Ouça agora

Nos porões da memória


Por MARISA LOURES

12/03/2013 às 07h00

Um pequeno porta-retratos depositado sobre uma estante contém a justificativa para uma prática realizada desde garoto. "Esse é o meu guru, é quem sempre me influenciou", conta o pesquisador Vanderlei Tomaz, apontando para a foto em que posa ao lado do jornalista, morto em abril de 2003, Domervilly Nóbrega. O mineiro, natural de Três Corações, construiu família em Juiz de Fora, onde se dedicou a criar um rico acervo, hoje pertencente ao Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), sobre a história da cidade. Prestes a completar dez anos de seu falecimento, a Tribuna foi à procura de quem ainda mantém viva a arte de preservar a memória do município. Nos três arquivos particulares visitados, a reportagem se deparou com obras raras e de grande valor.

"O espírito de arquivo é que nos permite recontar fatos buscando fontes primárias. Dessas pequenas coleções, formam-se os grandes acervos", avalia a escritora e professora Marisa Timponi, que se valeu dos documentos pessoais de Machado Sobrinho para produzir o livro "Machado Sobrinho: Notícias da imprensa sobre a Academia Mineira de Letras", lançado em 2009, ao lado da também autora Leila Barbosa. "É uma mostra viva do mérito daqueles que tiveram a paciência de guardar a memória de uma cidade", opina Marisa.

Vanderlei tinha apenas 13 anos de idade quando começou a garimpar documentos que hoje fazem parte do seu acervo, composto por aproximadamente oito mil títulos. "Sempre tive essa preocupação com a preservação", comenta. Seu foco é Minas Gerais, mas Juiz de Fora possui lugar privilegiado entre as prateleiras de sua pequena Biblioteca localizada no Bairro Benfica.

"Faço por perseguir um sonho. Tenho coisas curiosíssimas que eram para estar no lixo", conta, mostrando um mapa de um projeto de retificação do Rio Paraibuna, datado de 1914, achado entre os escombros de uma obra de demolição de uma casa da Avenida Rio Branco. "Ele é um abnegado, corre atrás da história que ficou guardada em porões. Digo que são os porões da nossa memória", afirma Marisa, que não se furta de procurar o amigo quando está em fase de produção de um livro.

Dos episódios curiosos envolvendo a aquisição de documentos, Vanderlei lembra a conversa que teve há vários anos com duas senhoras, moradoras da região de Benfica, que afirmavam ter saído correndo de casa por conta da invasão de tropas que lutavam na Revolução de 1930. Se no início pensou se tratar de apenas delírios de idosas já em idade avançada, anos depois encontrou duas crônicas de Carlos Drummond de Andrade, fazendo referência ao momento histórico. "No texto ele fala que está em Barbacena escutando o movimento dos militares aqui em Juiz de Fora. Associei os dois assuntos até que uma outra senhora me doou um pacote do seu avô, contendo edições diárias do jornal "Correio da Manhã". Para surpresa minha, a manchete era ‘Benfica Verdun da Mantiqueira resistiu até à hora da victória aos ataques das tropas legalistas’. Lamento não ter conversado mais com aquelas velhinhas, não ter gravado o testemunho oral de quem viveu aquelas cenas e ter explorado mais aquelas memórias."

De acordo com o pesquisador, a principal demanda em seu acervo é a documentação sobre os diversos bairros do município. Contudo, livros de autores locais, como Murilo Mendes, Pedro Nava, Rachel Jardim, Afonso Romano de Sant’Anna, Rubem Fonseca e outros – alguns autografados e esgotados -, coletânea de documentos sobre Bernardo Mascarenhas, siderurgia, ferrovia, imigração de afrodescendentes, propagandas políticas de prefeitos e até uma coleção de telhas de casarões, como o de Paula Lima, que, conforme ele, teria servido de hospedaria por uma noite a D.Pedro, em 1831, estão à disposição do público juiz-forano. Vanderlei ainda destaca, como uma de suas preciosidades, o arquivo fotográfico do jornal "O Lince", que circulou entre 1912 a 1979 em Juiz de Fora.

"É preciso que alguma instituição se desperte para fazer um inventário dos acervos particulares de Juiz de Fora. Depois que a pessoa morre, a família não sabe se doa para a universidade, se entrega à Prefeitura, se vende para um sebo ou se distribui para os amigos como lembrança do falecido.

