Diário de bordo
Ao escolhermos um passeio para o Pará, esperávamos ser surpreendidos por novas sensações e sabores dentro dessa diversidade que é o Brasil. As surpresas foram tantas e tamanhas que ainda agora estamos perplexos. Tem coisas na vida da gente que são essenciais, e visitar o Pará, especificamente a Ilha de Marajó, com certeza, foi uma delas.
De Belém à Ilha de Marajó fomos de barco até o Porto de Camará, num percurso que durou três horas. Foi difícil acreditar que estávamos navegando pela Baía do Marajó, ainda no Rio Pará. Como essa imensidão de água pode não ser o mar que conhecemos? Ao chegarmos, seguimos de carro, cerca de 28km, até a cidade de Salvaterra, na Pousada dos Guarás. Passear ao redor da pousada colhendo cajus (amarelos ou vermelhos) e cavalgar em búfalos nativos foram experiências inusitadas. E a culinária local? Nesse aspecto tenho certeza que abusamos um pouquinho: o Filé à marajoara, com carne de búfalo e mozarela derretida, é praticamente irresistível. No jantar, em um restaurante totalmente integrado à paisagem, fomos ainda surpreendidos com o carimbó, dança típica, bastante sensual e alegre, que contagia todos.
O que dizer das cerâmicas marajoaras, busca incessante dos turistas? Em Marajó, não existem mais essas cerâmicas. A produção, em escala mais industrial é feita em Belém. A única exceção é o ateliê do artista Carlos Amaral (em Soure), que, como descendente de índios, procura manter a tradição na execução de suas poucas peças, conferindo-lhes um enorme apelo cultural e visual.
Num passeio pelo Rio Paracauari, divisa das cidades de Salvaterra e Soure, num barco popopó, pode-se também observar o farol de Salvaterra, as armadilhas para peixes, a presença de sardinhas saltitantes que fazem um belíssimo balé nas águas, acompanhadas de perto pelos pássaros mergulhões que delas se alimentam. Outra atração é o Farol de Soure, ou do Rodrigo da novela Amor, eterno amor exibida há pouco na TV Globo. Para os naturalistas, existem praias selvagens, como a do Garrote, na ponta de Soure. Leve guarda-sol e água, pois a praia não tem infraestrutura.
Para entendermos Marajó, que é servido pelo Rio Pará, afluente do Amazonas, temos que nos reportar a origem de seu nome: Tampa do Atlântico ou Barreira do mar, posto que isola o Oceano Atlântico do restante do continente. Durante seis meses do ano, na cheia dos rios, a Baía do Marajó tende a ter mais água doce. Nos seis meses restantes, na vazante, a água torna-se mais salobra. Esse fluxo de marés interfere diretamente na vegetação e no peixes marinhos, que se adéquam às características da água. Marajó é e sempre será uma soma de sabores, de flores em formato de buquês de noiva, de ruídos, de selva, de amores. De todos os sentidos.









