Dicção das montanhas
Perguntada sobre seu interesse pelo show business, Maísa Moura diz, em sotaque cantado, tipicamente belo-horizontino: Não sei se é minha praia não. Logo em seguida, mais firme, sem perder o sorriso, conclui: Não, não é. Na verdade, o negócio de Maísa, dona de um timbre suave e de letras intensas, são as montanhas. O interesse dela é permanecer no estado rodeado de Brasil. Faço poucos shows, em pequenos espaços, onde a comunicação com o público pode ser feita diretamente, comenta a cantora, quase poeta, que se apresenta esta noite, às 20h, no Museu de Arte Murilo Mendes.
Acompanhada pelo cantor, instrumentista, produtor cultural e, principalmente, compositor Makely Ka, Maísa também recebe o músico local Fred Fonseca no novo show Transeunte, que resgata canções do disco Danaide (em parceria com Ka), de 2006, e outras inéditas. No repertório, além de Moira (Makely Ka) – que deu título ao CD solo da cantora, lançado em 2009 -, estão O chamador (Makely Ka) – gravado em 2003 para o disco A outra cidade, com a nova geração de BH – e o dramático tango Cantango, que carrega versos como Não há nada melhor, ou tão, que cantar para aliviar a tensão.
Expoente de uma geração prolífica de Belo Horizonte – que inclui nomes como Alda Rezende, Titane, Elisa Pinheiro, Kristoff Silva, Dudu Nicácio, Angela Evans, Aline Calixto, entre muitos outros -, Maísa Moura encontrou Makely quando terminava a faculdade. Deu na telha que eu queria cantar. Comecei timidamente, e aí nos encontramos. Nosso universo de pensamento bateu muito. Ele tinha músicas que claramente eram para eu cantar, recorda ela, que aguarda, ansiosamente, o resultado do edital municipal de incentivo às artes em BH para lançar seu segundo disco solo.
O espaço é muito difícil para a música inédita, mas ao mesmo tempo tem muita gente fazendo música boa por aqui, comenta. Destacada em meio às muitas vozes femininas que surgem no cenário nacional experimentando efeitos e testando a própria arte, Maísa se preserva num espaço em que as palavras valem mais. Não sou dessas cantoras que gostam de improvisar. Gosto de cantar o que a canção pede. Escolho meu repertório muito a dedo. Meu barato é o casamento perfeito entre letra e melodia, explica.
Dona de uma trajetória repleta de delicadezas, a cantora revela um clima intimista nas canções que põe a mão (ou seria a voz?), confirmando ser a música, também, um artesanato de sutilezas. Prefiro pensar que meu trabalho não é tão planejado, responde com uma voz calma em meio ao caos da capital mineira, dizendo-se mais adepta da feitura intuitiva. Dessa forma, Maísa parece confirmar o refrão de Cantango: Quem nasce em berreiro é voz por inteiro, o canto é primeiro, não há paradeiro.
MAÍSA MOURA
Hoje, às 20h
Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant 790)









