Ouça agora

Longa caminhada


Por RAPHAELA RAMOS

02/04/2012 às 23h00

A vastidão dos temas permitiu recortes. Para apontar algumas trilhas entre as emaranhadas possibilidades teatrais, os quatro convidados da 27ª edição do seminário "Os caminhos do teatro" recorreram às próprias experiências. Boa escolha. "Foi um dos melhores eventos dos últimos anos. As palestras atingiram o público, bastante variado. Temos adolescentes, universitários e idosos", comenta José Luiz Ribeiro, diretor do Centro de Estudos Teatrais – Grupo Divulgação, que comanda a proposta. Ao longo do último final de semana, a arte-educação, o ofício do ator, a dramaturgia contemporânea e o mercado teatral estiveram sob o foco nos debates promovidos no Forum da Cultura, que completa 40 anos. Na abertura do seminário, o Divulgação comemorou a data e prestou ainda uma homenagem a Ribeiro, prestes a completar 70 anos e a se aposentar. "Continuo no Centro de Estudos enquanto Deus me der força. Não desapareço", avisa o diretor.

A primeira exposição foi intensamente aplaudida pelos espectadores. Além de abordar e repensar os principais aspectos da arte-educação, o professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Luiz Marfuz relatou sua participação no projeto "Cuida bem de mim", desenvolvido por dez anos com alunos de escolas públicas baianas. Ao apresentar um vídeo sobre a iniciativa, Marfuz destacou duas dimensões esquecidas no limbo das instituições educacionais: o aprender a ser e o aprender a conviver. "O teatro se encaixa bem nesse espaço. Porém, ele deve completar e até questionar, mas nunca competir com a escola." Nessa empreitada, o acadêmico chegou a trabalhar com atores hoje renomados, como Lázaro Ramos e Wagner Moura.

Na tarde de sábado, o diretor carioca Isaac Bernat, professor da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e da UniverCidade, tratou das relações entre mestre e aprendiz no contexto do ofício do ator. Na opinião do acadêmico, todo artista necessita encontrar alguém para seguir, a fim de que a estrada não seja solitária. Interagindo com a exposição anterior, Bernat comentou que a figura do professor está esmaecida. Segundo Luiz Marfuz, ao pesquisar sobre a destruição do patrimônio nos colégios públicos, o projeto "Cuida bem de mim" verificou que os docentes também eram responsáveis por ela. Para Marfuz, o bom educador é aquele que desaparece e dá lugar ao outro.

Participando de uma oficina anos atrás, Bernat acabou encontrando seu mestre, o "griot" Sotigui Kouyaté, ator já falecido, que trabalhou com o dramaturgo inglês Peter Brook. "O griot é o sangue que corre pela sociedade africana. É um conselheiro, conciliador, artista e guardador da memória", explicou o carioca, afirmando ter aprendido com Sotigui a valorizar a própria ancestralidade. Bernat ressaltou ainda a importância da mescla entre culturas e gerações. De acordo com o diretor e dramaturgo paulista José Fernando de Azevedo, do Teatro de Narradores, o teatro depende da capacidade de vínculo entre seres díspares, algo que perdeu a força nos tempos atuais. "Difícil é estar junto. É um ato político."

Segundo Azevedo, também professor da Escola de Arte Dramática (ECA) da Universidade de São Paulo, toda tradição se revela quando se está atento ao presente. Como observou ele na manhã de domingo, existem grupos no cenário paulista que seguem juntos há mais de dez anos, formando uma trajetória. "Ao longo da história do Brasil, vimos o contrário. Inúmeras manifestações foram interrompidas, como o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e o Arena. Essa nova geração está sobrevivendo."

 

Discorrendo sobre as escrituras teatrais contemporânea, o paulista assinalou a chamada "dramaturgia do desmanche", formulada a partir dos anos 1990, com o abalo da relação entre cultura e Estado. Tais grupos, de acordo com Azevedo, continuam enxergando problemas na realidade brasileira, embora a população tenha recuperado a euforia. "Com isso, instaurou-se uma disputa de imaginação", disse, acrescentando que, enquanto o teatro oferece um pensamento, a plateia deseja outro. A respeito desse assunto, José Luiz Ribeiro lançou a dúvida: "então o teatro não é mais a janela da esperança?". Para responder, o acadêmico paulista apontou os novos tipos de vínculos produzidos pelo teatro como possíveis responsáveis pelo surgimento de outras esperanças.

Para encerrar o evento, a produtora e professora da UFBA Deolinda Vilhena revelou algumas rotas para o mercado teatral. Conforme salientou ela, se a cena se transformou, é preciso que haja um produtor adequado a ela. "As perguntas são: que teatro vou produzir, para quem e como?", ensinou, acrescentando que, no passado, a bilheteria era algo vital para os atores. "Deolinda traz questionamentos interessantes. Temos hoje espetáculos que acontecem somente com patrocínio. O que isso significa? Como isso influencia a relação com o público?", provoca Ribeiro, já com algumas reflexões para a próxima caminhada.