidade e de premiações como o Pandeiro de Ouro (melhor intérprete em 2008), foi bem diferente. "Cantava forró com o Angu de Caroço, e alguém, uma vez, me disse: ‘nossa, uma mulher negra cantando forró? Não deveria ser samba?’. Fingi que não ouvi para não brigar, mas nunca me esqueci do fato", lembra a cantora. "Não é muito fácil manter o respeito sendo você a única mulher de uma banda de baile ou de qualquer outra banda. Sempre rolam piadinhas preconceituosas."
No caso de Marly, foi o "peso" da idade a causa do problema. Durante sua passagem pelos vocais da Banda Fórmula Show, ela ensaiava para outro cantor assumir o microfone na hora da apresentação. O motivo? "Já aconteceu de este mesmo cantor colocar o microfone no chão para eu pegar. As pessoas acham que por ser mais velha, somos uma ameaça", observa, com indignação.
Fruto da era da comunicação digital, em que o download vem ocupando o lugar das prateleiras, Juliana Stanzani é o símbolo da geração mais nova de intérpretes, que, a exemplo de nomes como Roberta Sá, Céu, Luísa Maita, Ana Cañas, Aline Calixto e Beatriz Faria, vem quebrando tabus. "O preconceito está ficando para trás. O palco impõe certo respeito, e a resposta do público é sempre positiva", comemora a cantora, agregando ainda mais valor ao – seja novo ou velho – templo do samba.









