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‘O que pode a crítica hoje?’


Por MAURO MORAIS

14/08/2013 às 07h00

A pouca idade, 35 anos, não deixa transparecer o extenso currículo de Ivair Reinaldim, mas é na segurança de seu discurso e na propriedade com que trata a arte visual contemporânea que se confirmam as sólidas formação e trajetória do professor, crítico e curador paranaense radicado no Rio de Janeiro. Doutor em história e crítica da arte pela UFRJ, Reinaldim é professor da Universidade Cândido Mendes e do núcleo teórico da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, além de membro da comissão curatorial da Galeria de Arte Ibeu, importante espaço da arte contemporânea carioca. Desde 1962, a galeria promove anualmente a coletiva "Novíssimos", reunindo nomes emergentes do país.

Em permanente diálogo com a nova geração, da qual faz parte, o professor, curador e crítico de arte – funções que segundo ele estão interligadas – diz desenvolver seu trabalho selecionando aquilo que deseja fazer, amadurecendo o projeto e pesquisando (essa, uma palavra de ordem!). Convidado para a I Semana de Fotografia no IAD, que aconteceu na última semana, Reinaldim esteve em Juiz de Fora e conversou com a Tribuna. Além de abordar o momento atual da arte nacional e comentar sobre a relação entre academia e mercado, ele falou sobre a geração contemporânea de críticos, que não apenas ostenta um estilo descolado, como ele, mas está certa de sua responsabilidade na trajetória histórica de nossa produção.

"Essa nova leva, na qual eu me vejo, está atuando muito. Uma das características é pensar a diversidade. Como o perfil, o histórico e a bagagem são muito diferentes, já dá para perceber nessa jovem crítica uma série de tendências. Essa diversidade é importante, rica e faz com que a gente possa ter outros olhares sobre essa arte que está acontecendo agora."

 

 

Tribuna – Você compreende a curadoria como uma pesquisa parceira da arte contemporânea…

Ivair Reinaldim – É tentador organizar uma exposição e tomar a função do curador simplesmente como alguém que cria um argumento e organiza muito bem o espaço. A prática da curadoria é também uma prática de pesquisa no sentido de pesquisa técnica (como se entende, por exemplo, os processos de iluminação; como isso interfere e contribui numa montagem de exposição; como o curador considera o público dentro de sua proposta). Também é uma pesquisa de argumento, para um recorte curatorial, e uma pesquisa da produção dos artistas. Como organizar uma exposição sem conhecer o perfil desse artista, seus processos de trabalho e sua trajetória? Mais do que selecionar uma obra "X" porque ela me interessa para um determinado argumento é como essa obra se insere dentro de um contexto da trajetória do artista e que relação mais profunda ela pode me apresentar. Só consigo isso pesquisando, seja conversando com os artistas, visitando ateliê, lendo sobre o processo e tendo um embasamento histórico.

 

– Nessa prática, então, a curadoria se alinha com o trabalho da crítica?

– Tem uma pesquisa sobre crítica de arte que diz que no Brasil existe um perfil muito forte de migração da função específica do crítico de arte para um acúmulo de outras funções que engloba a curadoria. Aqui, de uma maneira muito forte, críticos se tornaram curadores, sem que isso eliminasse a possibilidade de ser crítico. O que temos aqui é uma posição de teórico que exerce a sua função seja na crítica de maneira mais tradicional (no jornal e nas revistas especializadas), seja fazendo textos de apresentação de catálogo ou livros (onde você desenvolve uma pesquisa da história da arte, mais como historiador), e mesmo na função de um curador, em que o discurso aparece não só num texto mas também na disposição dos trabalhos. O curador, ao organizar uma exposição, seleciona obras, está fazendo uma crítica de certa forma, ele está expondo um ponto de vista na maneira como organiza o recorte e como propõe um diálogo com o público. Assim, ele não deixa de ser crítico, mas exerce a crítica de uma maneira diferente.

 

– Quem são esses jovens artistas e o que eles produzem hoje? Existem características comuns?

