Ouça agora

Alicerce no presente


Por MAURO MORAIS

08/08/2013 às 07h00

Jandira Martins, a Doca, uma avó – "uma dessas muitas avós analfabetas que o Brasil tem" – dizia à Alexandre Faria, em momentos festivos ou tristes: "é o que tem pra hoje!". A tal certeza de que o amanhã é sempre um outro dia não saiu das lembranças do professor da Faculdade de Letras da UFJF e poeta. Em "Venta não", que será lançado hoje, às 19h, no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), Faria se arma com o presente encarando o cotidiano. "O livro faz constatações de quem não tem muita perspectiva, de quem tem muito do presente", explica o autor, que dedicou a obra à Jandira e em um dos poemas reverencia sua sensatez: "sabedoria / a vó analfabeta // o resto / erudição e velhice".

Influenciado por Heráclito, filósofo pré-socrático, e pelo "Tao Te Ching", obra referencial da literatura chinesa, com autoria atribuída a Lao Tsé, Faria recria em seus versos um lugar de reflexão e desconforto. Divididos em duas partes – "tudo muito sempre" e "o pai era um" -, os 90 poemas não resvalam em revolta desmedida, mas na sutileza das inquietações silenciadas. "Pessimismo é pensar no paraíso, acreditar que seremos muito mais felizes depois", sugere o poeta. "A vida é muito pouco. É quase nada. Mas é o que temos", completa.

Segundo o escritor, natural do Rio de Janeiro e autor de "Lágrima palhaça" (Aquela Editora), de 2012; "Literatura de subtração" (PapelVirtual), de 1999; "Anacrônicas" (7Letras), de 2005, fatos e situações de seu dia a dia lhe serviram como ponto de partida. "Minha intenção era problematizar a nossa época e o meu cotidiano, com o olhar moldado por esse tipo de percepção", comenta, referindo-se ao "Tao Te Ching". Dessa forma, tanto o ambiente intelectual no qual Faria está inserido, quanto a rotina da comunidade de Manguinhos, onde organizou um sarau e uma oficina, estão presentes no desconforto do poeta. "Minhas inquietações são com o mundo e com a maneira como os discursos se constroem de forma definitiva baseados em invenções e preconceitos", explica.

 

 

 

Camadas de humano

Logo na capa de "Venta não", publicado com recursos da Lei Murilo Mendes em parceria com a editora TextoTerritório, da qual Alexandre Faria é um dos fundadores, cenas da desocupação do Complexo de Manguinhos, que visa reurbanizar a área em projeto do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC. Uma casa em frangalhos, uma laje com buracos e uma escada sem destino povoam a montagem feita por Pedro Paiva a partir de fotografias do autor. Com olhares atentos, Faria observava, ali, o processo de modernização cuja imposição maior é desconfigurar a camada humana e afetiva daquele espaço. "Há sempre um desarranjo do ser humano com o mundo, e isso vem de uma indagação e da tentativa de criar respostas", aponta, certo de que seu discurso não se volta contra o que se entende por governo, mas a uma política própria da convivência.

E, além de contribuir com sua voz, Faria sugere outro desalinho. Na primeira parte, 81 poemas curtos estão agrupados sutilmente em temas próximos. Já na segunda, a sugestão é de que a leitura se inicie pelo fim e vá ao encontro da primeira seção. "Meu movimento maior era que o livro convergisse para o centro, que não terminasse na última página", explica, para logo completar: "Isso tem a ver com a maneira como eu penso um livro. Ele não deve ser só um suporte, mas a extensão do texto". Sendo assim, a ventania de reflexões que o poeta lança não espera calmaria.

 

"VENTA NÃO"

 

Lançamento do livro de Alexandre Faria

 

Hoje, às 19h

 

Museu de Arte Murilo Mendes

(Rua Benjamim Constant 790)