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Mais um legado de Niemeyer


Por MARISA LOURES

26/01/2013 às 07h00

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O envolvimento do arquiteto Oscar Niemeyer com Juiz de Fora tem se revelado cada vez mais íntimo. Nos últimos dias, um projeto, assinado por ele em outubro de 1952 para a construção de uma rodoviária, foi encontrado. O conjunto arquitetônico seria erguido no local que serviu de sede para a rodoviária municipal e onde abriga, hoje, o Condomínio do Edifício Adhemar Rezende, na Avenida Barão do Rio Branco. Suas criações, marcadas por traços curvilíneos, estão presentes na cidade por meio de obras como o prédio do Banco do Brasil, localizado na esquina da Rua Halfeld com Avenida Getúlio Vargas, e o monumento levantado na antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA) – espaço atualmente ocupado pela Prefeitura – em homenagem ao presidente Tancredo Neves, em 1985.

"É mais uma proposta, mostrando que Niemeyer tinha, principalmente, na década de 1950, uma relação consolidada com a cidade. Basta lembrarmos, também, o projeto arquitetônico que nunca foi achado para uma represa aqui do município. Provavelmente, essa afinidade tem muito a ver com a proximidade com Arthur Arcuri. Inclusive, é a época em que ele indica Di Cavalcanti para fazer o mosaico do Marco do Centenário", diz Marcos Olender, presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/MG).

Esquecido em meio ao acervo pertencente ao extinto Instituto de Pesquisa e Planejamento (Ipplan), o desenho foi direcionado, com outras documentações, para o acervo técnico da Secretaria de Atividades Urbanas (SAU) há cerca de três anos. Recentemente, ao fazer um estudo minucioso dos arquivos recebidos, Joel Alves dos Santos, supervisor do setor, o encontrou dentro de uma das caixas. Demonstrando alegria por ter sido o portador da novidade, Santos lamenta o estado de má conservação.

"É uma honra para mim, depois de décadas de trabalho, ter achado uma raridade como essa. Fiquei surpreso ao me deparar com a assinatura de Niemeyer. Sempre achei que a única obra dele era a do Banco do Brasil. A minha missão é salvaguardar o nosso acervo. Por isso, para preservar as folhas, estou sendo obrigado a realizar uma minicirurgia nelas", comenta. Traçada com nanquim em papel vegetal, a obra é composta por 13 plantas, sendo que, em uma delas, a assinatura do autor está alterada. Em outra, a área, onde deveriam constar o carimbo com a marca de Niemeyer e o prolongamento do desenho, estava cortada.

O secretário de Atividades Urbanas Basileu Tavares promete buscar formas de preservação do documento. De acordo com ele, estudantes de arquitetura, que costumam frequentar o acervo técnico, a partir de agora, contarão com mais uma fonte de estudo. "É fantástico saber que Juiz de Fora possui uma relíquia como essa. Tomamos um grande susto com o achado. Agora, veremos o que pode ser feito para digitalizá-lo. Não pode ficar guardado como está. É preciso que ele seja visto e acessado pela comunidade científica", observa o secretário.

A descoberta surpreende não só pela relevância histórica mas também pelo inusitado da proposta. No ambiente de uma rodoviária, o público viajante e da cidade teria à disposição mais um espaço para atividades artísticas. As fachadas da Avenida Getúlio Vargas e Rio Branco seguem a cartilha modernista. Na primeira, como era muito comum na época, "brise-soleil" seria usado para diminuir a incidência de sol durante a tarde. Na segunda, azulejos também fariam parte da ornamentação. Colunas em "V", semelhantes às do prédio do PAN-Marechal, localizado na Rua Marechal Deodoro, dariam sustentação à construção. Segundo Olender, esse recurso era estrategicamente utilizado para dar maior liberdade de circulação.

Para o subsolo, estavam previstos, em uma extensão de 936, 8 metros quadrados, agências de Correios e Telégrafos e depósito de combustíveis. O primeiro pavimento daria lugar à recepção, com cozinha, restaurantes, banheiros, hall de circulação, plataforma de embarque e desembarque e agências das companhias de transporte. Na sobreloja, haveria uma área reservada para a administração do terminal. Por uma rampa, o usuário teria acesso ao segundo piso, constituído por auditório com palco e cabine de projeção. Salão de exposição, sala de leitura, espaço para conferências e discoteca ocupariam os 2,304 metros quadrados do andar seguinte. Os andares quatro e cinco seriam destinados a departamentos da administração municipal. O terraço abrigaria boate com palco, vestiário e dois camarins. Por último, seria construída a cobertura, que sediaria a sala de máquinas.

"É um projeto que traz uma ideia bastante interessante do ponto de vista plástico e também cultural. Ele prevê um aproveitamento da curva da esquina. Não sei se era uma demanda da Prefeitura ou uma proposta de Niemeyer, mas acho que, para aquele período, era executável. Era a época dos grandes cinemas. Então, era um espaço que criaria novas demandas", acredita Olender. "No período em que foi feito, a Av. Getúlio Vargas era a entrada da cidade. Por isso a viabilidade da proposta. Hoje o projeto é importante como documento de pesquisa, pois demonstra a relevância de Juiz de Fora como cidade industrial, de forte vida econômica, social e artística. Mostra que o município estava bastante inserido na modernidade", complementa o professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e arquiteto, Mauro Campello.