– Algo que tem acontecido já com uma certa regularidade – mesmo que ainda haja uma concentração no eixo RJ-SP – já é possível que um jovem artista possa viver no Nordeste, no Sul, na Amazônia, desenvolvendo um trabalho de extrema qualidade com visibilidade e sem precisar sair. Hoje em dia é possível perceber uma cena de arte contemporânea muito forte em Belém, Brasília, Recife, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre. Essa é uma característica importante. Outra é que ainda temos muitos coletivos de artistas, que se reúnem em torno de metas em comum. Houve uma quantidade maior no início do século XXI, por volta dos anos 2000 e 2002. Hoje o perfil é mais individualista, de desenvolver uma trajetória e um trabalho pessoal, mas em contato uns com os outros. A internet facilitou muito. Hoje o artista circula mais, não só em termos do sistema de arte – que consegue inseri-los e fazer com que eles circulem, seja nas instituições, seja no mercado -, mas também os aproxima das discussões. As trocas virtuais são mais intensas. A internet e os meios de comunicação também propiciaram um novo tipo de enfoque, que não é uma primazia em termos de preocupação artística, mas acaba sendo uma das grandes tendências, que é o trabalho em torno da questão da imagem. A fotografia ou vídeo têm um espaço importante dentro da arte contemporânea, mas os próprios meios tradicionais como a pintura ganham um novo fôlego, e essas práticas são repensadas a partir da experiência da imagem fotográfica ou digital.

 

– Qual o espaço da abstração e do figurativo dentro da arte contemporânea?

– Mais da metade dos trabalhos é figurativa. Os artistas se apropriam das imagens da internet, de câmeras de segurança, criações próprias. Essa possibilidade veio com o digital, que facilita capturar uma profusão de imagens. E a questão é como reelaborar essas imagens pelo processo da pintura, pela densidade da tinta e das pinceladas. A tendência talvez seja um retorno ao figurativo.

 

– Hoje existem muitas críticas relativas à arte contemporânea, que resulta muitas vezes em expressões carentes de explicações. Como você enxerga isso?

– A relação da arte contemporânea com seu público é muito plural. Um pouco de conhecimento ajuda em qualquer instância. Por exemplo, quando você viaja para um outro país e não domina muito bem aquele idioma você pensa em estratégias para se comunicar e se fazer entender. Você pode usar gestos ou algumas poucas palavras que domina. Talvez isso se pareça com o campo da arte. Seja na arte contemporânea, seja na arte tradicional. Quando estudamos história da arte, percebemos que a arte do passado é muito mais complexa do que imaginamos. Talvez a arte contemporânea não tenha a facilidade da leitura imediata. A dificuldade maior é permitir que aquilo possa ser visto como arte, porque já temos uma tendência prévia da cultura em estabelecer que existe um estereótipo do que imagina que seja arte e boa arte, daquilo que a gente pode encontrar em um museu. Qual é a nossa capacidade de discutir os nossos próprios pré-conceitos e perceber que talvez haja uma dimensão muito maior? Havendo abertura podemos dar conta daquilo.

 

– E ressignificar esse lugar do que é arte é o maior trabalho desses jovens críticos?

– Esse já foi um trabalho que vem sendo feito por outros críticos, por outros teóricos. Talvez a grande questão seja responder a uma pergunta feita pela teórica Suely Rolnik: O que pode a arte no contexto capitalista, em que muitas estratégias artísticas são capturadas pela publicidade, pelo mercado, pelo consumo de maneira geral? Aí, pergunto: O que pode a crítica hoje? Em que sentido posso contribuir para essa história, para o momento? Sei que não há uma resposta pronta, mas sempre parto do princípio de pensar em que sentido posso encher um pouco mais o copo.

 

– Você está dentro da academia, mas também no espaço da prática. Como é elaborar um ponto de vista nesses espaços?

– Acredito que a academia permite e contribui para desenvolver um espírito crítico. O problema é que o risco da academia propicia desenvolver essa crítica dentro de uma bolha, sem entender que precisa haver o contato com a sociedade. A academia precisa se contaminar de mundo e não pode achar que está em uma torre de marfim. A minha experiência foi de perceber que certos debates extremamente profundos na academia careciam da experiência do meio de arte. Já estar fora do meio de arte é uma experiência contrária, é muito rica no sentido da diversidade e de pontos de vista, mas também possibilita uma relação com um meio extremamente permissivo, em que tudo é muito bom. É necessário uma base crítica. Para mim, a melhor forma de atuar é estar com um pé na academia e o outro no ateliê.