Pernas para o ar
Se, por um acaso, uns caras de topete e umas meninas pin-ups atravessarem o seu caminho hoje, pode saber, o mundo não voltou ao passado. A não ser por algumas horas, como as bandas cariocas Os Carburadores e Mauk & Os Cadillacs Malditos prometem para esta noite, no Bar da Fábrica, onde serão recebidas pelos DJs Claire e Daniel Monstro e o entusiasmo da cultura rockabilly. Não vão faltar tatuagens e vestidinhos curtos anos 50 e 60. Jaquetas de couro também serão bem-vindas. Mas nada de esquecer a pomada. Além disso, como promete a idealizadora do Rock’n’billy, Priscilla Karem, serão exibidos vídeos com cenas de filmes do gênero e servidas doses e mais doses de rum, bebida das antigas, apreciada por nomes que fizeram do rebolado um mito. "Tem muito da cultura pin-up e dos topetes, inclusive shows de rockabilly, takes de James Jean. Nem vou abusar na decoração, porque o bar (Fábrica), por si só, dá conta do recado", enfatiza.
Em meados de 1950, o rock já não era mais apenas uma dança esquisita ou um motivo para quebra-quebra nos cinemas. Que o diga Mauk & Os Cadillacs Malditos. Além de versões para clássicos, a banda interpreta autorais. Basicamente, o projeto foi criado para apresentar mais de 20 anos de canções do principal compositor do grupo Big Trep, Maurício Garcia, o Mauk. "Pelas especificidades da banda, essas (músicas) estiveram guardadas esperando o seu momento", ele diz, sobre a sequência escalada.
O Cadillacs Malditos, com aval do vocalista e guitarrista Mauk, molda o seu "mockersoulgaragepunk sound" com a guitarra de El Carburator (também Big Trep) e sua grande influência da surf music dos anos 60 e do punk rock. Completam a banda o baixo de Gustavo Cockell (que também toca com John Candy) e a bateria de Robson Riva (BNegão & Os Seletores de Frequência).
Com promessa de show dançante e divertido, o guitarrista El Carburator garante muito mais que o bom e velho rock and roll. "No Cadillacs, vamos nesta onda de canções do Mauk, um rockabilly mais ‘mod’, aquele mais inglês, dos anos 60 e 70, enquanto que Os Carburadores apresentarão algumas das dez faixas do segundo CD (‘Klatu’), mesclando com o que foi registrado no primeiro (disco homônimo)", adianta o músico. Ele também toca com "os carburadores" Julio Longo (baixo) e D.H.C. (bateria/Os Pazuzus).
Para quem achava sensacional quando nas festas dos amigos da escola tocava Jive Bunny & The Master Mixers (aquele medley de músicas com o coelhinho na capa), Os Carburadores, segundo El, é uma banda de "surfabilly" cujo combustível é rock de salão e surf music dos anos 50, "atrelados a letras sobre as coisas boas da vida: carros, bebidas, filmes B de terror e amor"
Pick-ups batizadas
Carros antigos, topete, costeleta e camisa branca com as mangas dobradas se tornaram ícones de uma geração que conheceu de perto "medalhões" como Jerry Lee Lewis, Little Richard, Bill Haley e companhia, que, por aqui, foi muito bem representada por Celly Campelo e ainda está presente no palco de bandas mais recentes, como Coke Luxe e João Penca e Seus Miquinhos Amestrados. Para resgatar a atmosfera pulsante da pista, Daniel Monstro, que carrega no corpo tatuagens de objetos como dado, crânio e gato, ataca de "psychobilly", um rockabilly mais para o lado do punk. "É o rockabilly com pitadas de terror", resume o DJ, que traz na case nomes como The Cramps, Coke Luxe, Big Trep, Baratas Tontas, Dead Bile e Catalépticos, além de tudo o que puder da jovem guarda.
Já num ritmo mais dançante, à la Johnny Burnette, a DJ Claire preparou um set repleto de suingue e rebolado, com Wanda Jackson como uma das precursoras do rockabilly, que hoje atua ao lado de nomes como Jack White. "Tem uma primeira fase cinquentista e outras mais modernas", avisa, citando a "iconoclasta" de The Cramp. Essa última, conforme Claire, responde pela transição para o que começou a se chamar de ‘psychobilly’, mutação que, para muitos, foi uma das mais perigosas, selvagens, esquizofrênicas e loucas do rock. "Ganhou uma levada mais rápida, agressiva, do final de 70, numa tentativa clara de modernizar o rock com referências do punk. Entre outros, o baixo era mais marcado."
Cultura pin-up
Numa época em que a sensualidade era mais discreta, surgiu Bettie Page e muitas outras modelos – a maioria norte-americana – em poses pin-ups. "É meu estilo de vida", dispara a tatuadora Gisele Gomes, quase uma "pin-up em pessoa" como dizem as amigas. "Com meu jeito de vestir, mantenho a autoestima e a alegria, pois não é só se produzir para uma ocasião especial, mas viver assim. Eu durmo e acordo pin-up, é uma paixão."
Assim como Gisele, outras mulheres buscam no passado um conceito de vida que pode ser adaptado ao presente. "A referência retrô pode vir a se tornar uma necessidade. Eu, por exemplo, sempre gostei da estética retrô, voltada para referências nos anos 50, um ar de beleza e elegância que foge dos padrões, sem se ver livre das referências atuais, como as roupas adequadas para trabalhar no dia a dia etc", explica Claire, uma confessa garimpeira de objetos de época, como vitrolas e poltronas estampadas.
Por outro lado, Claire pondera que muitos interessados nesse nicho são carentes do tipo de som adequado. "Sem ter onde buscar esta referência, tem muitas meninas pin-ups e meninos de topete, mas nem sempre eles sabem o que rola de som e movimento cultural", diz. "E nem todo mundo que curte rockabilly está disposto a se vestir de acordo com essa estética", contrapõe, citando ainda as facilidades oferecidas pela internet. "Muitos passaram a conhecer as bandas por conta da popularização da informação provocada pela rede", finaliza a DJ, pronta para comandar a pista onde não faltarão pernas para o ar.
Rock’n’billy
Hoje, às 22h
Bar da Fábrica (Praça Antônio Carlos) – 3215-0910









