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‘Sou produto da minha história’


Por JÚLIA PESSÔA

15/12/2012 às 07h00

Se Erasmo Carlos já teve, em outros tempos, que manter a sua "fama de mau", toda sua notoriedade no quesito vai por água a baixo em poucos minutos de conversa. Em entrevista à Tribuna por telefone, o Tremendão foi pura gentileza e simpatia ao falar sobre o show da turnê "50 anos de estrada", que ele traz a Juiz de Fora hoje, no palco do Cultural, e também batiza CD e DVD gravados em julho de 2011 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. "Maravilhoso é pouco para falar do carinho intenso que tenho recebido em todos os lugares em que me apresento, sempre lotados. Fico feliz por ser mimado dessa forma há 50 anos."

No repertório, sucessos recentes, dos álbuns "Rock’n’roll" (2009) e "Sexo" (2011), misturam-se a hinos de outras fases de sua carreira, como "Gatinha manhosa", "Mulher", "Minha fama de mau", "Sentado à beira do caminho", "Vem quente que eu estou fervendo", entre tantos outros. "Busco sempre me surpreender, sou um cara que ama o que fez e o que faz e quero continuar sempre assim. Amo explorar novas linguagens, novos parceiros." Nos dois últimos CDs, Erasmo assinou composições com artistas como Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhotto, Nelson Motta e Nando Reis. "Adoro essa experiência de juntar a minha música com a de outra pessoa. Sempre aprendo muito com essa convivência e acho que ensino alguma coisa também. Isso me fascina."

Aparecendo em parte de suas composições, ainda que de forma sugestiva, a temática sexual pula as preliminares em "Sexo" e vai diretamente ao ponto. "Embora eu sempre tenha falado de sexo nas minhas músicas, acho que seria muito difícil tratar do tema como fiz neste CD na época da ditadura, por exemplo. Mas até hoje o assunto causa polêmica porque é visto com muito preconceito, muita gente faz uma ponte direta com a pornografia e não como uma coisa linda que, inclusive, nos traz à vida."

Sem esconder suas peripécias do passado, o Tremendão se lembra da Jovem Guarda como uma época em que "nunca faltou mulher, graças a Deus!", mas também como uma escola. "Fica na memória o sentimento que a música provoca nas pessoas, o aprendizado para distinguir as fronteiras entre o sucesso e o deslumbramento, o início de uma estrada com muitos ensinamentos." Também é desse período o incômodo com o rótulo de "alienados" atribuído à patota formada por ele, Roberto Carlos, Wanderléa e tantos outros "brasas" e "brotos". "Isso já me perturbou bastante, até porque eu acho que éramos mesmo alienados. Mas ninguém explica ou procura saber por que. A Jovem Guarda não era formada pela elite universitária, a gente sabia muito pouco do que se passava politicamente no país. Éramos meninos pobres da periferia, que faziam música por diversão e para divertir. Mas na época havia uma cobrança muito grande por um engajamento. Era muito chato, muito ‘patrulha’."

Em sua estrada cinquentona, o som de Erasmo vem atravessando gerações, contemplando os caroneiros desta trajetória e conquistando, até hoje, novos fãs. "Me acho um pouco camaleão, tenho essa coisa de me adaptar, jogo de cintura mesmo. Acho que para chegar ao público jovem, tenho que continuar produzindo, é uma forma de dizer: ‘Ei, estou aqui!’. O que eu faço agora desperta o interesse deles sobre meu passado, as fases da minha carreira, que também são novidades para quem não viveu isso. Sou produto da minha história, e esse é um trunfo que tenho."

Papo vai, papo vem, e o rockstar setentão confessa que a tal "fama de mau" veio perdendo a força ao longo dos anos. "Vem da ‘macheza’ como eu fui criado. Na minha infância, o mundo era muito machista, e isso acabou se refletindo em parte das minhas músicas. Mas fui evoluindo com o tempo, fui tentando descobrir o universo feminino e passei a fazer canções que falavam mais explicitamente sobre ele." De fato, a presença delas sempre permeou seu trabalho, desde os "brotos legais" da Jovem Guarda até o tributo declarado "Mulher", álbum de 1981, chegando também aos discos mais recentes. "Minha mãe, minha esposa Narinha e todas as mulheres que passaram por minha vida me ensinaram muito, por isso a figura feminina está presente em minha carreira desde o início." Sem perder a chance de fazer mais um agrado às musas de tantas composições, o Tremendão capricha na despedida. "Mande um beijo para todas as mulheres aí. Para os caras, apenas um simples abraço!"

 

ERASMO CARLOS

Hoje, a partir das 23h

Abertura e fechamento com "Feira Libre"

Cultural Bar

(Avenida Deusdedit Salgado 3955)