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Além das paisagens


Por RENATA DELAGE

05/03/2013 às 07h00

As reproduções que estampam as páginas de "João Batista da Costa – 120 pinturas selecionadas" poderiam compor o catálogo de uma exposição – que nunca existiu e que dificilmente existirá. A coletânea, recentemente lançada pelo médico, colecionador e amante de arte Roberto Hugo da Costa Lins, faz as vezes de álbum de um dos maiores pintores do início do século XX, cuja obra permanece, entretanto, desconhecida para o grande público. Entre as pinturas selecionadas para contar a história de Batista da Costa (1865-1926), encontradas nos principais museus do país, – como Museu Nacional de Belas Artes, Museu Histórico Nacional, Museu de Arte de São Paulo, Pinacoteca, Museu Imperial de Petrópolis -, além de coleções particulares, estão quatro obras abrigadas pelo Museu Mariano Procópio.

"O Museu Mariano Procópio possui um acervo de Batista da Costa que não é encontrado em nenhum outro lugar", atesta Lins, diretor do setor de cardiologia da Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro. "Não sou um especialista, sou um admirador", garante o autor da obra, publicada de maneira independente e que figura como a mais abrangente do pintor. A cuidadosa seleção proposta por Lins contou com o auxílio de especialistas e pesquisadores, levando em conta a importância histórica, o ineditismo, a temática e a conservação das peças.

Para Marcus Tadeu Daniel Ribeiro, do Comitê Brasileiro de Histórias da Arte e autor do prefácio, um álbum não só cria um espaço de exposição de obras raramente vistas, como também "convida o observador a olhar cada uma dessas obras sob uma nova perspectiva". "Porque um quadro, visto isoladamente, tem um valor que sempre se transforma quando submetido a um contexto pictórico coletivo que lhe confira sentido", avalia.

Entre as contribuições da seleção estão, segundo Lins, as diferentes facetas de Batista da Costa reveladas a partir do contato com um grande número de peças que compõem o conjunto de sua obra. "Ele sempre foi aclamado como paisagista, retratando sobretudo a Região Serrana do Rio de Janeiro e também São Paulo e Minas Gerais, mas agora podemos analisar seu trabalho como retratista. Os nus pintados por ele também aparecem como novidades neste contexto", diz. A pesquisa, que se desenrolou por mais de três anos, também levou à importante correção de datas e lugares indicados anteriormente em algumas das obras.

Ao longo do estudo, descobriram-se ainda, de acordo com Ribeiro, perdas dolorosas de trabalhos relevantes do pintor. "Não foram apenas aquelas de paradeiro desconhecido por terem sido desviadas de acervos. Há também a ação delinquente e impune de falsos restauradores, que se aventuram por um delicado universo de cores, luzes e texturas que a dureza e obtusidade plásticas de seus pincéis jamais compreenderiam", repudia.

Neste contexto, é preciso levar em conta outro aspecto referente à restauração, conforme lembra a historiadora e professora de história da arte da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Sônia Gomes Pereira. "Embora muita coisa seja feita de maneira irresponsável, vale lembrar que mesmo os bons restauradores usaram os meios que estavam disponíveis na época. Olhando hoje, dizemos que certas técnicas não deveriam ter sido utilizadas, mas, se pensarmos num contexto de 50 anos atrás, era o melhor que se podia fazer", sugere.

 

As quatro pinturas a óleo pertencentes ao acervo do Museu Mariano Procópio reproduzidas no álbum de Roberto Hugo Lins são "Mulher pintando no jardim", "Três estudos para decoração parietal", "Estudo para o painel decorativo ‘Ciclo do gado’" (Sede do Museu Paulista) e "Nu feminino". Embora seja impossível comprovar mediante fontes documentais, é bastante provável que, no primeiro quadro citado, pintado por volta de 1912, esteja retratada a segunda esposa de Batista da Costa, Noemi Gonçalves Cruz da Costa, posando no jardim da casa da família em Petrópolis.

"Embora o pintor seja um paisagista por excelência, era fundamental à formação acadêmica utilizar modelos vivos. Mesmo já maduros, os artistas praticavam exercícios no intuito de se aprofundar na arte de dominar o corpo humano, o que não se exige mais", explica Sônia. Já o estudo de nu, "Nu feminino", executado de maneira minuciosa, foi aproveitado, como indica o autor, para a figura central na pintura inacabada "Banhistas", pertencente a uma coleção particular do Rio de Janeiro.

"É surpreendente como as gerações mais novas conhecem pouco dos pintores desse período, preferindo artistas mais jovens", surpreende-se Lins, apontando o enorme impacto despertado pela Semana de Arte Moderna de 1922 e a consequente visibilidade e predileção de pesquisadores quanto aos artistas brasileiros da época. "O século XIX foi de extrema importância para as artes no país. Primeiramente, pela chegada do alemão Georg Grimm com as novas ideias da Europa e, em seguida, sua ruptura com a linha da Academia Imperial de Belas Artes", levanta. "Outro aspecto importante era a premiação em viagens, conferida por Dom Pedro II, um amante das artes, a pintores da época, que puderam se aprimorar no exterior. Batista da Costa foi um deles. Embora meio esquecido nos dias de hoje, foi na ocasião um dos mais famosos e preferidos pintores na sociedade."

O acervo do Mapro possui ainda outras três pinturas do artista, além de dois desenhos, 31 peças em gesso (incluindo moldes) e objetos pessoais – um cavalete de madeira, quatro peças de mobiliário, uma compoteira de cristal e um medalhão. "A visita ao Mariano Procópio já valeria pela beleza do prédio, mas se levarmos em conta seu acervo, vemos que é realmente muito valioso. É uma pena que um museu com esse esteja fechado a visitações", conclui Lins.