Em cena a arte do performer
Nada de figurinos e nem mesmo maquiagem. Somente uma arena, um público e um ator. Conjugando apenas esses três elementos, Roberto Birindelli enfrenta o desafio de, há 20 anos, levar para a cena, incorporando 22 personagens, a fina ironia do Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1997, o escritor italiano Dario Fo. "É uma pesquisa sobre a presença cênica e o poder de comunicação do performer, além do mais, Fo idealizou desta maneira", comenta o ator por telefone, na noite da última terça-feira, ao falar sobre o espetáculo "IL primo mirácolo", que será apresentado nesta sexta-feira, sábado e domingo, às 20h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. A venda antecipada de ingressos está sendo feita na portaria do CCBM, das 13h às 17h.
De acordo com a Corre Cotia Produção Cultural, que assina a produção local da peça, quem enviar o currículo, comprovando experiência na área, até amanhã para o e-mail [email protected] terá a oportunidade de participar, neste sábado, a partir das 14h, de um workshop de interpretação teatral, ministrado por Birindelli. A única exigência é assistir ao primeiro dia de apresentação.
Sátira aos valores da sociedade
Em cartaz há duas décadas, com passagens por mais de cem cidades brasileiras e países como Chile e Itália, o monólogo é uma paródia aos primeiros anos da vida de Jesus. Sem qualquer conotação religiosa, o texto estabelece, com comicidade, uma relação da infância do menino Deus, seus defeitos e virtudes, com os valores atuais da sociedade, entre eles opressão, preconceito racial, fome e exílio. Inspirada na série "Os retirantes", de Candido Portinari, a montagem faz um paralelo entre as personagens, a fuga para o Egito e a migração dos retirantes nordestinos para o Sul do país, lançando olhar sobre as várias formas de relações de poder e segregação social.
"É uma sátira sobre a sagrada família. Tirei um pouco da dinâmica dos quadros de Portinari para elaborar imagens. Não preciso que a plateia reconheça o pintor, até porque 0,1% da população sabe quem foi ele. O importante é que ela faça uma ponte com a ideia de que o mundo está repleto de pobres diabos", reflete o ator, acrescentando que o segredo para se manter o fôlego e prender a atenção do público por mais de 500 apresentações é a atualidade das questões apresentadas, além da excelência da escrita. Por onde passa, mesmo procurando ser fiel ao original, Birindelli adapta o texto de acordo com as peculiaridades de cada região. "As características sociais e econômicas são diferentes de país para país", justifica.
"Há três momentos no espetáculo. O primeiro é surpresa e estranhamento, uma situação engraçada que nos leva para o contexto da história que será contada. O segundo é de questionamento, de como é ver as coisas de ângulos que nunca tínhamos observado, é quando vemos que somos parecidos e tão engraçados quanto as personagens do espetáculo. O terceiro é o da emoção, quando descobrimos que essas figuras da história, mais do que sagradas, são humanas e, portanto, maravilhosas, como todos nós."
Natural do Uruguai, na cidade de Montevidéu, mas radicado no Brasil desde a década de 1970, Roberto Francisco Schlesinger Birindelli é formado em artes cênicas e em arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, o artista se desdobra entre as gravações da série da Rede Globo "A teia" e as filmagens dos longas "Muitos homens num só", dirigido por Mini Kerti, e "Jonas e a baleia", de Lo Politi. Seu desempenho no cinema já pode ser visto em "O tempo e o vento", de Jayme Monjardim, "Crime da Gávea", de André Warwar e Marcílio Moraes, e "Brazil Red", que leva a assinatura do canadense Sylvan Archambault. Na TV Record, atuou em "Chamas da vida" e "Poder paralelo". Já na Globo, esteve no ar nas novelas "Duas caras", "Viver a vida", "A vida da gente", "Passione" e o "Astro". Em 2006, ganhou o prêmio de melhor ator pelo curta "A oitava", da RBS TV.
No início da década de 1990, ao traduzir o texto de Dario Fo e assumir, ele próprio, a direção do espetáculo, Birindelli não idealizou qualquer recurso cenográfico. Na versão comemorativa de aniversário, o diretor Ernesto Piccolo, convidado pelo ator para estar à frente da montagem, acrescentou artifícios de luz. Piccolo é responsável por "Doidas e santas", com Cissa Guimarães, e "A história de nós 2", com Alexandre Richter e Marcelo Valle, e acumula no currículo a indicação ao Prêmio Shell de melhor direção por "Divã" e na categoria especial pelo desenvolvimento do projeto Oficinas de Criação do Espetáculo, desenvolvido no Centro de Artes Calouste Gulbenkian, com sede em Lisboa/ Portugal.
Para a crítica teatral da Revista "Isto É Gente" e membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro (AICT), Ida Vicenzia Flores, "IL primo mirácolo "se reinventou" com a nova roupagem e cumpre a missão proposta por seu autor, o que lhe garante "longa vida". "O texto é irresistível, engraçado e requer muito talento do ator. É um teatro de contato imediato com a plateia. Birindelli comenta o que está sentindo, se dirige ao público, diz, por exemplo, que já não é o mesmo de 20 anos atrás, em relação ao seu fôlego, cumpre seu papel com técnica e entrega", escreve em seu blog (idavicenzia.blogspot.com.br).
"IL PRIMO MIRÁCOLO"
Amanhã, sábado e domingo, às 20h
Centro Cultural Bernardo Mascarenhas
(Av. Getúlio Vargas 200)









