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Marcas do centenário


Por MAURO MORAIS

26/02/2013 às 07h00

Um passeio pela cidade e muitos encontros com Arthur Arcuri. Nascido em Juiz Fora há um século, o engenheiro Arthur, filho do comendador Pantaleone Arcuri, fundador da Companhia Industrial e Construtora Pantaleone Arcuri, permanece hoje nas residências, marcos, clubes, fábricas, edifícios e prédios públicos que projetou. Inaugurando o calendário comemorativo do centenário do engenheiro, arquiteto, fotógrafo, crítico de arte e intelectual, a mesa-redonda "Arthur Arcuri: 100 anos de história, arte e arquitetura" reúne, às 19h, no Anfiteatro da Reitoria, no Campus Universitário que Arthur projetou, os professores do curso de arquitetura e urbanismo da UFJF Marcos Olender, Klaus Chaves Alberto e Mauro Campello, além do arquiteto e urbanista Bernardo Vieira, do superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, e do pró-reitor de Cultura da UFJF, Gerson Guedes.

Formado em 1937 na Escola Nacional de Engenharia, pertencente à Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Arthur logo ingressou na empresa do pai. Primeiro professor de história da arte da UFJF, foi autor do modelar projeto do campus universitário. "Ele não foi simplesmente o responsável pela planta, mas um dos principais elementos no pensamento de reestruturação da universidade. Ele pensou e executou. O campus é resultado dessa reforma universitária", destaca Klaus Chaves Alberto, apontando para a inovadora divisão de departamentos e institutos, que estimulavam um maior encontro entre os sujeitos da comunidade acadêmica.

Segundo Alberto, o principal e mais relevante ponto do projeto da instituição faz referência à preocupação de Arthur em criar espaços de encontro de pessoas. "O plano do campus previa uma integração muito grande na área central, onde naturalmente, as pessoas se cruzariam", indica o estudioso, afirmando que o resultado é fruto de muitas viagens feitas por Arthur, a fim de conhecer projetos de sucessos e propostas que não deram muito certo. Um dos mais imponentes cartões-postais da cidade, o campus universitário, como espaço de trabalho, denunciava um Arthur apaixonado pela história, pela arte e pela história da arte.

Intelectual influente, o engenheiro era um dos assíduos presentes às reuniões para o estudo de filosofia do professor Henrique Hargreaves. Amigo de uma turma que frequentava a Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, ele também se encantou pelas análises de estética e fotografia, como comprovam os mais de 1.200 títulos da biblioteca Arthur Arcuri, doada por ele ao Museu de Arte Murilo Mendes, em 2000, dez anos antes de sua morte, em 24 de maio de 2010. Responsável pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em São João del-Rei e Tiradentes, o engenheiro também foi diretor do Museu Mariano Procópio, entre 1983 e 1997.

Para Alice Arcuri, filha de Arthur, um de seus maiores legados é o olhar ampliado para uma área que lhe exigia algumas contas matemáticas. "Como engenheiro, ele entendeu que era preciso conhecer outras artes para criar um trabalho original e harmônico", comenta, na certeza de que o pai deixa aos mais novos "uma semente de compreensão da arquitetura como arte". "O Arthur entendeu a arte moderna como um todo, e isso possibilitava a ele ser um grande divulgador da expressão em Juiz de Fora", defende Bernardo Vieira. Conforme Marcos Olender, o engenheiro tem uma importância não apenas no âmbito local, como também na região e no país.

Amigo do pintor João Guimarães Vieira, o Guima, e do escritor Carlos Drummond de Andrade, Arthur estreitou laços com o poeta Murilo Mendes, que se encantou pelas fotos que o engenheiro tirava pelas ruas da cidade, registrando edificações que lhe agradavam. Além de indicar o amigo à Mostra de Arquitetura Contemporânea Brasileira, Murilo também apresentou Arthur ao jornalista e escritor Rodrigo de Mello Franco e ao arquiteto Oscar Niemeyer, durante uma visita à construção do conjunto arquitetônico da Pampulha. A afinidade, evidente nas criações do juiz-forano, também envolveu o engenheiro na cena modernista brasileira, aproximando-o de Lúcio Costa, Burle Marx, Cândido Portinari e Di Cavalcanti.

"Ele integrou artes plásticas, arquitetura e jardins. As casas desenhadas por ele sempre tinham grandes murais", afirma Vieira, que estudou as plantas residenciais de Arthur na cidade. "Os projetos procuraram relacionar o ambiente de estar aos jardins. O estar era uma continuidade dos jardins", aponta, defendendo que o engenheiro recusou os grandes "gestos" arquitetônicos em prol de uma simplicidade. "Mesmo modesto em termos de meios, a produção dele foi muito rica em termos de composição", diagnostica.

Planejado em 1949 e inaugurado em 1951, o Marco do Centenário, instalado na Praça da República, no Poço Rico, é uma das construções que mais expressam o apreço de Arthur pela arte. Primeiro mosaico modernista fixado em praça pública no país, o monumento conta com um desenho feito por Di Cavalcanti e foi tombado pelo patrimônio cultural do município e pelo Iphan. Segundo Alice, as comemorações do centenário também servem para impulsionar um movimento em favor do marco, que se apresenta bastante deteriorado. "Temos que nos unir para conseguir o restauro. Precisamos pensar em outras formas de preservar", relata, reivindicando maior atenção popular para o espaço e para o monumento. Fazendo coro à voz de Alice, Marcos Olender afirma que a dedicação de Arthur com a cidade precisa viver o movimento contrário, em atitudes que visem a preservação de uma produção que inseriu Juiz de Fora na cena moderna do país. "Ele merece mais. Ainda é muito pouco estudado", aponta Olender.

 

Na intenção de jogar mais luzes sobre a obra do engenheiro-arquiteto, a Funalfa lança hoje, durante a mesa-redonda, a primeira edição do "Concurso de Monografias Centenário de Nascimento de Arthur Arcuri", que irá distribuir R$ 5,5 mil entre os três melhores estudos acerca da obra do engenheiro. O regulamento e a ficha de inscrição serão disponibilizados no site da Prefeitura, e as inscrições serão iniciadas em 25 de março. Ainda no evento, será feito o lançamento do CD-ROM com o catálogo de ladrilhos hidráulicos da Companhia Industrial e Construtora Pantaleone Arcuri, organizado pelo professor do curso de arquitetura e urbanismo Jorge Arbach.

Um dos responsáveis pelo calendário de atividades comemorativas dos 100 anos de Arthur Arcuri, Marcos Olender ainda destaca, para esse ano, o relançamento da exposição "Arthur Arcuri: um ‘pingente’ da arquitetura", que acontecerá ainda no primeiro semestre, e a exposição de fotografias feitas pelo engenheiro, que será uma das atrações da 2ª Bienal de Arquitetura da Zona da Mata e Vertentes, prevista para setembro.