Impressões de viagem
A chegada foi inusitada. Não havia cenário ou figurino, e o palco estava nu, ocupado apenas por um painel com textos e fotos. Chegamos para uma seção de ensaio, mais uma do Grupo de Pesquisa em Interpretação e Experimentação, que aconteceu este mês no Centro Cultural Dnar Rocha sob coordenação de Renata Rodrigues e Gabriela Machado. Custei para me situar na proposta, e isso foi bom. Manteve a curiosidade e o inusitado. Coisas que tendemos a perder quando nos tornamos adultos. Sabemos o que esperar de cada situação. Temos o controle. Ali nada era passível de ser conhecido. Tudo exigia uma entrada, uma entrega à proposta. Uma perda de controle, uma saída do seu lugar.
Depois a mediação da direção e a apresentação do jogo da corda. Quase impossível não se sentir parte. A concentração dos atores, o olhar, a dança dos corpos, suas disputas, suas conciliações, suas emoções expostas como carne nua. Impossível não se identificar, não se sentir no jogo. O que isso me desperta? Quais emoções vêm à tona?
Fiquei maravilhada com a postura, o foco no ventre, onde residem todas as emoções primitivas e, portanto, nossa energia volitiva, nosso ser mais íntimo. A base na posição do quadril e na planta dos pés. O exercício mobiliza algo em quem assiste e é algo muito primitivo e que está lá, no fundo, submerso, e a gente não consegue ali, no tempo da experiência imediata, inteligir, mas sente e sabe.
Logo na seqüência, as cenas, pequenas, dentro do exercício, como eles dizem, as partituras vão surgindo e ganham vida, cor, carne, gesto, presença, pessoas que pouco antes não estavam ali. Para onde foram os atores? Pouco a pouco surgem os personagens, ou melhor, emergem das profundezas do ventre dos atores em seu jogo. Isso é criação.
Assisti às cenas com sofreguidão, pelos seres que desfilavam a miséria humana diante de mim, na forma mais degradada que só Nelson Rodrigues conseguiria descortinar.
Completamente imersa nos dramas pessoais, na loucura, no sadismo, na hipocrisia e na fome – sim, é uma fome, dos personagens -, fui me dando conta do incrível trabalho deste atores. E do quão intenso, profundo e grandioso é esse mergulho de ser e de criar e dar vida a tantas personas a partir de um só. Na vivência in loco do ator, aparecem as muitas vidas que a humanidade carrega. Esta é a magia da arte e é também seu fardo.
Entendi a exaustão no rosto dos atores ao final do processo, porque não é um processo apenas de interagir, um processo externo. É antes de tudo um processo interno, intenso de descoberta de si, porque só quem consegue olhar dentro de si, ver as próprias entranhas, seus segredos, mais nobres e os mais perversos, só quem olha nos olhos da sua própria persona selvagem e resiste e sustenta este processo, pode viver com a intensidade que eu vi naqueles atores, as cenas compostas.
É belo, é assustador e é talvez o maior sentido de liberdade que a arte pode nos ensinar.









