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‘Poesia não é artigo de primeira necessidade, mas todo mundo adora’


Por BRUNO CALIXTO

15/04/2012 às 06h00

Integrante do grupo seleto de tradutores de Shakespeare no Brasil, a paulista Thereza Christina Rocque iniciou sua busca por aventuras pelo mundo editorial pelas frestas da Universidade Mackenzie, onde se formou em direito. Hoje, Thereza é a proprietária da Editora Ibis Libris, no Rio, autora de 12 livros de poesia e duas publicações em que consta a tradução dos 154 sonetos deixados pelo autor inglês.

Há 12 anos morando no Rio, ela esteve em Juiz de Fora durante a Páscoa, para visitar poetas e amigos locais, e conversou com a Tribuna sobre seu ofício.

Tribuna – Poeta por opção, advogada por formação e editora e tradutora por profissão. Como a palavra entrou na sua vida?

Thereza Motta – Desde pequena, quando minha mãe lia poemas para mim. Aos 8 anos, ela leu Meus 8 anos de Casimiro de Abreu, que ele escreveu aos 8 anos. E se ele escreveu um poema aos 8 anos de idade dele, a idade que você está fazendo hoje é muito importante, disse ela. E isto me impactou. Ela gostava muito de poesia, e sempre tinha um poema para ler. Com 15 anos de idade, li Clarice Lispector – Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres – e tomei a decisão: vou ser poeta. É um livro de iniciação da mulher em sua feminilidade, e me identifiquei com isso de maneira espontânea, esse romance dela é revelador.

– Antes de Shakespeare, quais foram os autores que você traduziu?

– Comecei a traduzir romances, livros de autoajuda e tudo o que surgia no mercado para traduzir. A primeira foi para a Editora Lacerda chamado Instrumentos da noite (de Thomas Cook) um best-seller americano, um livro policial, depois fiz um segundo livro, comecei a traduzir para a Ediouro, incluindo Marley & eu, isso por volta de 2006.

– Da tradução para a publicação de livros…

– Um amigo queria musicar um soneto de Shakespeare em português e meu me pediu para traduzi-lo. Nunca gostei das traduções que lia de sonetos e sempre quis fazer, mas achava que não tinha conhecimento de Shakespeare o suficiente. Ao fazer essa tradução, gostei e parti para outras. Me dei então o trabalho de estudar para traduzir poemas e cheguei aos 44 sonetos, meu primeiro livro.

– Qual foi a maior dificuldade em traduzir os sonetos de Shakespeare?

– Escolher o caminho, porque eu não queria fazer como os outros, não queria metrificar e rimar, mas reproduzir o conteúdo. Isso era mais importante para mim, perdia o soneto, mas ganhava o poema. Não queria de forma alguma seguir escola, não sou acadêmica. Li traduções muito duras e erradas, para poder rimar colocam palavras que não são verdade. Não foi o que Shakespeare escreveu, e eu queria ser fiel a ele. E como sei inglês e sou poeta, acho que a tradução de uma poesia tem que passar por um poeta. Quando comecei a mostrar às pessoas as traduções que vinha fazendo, elas falavam que finalmente entendiam Shakespeare. Evidentemente caíram em cima de mim, por causa da minha tradução poética.

– Como foram as vendas?

– Estou na segunda edição do último já. Depois que fiz os 44, um amigo sugeriu traduzir os outros 110 que faltavam. Passei dois anos fazendo isso. E tinha um propósito, 400 anos da primeira edição (1609 – 2009).

– Com o desenvolvimento da internet, houve o aumento de traduções livres, muitas vezes anônimas. Até que ponto a web é benéfica para o mercado?

– Quando comecei a criar versões em inglês dos meus poemas, postava em blogs de poetas americanos e mandava por e-mails. Esse grupo evoluiu para outros. De tanto postar isso, passei a escrever em inglês, os poemas começaram a sair em inglês. Foi espontâneo, mas levou nove anos para meu cérebro fazer esta mudança. Aí publiquei um livro só com poemas em inglês em 2002.

– Alguma tradução em vista?

– Vou lançar em breve a tradução de um livro de poemas da Anne Morrow Lindbergh, poeta americana que faleceu em 2001. Ela era mulher do aviador Charles Lindbergh, que atravessou o Atlântico em 1927. E ela escreveu um único livro de poesia, era uma autora muito querida nos EUA. Ela teve Alzheimer no final da vida e já não tinha mais lembrança nenhuma.

– Sobre sua experiência como editora, que veio na faculdade, como foi o primeiro contato com o poeta juiz-forano Fernando Fiorese?

– Comecei na década de 80 a publicar os livros do grupo de poetas que estudavam na Mackenzie, era editora do jornal Análise do DCE. A partir daí, fundei um grupo de poetas (ECO), e já fazíamos antologias. Promovemos três concursos nacionais de poesia, entrando em contato com todos os poetas do país, e um desses poetas foi Fernando Fábio Fiorese Furtado. Ele ganhou o concurso em 1982 entre mais de 600 participantes e três poemas de cada um, portanto 1.800. Ele ficou em primeiro lugar. Mantivemos contato por cartas, e só fui conhecê-lo pessoalmente anos depois, quando lançou um livro no Rio.

