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Sobre medos e certezas


Por MAURO MORAIS

06/08/2013 às 07h00

Apesar de mais afeito ao lirismo e à sutileza das palavras, o poeta Vinícius de Moraes lançou mão das metáforas mas se mostrou objetivo para falar de um assunto que perpassou sua obra sempre cheio de véus. Em A morte, o autor não faz rodeios: A morte vem de longe / do fundo dos céus / vem para os meus olhos / virá para os teus. De forma semelhante, as psicólogas Edirrah Soares e Maria Aparecida Mautoni vão direto ao ponto em Conversando sobre o luto (Editora Ágora, 99 páginas), no qual discutem a certeza da morte como princípio fundamental para seu aceite diante de perdas próximas. A morte faz parte de um ciclo de vida normal. Somos todos mortais, e saber disso facilita nossa convivência, explica Maria Aparecida, que tem um consultório na cidade no qual atende pacientes enlutados. Precisamos ter expectativa de morte, projeto de morte, completa.

Apesar de óbvia, tal certeza ainda é carregada de mistérios e um tanto maior de medo. Segundo a profissional e estudiosa, isso se deve a uma questão cultural. Nos tempos primórdios, o fim era mais aceito, já que chegava em idades menores e se anunciava em forma de uma doença, proporcionando um tempo de adaptação aos que ficaram. O ritual de despedida era comum e saudável. A partir do século XVIII, a morte começa a ser relacionada à vergonha e envolvida em tentativas de revertê-la, pontua Maria Aparecida, comentando que, para os profissionais da saúde da época, o fim era uma grande frustração.

Desde então, da televisão ao cinema, passando por diversas outras artes, o assunto é considerado tabu, tratado sempre em dois extremos: ou a morte é redenção, ou infortúnio. Vida e morte são, em essência, dimensões simples da existência. A complexidade, na maioria das vezes, está na nossa dificuldade de lidar com sentimentos e emoções que fazem parte de nosso ser, mas dos quais este mundo tão impessoal e artificial nos distancia, aponta o psicoterapeuta e professor Ricardo Sebastiani, em prefácio da obra.

Com linguagem simples, divisão em capítulos e sequências curtas, Conversando sobre o luto aproxima-se do formato de um manual, mas mantêm-se como espaço de estudo sobre o momento comum ao seres humanos. Segundo Maria Aparecida Mautoni, a dor da perda se deve ao rompimento de um vínculo, e cada um tem seu tempo para conviver com o sentimento. Partindo da Teoria do apego, desenvolvida pelo psiquiatra e psicanalista inglês John Bowlby, as autoras explicam que na fase recém-nascida, a criança desenvolve um apego com seu cuidador baseado na necessidade de sobrevivência. Vencida a etapa de independência, outros vínculos afetivos são criados. O importante é que não sejam feitos de forma doentia. As relações devem ser estabelecidas como uma troca de contato, pondera Maria Aparecida.

Entre depoimentos, orientações e reflexões, o livro indica a necessidade de uma educação da morte (que ainda não se encontra na pauta dos profissionais da saúde e não desfruta de bons espaços na arte e na cultura). Como no título e na própria estrutura do livro, o tema deve permear conversas. Na próxima segunda, as autoras lançam a obra no Sartoni Steakhouse (R. Manoel Bernardino 25 – São Mateus), às 19h.