Quatro grupos encenam a Paixão de Cristo amanhã
A Semana Santa é marcada também pelo teatro. Esta foi a forma que grupos da cidade encontraram para retratar tanto a devoção católica quanto o amor pela arte. Buscando novos olhares e sempre dando um tom diferente do usado no ano anterior, os grupos mostram como contar, de diversas formas, a mesma e conhecida história.
Durante 40 anos – com interrupção de oito (1992-2000) -, o Evangeliarte, grupo de jovens da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no Bairro Linhares, promove sua celebração artística na Sexta-feira da Paixão. Tradicionalmente executado em montanhas da região, o espetáculo conta com cerca de 30 pessoas (de 9 a 60 anos) no elenco, divididas em mais de 50 papéis. A peça é dublada, e o áudio, gravado em MD, é executado de um carro de som instalado próximo ao público, que, de pé, participa da encenação. "Como o visual precisa estar em sintonia com o som, é preciso um trabalho de corpo apurado", destaca a dona de casa Marilene Fernandes, diretora da montagem, que, em cerca de uma hora e meia, narra desde a agonia de Cristo no Horto das Oliveiras à Ressurreição.
No grupo desde os 18 anos, Marilene, hoje com 58, é uma das remanescentes do núcleo cultural ligado à igreja do bairro. "Além da questão da fé, visualizamos o poder da arte como possível catalisador de transformação da realidade de alguns dos moradores da comunidade. Buscamos aprimorar sempre, assistindo a espetáculos de teatro em cartaz na cidade ao longo do ano, sobretudo o trabalho do Grupo Divulgação, dirigido por José Luiz Ribeiro, que nos prestigiou com parte do seu elenco, na plateia, em 2005", comenta a dona de casa, convidando todos para a peça, que acontece amanhã, a partir das 19h30, no Caic Linhares.
História musicada
Também focado no trabalho social, o grupo Jovens Unidos descobrindo o Amor de Cristo (Judac) conta a Paixão de Cristo por meio de um musical pela sexta vez consecutiva. No repertório, não apenas músicas sacras, mas uma mistura de canções católicas, evangélicas, clássicas e até hip-hop, apresentadas ao vivo. "Atuamos com jovens em situação de risco, nossa proposta é fazer um trabalho cultural e social. Para isso contamos com o apoio da comunidade e dos comerciantes da região. Queremos transpor a questão religiosa", explica a diretora do grupo Bárbara Simões.
Este ano, o tema será "Jesus, o filho do céu", e a busca é por um Jesus de caráter mais humano, mostrando um personagem preocupado com as questões de seu tempo e com os problemas da humanidade. O texto foi construído a partir de dois personagens do Evangelho, Lázaro e sua irmã Maria de Betânia. Mais de cem pessoas – entre equipes de dança, produção, elenco, figurino, recepção, banda, coral e maquiagem – estão envolvidas no espetáculo. Outras duas mil são esperadas para a apresentação gratuita amanhã, a partir das 19h, na Estação São Pedro.
Como a história não muda, a opção encontrada pelo grupo Semana Santa, da Paróquia de Santa Luzia, é procurar outras formas e visões de diferentes personagens no enredo. Com mais de 30 anos de atuação, o grupo conta a história este ano sob a ótica de Pôncio Pilatos e sua esposa Cláudia Prócula. Para obter este ponto de vista, o grupo fez um trabalho de pesquisa baseado não apenas nos quatro evangelhos, mas também em livros como "O evangelho segundo Jesus Cristo", de José Saramago, e "A esposa de Pilatos – A dama do Império Romano que tentou salvar Jesus", de Antoniette May.
"Nossa intenção foi construir um texto com uma angulação diferente e dar mais riqueza a personagens não muito usados, como a esposa de Pilatos, que nas montagens tradicionais não tem mais do que uma fala", pontua um dos colaboradores do grupo, Renato Costa. A tradicional apresentação começa hoje, às 22h, na Igreja Matriz de Santa Luzia, com a prisão de Cristo. Na Sexta-feira da Paixão, às 20h, na Rua Almiro Ribeiro Furtado, a peça mostra o julgamento, a condenação e a morte. E no Sábado de Aleluia, às 22h, na matriz, o grupo encena o momento da ressurreição.
Já o grupo Redentorarte, com 12 anos de tradição, focará sua apresentação amanhã, a partir das 20h, na Igreja da Glória (Avenida dos Andradas 855 – Morro da Glória), na morte de Cristo. A opção, segundo a coordenadora do grupo, Marilene Loures, é para não tornar a encenação longa nem cansativa para o público. Esta será a segunda apresentação do grupo nesta semana. Ontem eles apresentaram a Via Sacra na Praça Agassis. Esta foi a primeira vez que o grupo, que conta com cerca de 30 pessoas, se apresentou ao ar livre.
O espetáculo começa a partir do flagelo de Jesus, nos fundos da igreja, e termina com o descendimento da cruz dentro do templo. "A cada ano é uma emoção diferente e uma experiência nova com o público. Esperamos que as pessoas possam entender mais o significado do gesto de Cristo", diz. Para aperfeiçoar a apresentação, os integrantes aprimoram os detalhes durante o ano, e todos participam da confecção de roupas e cenografia. "Fazemos cursos de maquiagem para trazer algo diferente e mais perfeito", comenta Marilene.