– Mantém ligação com Juiz de Fora?

– A última vez que estive aqui foi há dez anos, quando vim para rever o Fiorese e conhece Iacyr (Anderson Freitas) e Edmilson (de Almeida Pereira). E, recentemente, Gustavo Goulart, poeta que já publicou dois livros e está no próximo. Assim que ele terminar de escrever, vamos publicar. O Gustavo tem a capacidade de produzir mais com menos, e isso me chamou a atenção. Como é que uma pessoa consegue escrever de maneira sintética e completa? Um poema não precisa ser longo para ser bom, e curto demais não dá para entender. Tem que ter essa habilidade. Só o poeta consegue escrever tudo em poucos versos.

– Como define a poesia produzida por aqui?

– Conheço menos a poesia do Edmilson e do Iacyr, mas tenho os livros. O Iacyr é uma pessoa que me fala diretamente, o Fernando é uma pessoa que tem um trabalho que gosto demais. São poetas que sempre tenho como referência, como agora quando decidi vir a Juiz de Fora para visitar poetas.

– Qual a relação da poesia com o amor?

– O amor é o que faz o poema. Você só escreve o poema porque está em estado de amor. Ou porque busca o amor ou acha que encontrou. Realmente, minha temática são poemas inclinados a um ser amado. Consegui montar uma peça de teatro, em que há um diálogo amoroso e poético entre um casal que discute a sedução. Toda a construção parece um diálogo, mas é um poema.

– Por que escreveu Os dez mandamentos do livro?

– Faço livros há 30 anos. A minha editora tem 12, mas no trabalho da editora enfrento vários percalços. O ofício de fazer livros demanda dedicação, principalmente os livros que publico, que são de poetas de primeira viagem. Então resolvi escrever dicas editoriais, contando como é lidar com esses autores, porque todos eles têm os mesmos medos, as mesmas dificuldades. Além de lidar com isso de maneira lúdica, resolvi escrever os mandamentos para orientar sobre o que é importante o autor saber antes de publicar seu primeiro livro. Acontece muito de um escritor querer a atenção exclusiva do editor, e aí eu digo para ele querido, para você pode ser só este livro, para mim existem dez. Nenhum é menos importante, mas são todos filhos. E isso o autor não entende, e a falta de atenção que o autor imagina que o editor deu a ele é motivo de muitas brigas.

– E quais são os mandamentos do editor?

– É fácil errar. Você manda tudo direitinho para a gráfica, eles conseguem fazer as coisas mais mirabolantes. Cada susto. Até escolher a gráfica certa, acertar a diagramação… é uma briga. São percalços que o autor vai passando mesmo. Enquanto você tiver querendo trocar palavra, o livro não está pronto. O livro não é qualquer coisa, mas um ser. Um ser que tem suas próprias vontades. Você, autor, é intermediário, não é o dono do livro, porque ele é imortal e você não. E como vai guardar a sua palavra não pode ter erro. E se está atrasando é porque ainda tem erro. Seja um feriado ou qualquer imprevisto, é o livro falando. O curioso é que os editores não contam o que acontece com eles, por isso criei também os dez mandamentos do editor. A primeira regra é não acredite em tudo o que o autor diz.

– Qual é sua opinião sobre crítica literária feita atualmente no Brasil?

– A pseudocrítica. Não existe mais a crítica, como há muitos anos. Hoje é muito de panela. A gente sente que tem divisões de pessoas, e isso é antiprofissional. O livro merece crítica, independentemente se você gosta ou não do autor.

– Você se sente bem-sucedida?

– Eu como pelas beiradas. Vendo aquilo que quase ninguém quer publicar e muito menos ainda quer consumir. Poesia não é artigo de primeira necessidade, mas todo mundo adora. Já me perguntaram se eu era doida por publicar poesia, mas existe um mercado que é underground, porque ninguém fala que sai para comprar livro de poesia. Como vendo poesia há 30 anos, sei que vende, só que não vende milhões de uma vez só. É sempre aos poucos, mas constante. Foi assim que esgotei três edições do meu livro de poesias. E três edições para um livro de poesias é muito. De mil exemplares de Areal, só haviam três, um num sebo em Juiz de Fora. Comprei todos.

– E quanto à Ibis Libris, quais são as próximas apostas?

– Estou com um livro da Astrid Cabral, uma poeta com bastante tempo de experiência. Tem outros títulos sobre cultura, que abrange artes, como música, teatro, inclusive estamos prestes a editar o livro dos 70 anos de Caetano, que é um mestrado que vai ser publicado. Mesmo sem verba vamos fazer, porque não vou perder a chance.