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Legado feminino


Por LEONARDO TOLEDO

18/09/2011 às 07h00

O costume da época as condenava a viver sob a sombra masculina, mas isso não significa que elas tenham se conformado com o ostracismo. Mesmo em condições adversas, mulheres como a colecionadora Amélia Machado Cavalcanti (Viscondessa de Cavalcanti), a musicista Alice Lage, as pintoras Maria Pardos e Maria Amália Ferreira Lage e a professora Geralda Armond souberam fazer a diferença em seus respectivos tempos. Além da inclinação para a cultura, todas tiveram em comum a ligação com o Museu Mariano Procópio, seja na formação do acervo ou na participação em episódios que antecederam a criação da entidade. Essas cinco personagens terão seu legado reconhecido em uma mostra aberta nesta terça e no seminário "Mulheres no Museu Mariano Procópio", que começa na sexta, como parte da programação da 5ª Primavera de Museus. "Apesar de essas mulheres terem sido apagadas das páginas da história, elas tiveram uma influência maior do que ficou registrado", constata o superintendente da Fundação Museu Mariano Procópio (Mapro), Douglas Fasolato.

Durante dois dias, especialistas discutirão o papel dessas e de outras figuras femininas no museu, colocando em destaque suas contribuições para o acervo da instituição e seu papel na família Ferreira Lage. No sábado, o parque abre espaço para a oficina temática "Pincelando as memórias do museu". Fechando a programação, no dia 25, haverá uma edição especial do projeto Música no Parque com o grupo Lúdica Música.

A seleção de mulheres homenageadas reserva biografias surpreendentes, como a de Amélia Machado Cavalcanti, conhecida simplesmente como Viscondessa de Cavalcanti. Prima de Alfredo Ferreira Lage, o fundador do museu, foi dona de uma das principais coleções que hoje integra o acervo do museu. A instituição deve a ela, por exemplo, o álbum e outros itens da Exposição Universal de 1889, em Paris, que atrai o interesse de pesquisadores estrangeiros. Pertenceu a ela também a publicação mais antiga do museu, um volume de 1582.

Considerada a mãe da numismática no país, legou à instituição uma importante coleção de medalhas e moedas. O superintendente da Mapro, entretanto, vai além. Ele acredita que a vocação da viscondessa para o colecionismo tenha inspirado seu primo Alfredo. "Ela tem todas as qualidades para ser alçada à condição de grande colecionadora do século XIX."

Amélia morou na Alemanha, onde foi educada. A estadia em Hamburgo, aliás, pode ter resultado em fatos determinantes na história do município. Há a hipótese de que seu pai, Constantino Machado Coelho, pode ter influenciado seu cunhado, Mariano Procópio, na contratação de mão-de-obra alemã para a construção da Estrada União e Indústria.

Nascida no Rio de Janeiro, passou várias temporadas em Juiz de Fora. Em uma das estadias mais longas, na década de 1870, ocupou a Villa Ferreira Lage, enquanto a família passava temporada na Europa.

Um de seus principais legados dá pistas de seu requintado círculo social. Por mais de 50 anos, a viscondessa colecionou assinaturas em seu leque. O objeto reúne dedicatórias de Dom Pedro II, Machado de Assis, do romancista francês Alexandre Dumas Filho e do presidente Getúlio Vargas.

Integrante da aristocracia, amante das artes e considerada uma das mais belas damas da Corte, a carioca Amélia Machado Cavalcanti era casada com Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque. O casal colecionava obras de arte e convivia com o meio intelectual, abrindo semanalmente as portas de suas residências, no Rio de Janeiro e em Paris, para animados encontros.

Piano e cavalete

A contribuição dessas mulheres também ficará acessível aos visitantes do parque do museu, por meio de cinco painéis expostos no local, que trazem um resumo biográfico, imagens e exemplos do legado deixado por essas personagens. "É uma forma de promover um diálogo do público com o acervo não exposto", comenta Douglas.

Esposa de Mariano Procópio, Maria Amália Ferreira Lage também integra a lista de homenageadas. Colecionadora e pianista, pintava tela e porcelana, técnicas que foram aprimoradas na Europa, durante sua estadia no Velho Mundo com a família. Assumiu os negócios e a educação dos filhos depois da morte de Mariano, em 1872.

Alice Lage também conheceu o peso de comandar uma família sozinha, mas em condições menos favoráveis. Ao ficar viúva de Frederico Ferreira Lage, irmão do fundador do museu, foi obrigada a se desfazer de bens – como o palacete e o terreno que hoje pertencem à 4ª Brigada de Infantaria Motorizada – e a transformar seus dotes artísticos em fonte de renda. Elogiada pela voz de meio soprano, apurada em aulas na Europa, passou a dar aulas de piano e canto lírico para sobreviver. Mais tarde, tornou-se funcionária pública, ocupando um cargo no Ministério da Agricultura. Pertenceu a ela o piano de cauda que hoje integra o museu. "Ela tinha um vínculo cultural e transformou isso em forma de sobrevivência", completa Douglas.

Figuras de prumo

Com talento reconhecido por prêmios no Salão Nacional de Belas Artes, a pintora Maria Pardos teve uma dupla contribuição para o Museu Mariano Procópio. O acervo da entidade reúne 46 pinturas da autora, além de desenhos e outros objetos, totalizando mais de 200 itens. Nascida na Espanha, foi discípula do carioca Rodolpho Amoêdo. Embora nunca tenha se casado oficialmente com Alfredo Ferreira Lage, viveu na companhia do colecionador durante toda vida, tendo grande influência na formação do museu.

A figura de Geralda Ferreira Armond ainda permanece viva na memória de muitos juiz-foranos com mais de 40 anos de idade. Assumiu a direção do museu após a morte de Alfredo Ferreira Lage, em 1944, atendendo um pedido registrado no testamento do próprio fundador do museu. Levou a tarefa adiante por 36 anos, até sua morte em 1980. Poeta, professora e bibliotecária, aprendeu os trâmites da instituição nos anos em que auxiliou o primo. Nessas mais de três décadas, ficou conhecida por lutar com todas as armas possíveis contra a falta de recursos; estimulou doações, buscou ajuda do poder público e chegou a vender jabuticabas colhidas no parque como fonte de renda, além de organizar chás beneficentes usando a louça do acervo. "Deixou o exemplo de persistência, apesar das dificuldades. Dizia-se que ela vivia na porta dos prefeitos. Apesar de haver críticas a algumas atitudes dela, o fato é que não sabemos o que teria acontecido ao museu sem sua presença."