 

 

Particular, mas do público

"Não sou um colecionador. Não quero ser dono de nada. O arquivo particular só tem valor se for aberto à comunidade. As pessoas ficam encantadas quando digo que pode copiar tudo. Se não puder, não faz sentido passar 40 anos se dedicando a guardar documentos." Com essa frase, o professor e presidente do Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly, Roberto Dilly, resume o ideal que permeia sua sina iniciada aos 15 anos de idade, ao descobrir, através da avó, que era descendente de alemães. A visão de uma fotografia da família o fez perseguir, obstinadamente, a história dos imigrantes germânicos que ajudaram a construir a memória de Juiz de Fora. "Embora ela não tivesse a cultura de uma historiadora, foi me moldando. Pegou uma pedra bruta e a transformou."

Dias e dias trancado em uma das salas da Igreja da Glória foram suficientes para Roberto concluir que "há uma energia, como se fosse uma força divina, que atrai as coisas até mim". Depois de muito pesquisar nos livros do santuário, inesperadamente, na torre da igreja, local apontado por um padre ancião, encontrou um de seus mimos: um livro com o registro dos 1.193 alemães que desembarcaram no Brasil. Apesar de, em certos momentos, lançar mão de seu próprio dinheiro para adquirir peças que considera cruciais ao seu acervo, constituído de aproximadamente 20 mil fotografias da cidade, sete mil documentos, entre cartões de vacinas de alemães e escravos, carteira de habilitação para carroceiro da década de 1940, utensílios domésticos, cristais, quadros, porcelanas, varas utilizadas para descer caixões e móveis de uma fábrica de bala suíça, os encontros casuais são os verdadeiros responsáveis pela formação de seu arquivo.

Após ler, em reportagem da Tribuna, que o historiador se dedicava a preservar a memória de Juiz de Fora, uma senhora, de 90 anos, pediu que ele fosse até sua casa. Foram repassados a ele 700 fotografias originais da imigração alemã, do período das fábricas de cerveja e dos primeiros ônibus do município. "Ela disse que sentiu que eu era a pessoa indicada para ficar com tudo. São fotos importantíssimas para o resgate iconográfico da cidade." Dilly também exibe um jogo de café de porcelana alemã, fabricado em 1864. "Tudo que faz parte do cotidiano me interessa. Cada objeto conta uma história, remete a uma família, tem vida própria. É uma viagem gostosa. Me sinto com a missão de preservar para as pessoas", diz.

"Infelizmente, há quem só colecione bobagens. Como vai estar daqui a 20 anos se ninguém preservar? Para meu prazer, tenho influenciado muitos que têm um pequeno desejo e um pequeno apego à memória. Vou ampliando tanto os horizontes dos meus pupilos que posso dizer que temos gerações sendo formadas", diz o historiador, que já doou em vida boa parte do seu acervo para o Museu de Crédito Real, onde também está sendo criado o Instituto Guardiões da Memória, que se ocupará dos fundos de famílias comuns "como a nossa". "São memórias de quem constrói a história da cidade, e, não raro, de cidadãos descendentes de pessoas importantes para o município." O acervo pode ser consultado de segunda a sexta, das 14 às 18.

 

 

Lembranças que já não são mais de um só

A porta se abre, e um senhor frágil, de cabelos grisalhos, que pouco lembra a figura vigorosa do líder sindical, que chegou a deputado estadual de Minas Gerais, sendo também preso pelo Exército Brasileiro durante a ditadura militar, convida a Tribuna a entrar no Centro de Memória e Documentação Clodesmidt Riani. O espaço abriga correspondências políticas e pessoais, além de fotografias de familiares e homens públicos, centenas de distinções, diplomas e homenagens recebidas ao longo dos seus 92 anos de vida.

Percorrer os três ambientes do local é como revisitar uma época da história, não só de Juiz de Fora, mas do Brasil, que, para muitos, faz parte de um passado de fatos desconhecidos e intrigantes. "Eu ganhava pouco, tinha que fazer biscate para aumentar a renda, então minha filha me ajudou a guardar tudo o que tem aí", relata.

Dentro de um reservatório com tampa de vidro, um cartão redigido de próprio punho por João Goulart "ao amigo e companheiro Clodesmidt Riani", durante solenidade do 113º aniversário do município, ocupa lugar de destaque. "Talvez seja um dos arquivos complementares da história da revolução militar mais completos do país. Riani era conhecido como o homem que parava o Brasil, tamanha a sua importância. Homens como ele e Itamar Franco não têm mais uma história pessoal. Você não está mais falando da personagem, porque ela faz parte do todo", observa Roberto Dilly. "Queria que o meu acervo permanecesse, porque, infelizmente, nós que viemos depois de Getúlio (Vargas) não contamos com muita documentação sobre nossa história. Meus filhos não podem cuidar dele, e o espaço já não é suficiente. Não resta dúvida de que precisa sair daqui", lamenta Riani, já vislumbrando a possibilidade de repassar o memorial para uma das instituições da cidade.