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A mulher na multidão


Por MAURO MORAIS

29/03/2013 às 07h00

Ela não está na Bíblia, e sua biografia é desconhecida. Ainda assim, tornou-se santa e protagonista da sexta estação da via sacra. A mulher das lamentações, que no decorrer da procissão do Enterro entoa cânticos de dor e sofrimento, é dona de um véu que, em tempos medievais, a Igreja aceitava como imagem real de Jesus. Símbolo de humildade e compaixão, Verônica enxugou o sangue e o suor que escorriam do rosto de Cristo enquanto ele carregava a pesada cruz. Presente em diversas encenações ao redor da cidade, a personagem exige esforços vocais conjugados a viscerais interpretações. Esse é um solo de mezzo soprano. A pessoa tem que viver esse papel, explica Paulo Moreira, responsável pela regência do coral da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Bairro Monte Castelo.

Criada entre os séculos XII e XIII, época de São Francisco de Assis, quando passagens bíblicas eram encenadas a fim de popularizar o livro sagrado entre aqueles que não sabiam ler, a procissão do Enterro surgiu no Bispado de Braga, em Portugal. Difundida pelas colônias portuguesas, a celebração se tornou uma das mais importantes da Semana Santa, conjugando teatro e música numa mesma cerimônia religiosa. Representando a passagem mais dolorosa da vida de Jesus, a procissão retrata toda a via sacra, dividida em 14 estações, desde a condenação até o enterro de Cristo.

Após Simão de Cirineu ajudar Jesus a carregar a cruz, Verônica desponta em meio à multidão e enxuga o rosto dele com o próprio véu, que, segundo a tradição, milagrosamente se manchou com a perfeita imagem do homem. De acordo com o teólogo biblista, professor do Seminário Santo Antônio e do CES/JF, Altamir Andrade, consta no quinto capítulo do Evangelho de Mateus uma mulher, sem nome, curada de uma hemorragia após tocar nas vestes de Jesus. Presente no texto dos Atos de Pilatos – apócrifos do Novo Testamento (palavras que ficaram de fora da Bíblia) -, a mesma mulher, já nomeada de Verônica, dá indícios de uma retribuição da cura ao utilizar seu véu.

De acordo com Andrade, é bastante comum a ausência de nomes e outros detalhes nos textos bíblicos. Um dos exemplos são os três reis magos, que não são denominados nem quantificados na história oficial. Habitual durante a Idade Média, a leitura dos textos apócrifos colaborava para a compreensão de determinadas passagens, como a de Verônica. Existe toda uma tradição paralela que resgata essa personagem, nomeando-a, comenta Andrade, ao citar a inserção dela em A divina comédia, de Dante Alighieri.

Sob as marcas da dor

Entoado durante o cortejo fúnebre, o cântico de Verônica advém do 12º versículo do primeiro capítulo das lamentações de Jeremias. Em latim O vos omnes carrega os versos Ó vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há dor igual à minha dor. Conforme aponta o artigo A procissão do Enterro de Sexta-feira Santa, do pesquisador da Unesp Paulo Castagna, a composição sonora do canto foi feita pelo frade lisboeta da ordem militar de São Tiago Henrique Carlos Corrêa, entre os séculos XVII e XVIII.

Para Altamir Andrade, a identificação criada por Verônica nas pessoas se deve ao alto grau de sofrimento da personagem. De um modo geral, as pessoas identificam a Semana Santa muito mais com a Sexta-feira da Paixão que com a ressurreição, pontua, acrescentando que é no sábado, na Vigília Pascal, que ocorre o momento de maior trabalho para os católicos. No imaginário popular, Verônica construiu um lugar paralelo ao de Maria, que é eminentemente bíblico, destaca.

O simbolismo de uma mulher exaltando a face sofrida de Jesus deve repercutir, segundo monsenhor Falabella, como um movimento de extrema compaixão. Sempre interpreto assim: devemos enxugar o rosto dos sofredores, dos pobres, dos desvalidos e dos marginalizados, explica. Talvez esta representação seja ainda muito necessária num mundo tão individualista em que as pessoas pouco se importam com o sofrimento alheio, acrescenta Robson Ribeiro, coordenador do grupo Semana Santa da Paróquia de Santa Luzia.

Juntas numa só

Entre idas e vindas, a empresária Isabela Tostes, 49 anos, interpreta Verônica há quase 20 anos, na encenação da Paróquia de São Mateus. Organista do coral da igreja, Isabela já se acostumou com a personagem, mas ano a ano atenta para novas formas de apresentá-la ao público. Marcante no imaginário da comunidade, ela entoa os cânticos, agora em português, seguindo uma versão da cantora paulista Maria do Rosário, durante o percurso fúnebre e do alto da escadaria do templo, sempre vestida em túnica preta.

No outro lado da cidade, no Bairro Nova Era, a auxiliar de pessoal Gisele Garcia, 31 anos, se prepara para estrear no papel. Segundo ela, a encenação é um dos momentos mais esperados na comunidade. Ela ensaiou em todas as terças e sábados, durante o último mês. Não tinha noção da importância do canto da Verônica. Para mim está sendo maravilhoso, emociona-se. Sentimento semelhante vive a estudante Hildebranda de Lima e Silva, 18 anos, que se diz extremamente tocada pela personagem. A Verônica é um sinal de dor e, ao mesmo tempo, a lembrança de que tudo não foi em vão, comenta.

Desde 2010 no papel, a dona de casa Márcia Ferreira e Silva, 50 anos, diz ter ficado bastante apreensiva quando atuou pela primeira vez na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, do Monte Castelo. Com uma veste longa e negra que deixa à mostra apenas o rosto, Márcia canta em latim e, por conta do coral que integra, prepara a voz às terças e quintas-feiras. A Verônica tinha uma misericórdia muito grande. Um amor incondicional, comove-se.

Imagina uma pessoa que fura aquela multidão toda e enxuga o rosto de Jesus, sugere monsenhor Falabella, na certeza de que o ato de enfrentamento é a maior lição da mulher. Ela representa todos aqueles que desejam o bem, resume. É o sofrimento estampado. Ela nos faz lembrar de ter compaixão, acrescenta Altamir Andrade. Talvez, mais instigante e interessante do que a presença da enevoada personagem Verônica entre as pessoas que viam o sacrifício de Jesus, é a sua permanência na multidão, passados séculos e séculos, como se apenas seu canto, mais que sua história, bastasse.