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Novas tecnologias mudam hábito de assistir TV


Por MÁRCIO CORINO

30/10/2012 às 07h00

Aquele velho hábito de entrar em casa, ligar a TV e sentar-se confortavelmente no sofá para assistir ao seu programa favorito já divide espaço com outras formas de ver televisão. Os modelos antigos, com tubo de neon e tela pequena, deram lugar às modernas TVs de plasma, LCD ou LED, que agora cedem seu espaço para computadores pessoais e aparelhos celulares com transmissão digital, proporcionando ao consumidor versatilidade e portabilidade. A tecnologia de terceira geração dos aparelhos celulares permitiu que a rede de telefonia móvel sofresse mudanças drásticas. Com o lançamento da TV digital, muitos celulares 3G já estão prontos para se conectar a partir de qualquer sinal digital proveniente de emissoras de TV cujas transmissões atinjam essa qualidade.

Segundo levantamento feito pela Accenture Consultoria, divulgado recentemente pela revista "Valor econômico", assistir a vídeos pela web já é um hábito para 77% dos internautas dos sete países pesquisados (Estados Unidos, Reino Unido, Brasil, Itália, Espanha, Alemanha e Austrália).

A pesquisa, que ouviu 6,5 mil internautas, chama a atenção para a formação de um novo público, cada vez mais receptivo às inovações tecnológicas que multiplicam e diversificam formatos e dimensões da tela de TV. O levantamento revela que 35% dos entrevistados assistem a mais vídeos pelo laptop que pela TV, e 23% confirmaram o acesso através de telefones móveis. "Atualmente, minha TV só é usada para assistir a corridas de Fórmula 1 e filmes em blu-ray, mas isso também é temporário, pois quando tivermos uma banda larga decente, 100% do conteúdo virá via internet. Posso estar me adiantando, mas um dia a TV vai acabar, assim como a máquina de escrever, ou então terá de se reinventar, como ocorreu com a fotografia diante do avanço da tecnologia digital", opina o fotógrafo João Schubert.

Mas as redes de televisão não parecem dispostas a abrir mão de nenhuma fatia do público consumidor. Para concorrer com a rapidez e a praticidade dos novos meios, essas empresas vêm buscando maneiras de fidelizar a audiência.

A rede ABC, popular nos Estados Unidos exibindo séries de enorme audiência como "Lost" e "Grey’s anatomy", oferece episódios completos diretamente de seu site oficial. Duas das maiores distribuidoras de TV a cabo americanas, a Time Warner e a Comcast, investem suas fichas no modelo "TV anywhere", que permite total acesso à programação completa de diversos canais que estejam incluídos em seus pacotes. Entretanto, essa facilidade só é permitida aos assinantes do serviço doméstico.

Essas estratégias das emissoras, principalmente as que oferecem conteúdo pago, são resultado do impacto que as conexões de internet de alta velocidade provocaram na audiência. Muitos consumidores estão abandonando o hábito de assistir aos programas no horário em que são transmitidos graças à possibilidade de baixá-los ou assistí-los on-line em um momento posterior e de forma totalmente gratuita. "A vantagem é poder assistir o que quero na hora que puder. O dia a dia é muito corrido, e infelizmente não dá para sentar e ver determinado programa no exato momento em que é exibdo. Então, se eu tenho a opção de assistir depois, não vou abrir mão desse conforto", afirma a jornalista Nathalia Alves, fã de séries estrangeiras.

A série "Lost", fenômeno de audiência na recente história da TV paga, é um bom exemplo dessa mudança de comportamento do telespectador. Em sua primeira temporada, cada episódio era visto por, aproximadamente, 18 milhões de pessoas. Entretanto, o capítulo de estreia da sexta temporada, cinco anos depois, apresentou uma queda considerável no número de telespectadores, conquistando audiência de 11,4 milhões de pessoas. O curioso é que isso não significa, necessariamente, que menos pessoas tenham assistido à produção, uma vez que os números de downloads da atração cresceu consideravelmente.

Nesse novo cenário de convergência de mídias, os ganhos trazidos por essas novas plataformas dizem respeito à possibilidade do usuário montar sua própria programação e à facilidade de acesso a informações que, até então, estavam restritas a determinados grupos. Além disso, destaca-se que, em uma sociedade marcada pelos constantes deslocamentos e pela necessidade de estar sempre "conectado", o fácil e constante acesso às informações torna-se uma condição do mundo moderno. "Cada vez mais, há um cenário de ampliação dos fluxos urbanos e de aceleração, inclusive do consumo midiático. Parece que, no cotidiano, o mais frequente é a condição de estar em movimento, mas mantendo-se conectado e em rede com os outros.

Assim, em uma sociedade marcada pela mobilidade, hábitos como assistir TV ou conteúdo audiovisual também precisam de diferentes suportes, que permitem ao púbico manter-se sempre em fluxo. Em um ambiente multiplataforma, as mensagens precisam ir, como o artista, onde o povo (público) está", afirma Iluska Coutinho, professora da Faculdade de Comunicação Social da UFJF.