Caminhos possíveis
Já em 1972, um hit do tradicional Festival Internacional da Canção refletia, ainda que não intencionalmente, uma das grandes barreiras que atravessam diversos segmentos artísticos até os dias de hoje: "Eu quero é botar meu bloco na rua", bradava Sérgio Sampaio na ocasião. Independente do "bloco" da cultura em que se enquadrem, os artistas concordam que fazer com que seus produtos culturais cheguem ao público continua difícil, mesmo com o acelerado desenvolvimento da tecnologia, que facilita a divulgação e a distribuição dos trabalhos.
No cenário juiz-forano, a maioria dos produtores culturais se queixa da falta de espaço para a divulgação. "É uma luta diária e lenta para alcançar reconhecimento. O mercado regional e nacional infelizmente ainda prefere contemplar grandes artistas a apoiar o surgimento de novos talentos. Esse fato torna a distribuição cultural vagarosa e muitas vezes ineficaz. As produções regionais têm uma qualidade melhor em todos os sentidos, um preço mais baixo, e ainda assim muitas vezes existe um certo preconceito para os artistas locais que não estão na vitrine", desabafa Luqui di Falco, guitarrista da Glitter Magic.
Mesmo tendo esgotado seu CD "Borandá meu Camará", financiado pela Lei Murilo Mendes, o músico Roger Resende reforça que há entraves para a circulação da cultura local em Juiz de Fora. "Poucas rádios contemplam a música feita na cidade, os músicos têm sempre que procurar, conversar, pedir. No ano passado até fizemos uma audiência pública para debater o assunto. Veicular o trabalho local é uma maneira de ‘devolver’ o investimento feito com o dinheiro público", opina.
Para o diretor e ator Marcos Marinho, no caso do teatro, há obstáculos diferentes. Segundo ele, as artes cênicas são distribuídas principalmente com a participação em festivais. "A circulação de uma peça teatral é muito mais cara do que a de um livro, CD, filme ou outros produtos de cultura, porque é preciso financiar o translado das pessoas, alimentação, hospedagem… Além disso, há uma certa resistência mercadológica de patrocinadores e investidores, porque trata-se de uma arte efêmera, que, em termos capitalistas, ‘acaba’ quando o espetáculo é encerrado."
Já nas artes plásticas, parte do problema parece ter raízes na pouca demanda do público. "Existem espaços para apresentação do que é produzido e até existe uma certa busca, mas ela é pequena, sobretudo para trabalhos de arte contemporânea", aponta o artista plástico Luiz Gonzaga. Para ele, a internet ajuda muito na circulação das obras e já possibilitou convites para exposições no Rio de Janeiro e em São Paulo. "Quem se interessa por qualquer produto cultural realmente busca informações e obras, e a internet possibilita que todo mundo tenha acesso ao que você faz."
O cantor Emmerson Nogueira também acredita que a possibilidade de divulgar e distribuir cultura on-line ajudou muito na execução destas duas etapas da produção. "A internet mudou radicalmente o mercado. É claro que a distribuição física ainda vai ser um grande problema, mas atualmente temos a possibilidade de vender os produtos on-line por meios diferentes dentro da rede. Ou seja, podemos divulgar pelas redes sociais e fazer o link para vários sites de venda, das próprias lojas físicas e também das virtuais, como o gigante iTunes."
Mesmo a UFJF tem encontrado na web um caminho mais democrático e eficaz para levar seus bens culturais ao público. "Estamos procurando lançar o máximo possível de publicações on-line, mesmo as que são produzidas também em meio impresso. Além de barato, é um método que permite uma circulação mais ampla, com maior alcance", pondera o pró-reitor de Cultura José Alberto Pinho Neves, acrescentando que a série "Diálogos abertos", recém-lançada, terá formato virtual. Já os livros tradicionais têm estratégias diferentes de distribuição. "No caso de publicações de interesse nacional, buscamos parcerias com órgãos públicos e/ou privados que possam ajudar na circulação. Já com os trabalhos de cunho local, procuramos estabelecimentos da cidade, além de destinarmos grande parte a bibliotecas, escolas e outros acervos do município."
Soluções viáveis
Frente aos obstáculos, a classe artística procura diferentes caminhos para que seu bloco esteja na rua, e muitos têm conseguido êxito. É o caso do cineasta Felipe Scaldini, que teve seu longa "Ibitipoca, droba pra lá" exibido em mais de 30 salas de todo o país. Para que isso acontecesse, foi essencial contar com o trabalho de uma distribuidora. "Poderia ter feito a distribuição de maneira independente, mas com certeza não teria o mesmo alcance." Embora reconheça que muitas vezes o caminho do "faça você mesmo" é o mais viável possível, independentemente da arte em questão, Scaldini defende que há alternativas à disposição dos produtores culturais. "Se você tem um produto de qualidade nas mãos, não tem porque não tentar um caminho profissional. Os cineastas, se souberem aproveitar, são bem servidos pelas mecanismos de incentivo para a distribuição, inclusive há vários editais específicos para isso."
Já Luqui Di Falco, guitarrista da Glitter Magic, acredita que a via independente tem suas vantagens, o que leva muitas bandas, por exemplo, a montar bancas para a venda de CDs em seus shows. "O grande ponto positivo disso é que os CDs não pagam impostos para serem vendidos e conseqüentemente podem ser comercializados de forma mais barata. O negativo é que a banda perde muito na divulgação, afinal as gravadoras possuem seus canais de mídia especializados em fazer o esquema funcionar e levar o trabalho ao grande público." Em busca deste suporte e de driblar os entraves no mercado brasileiro, a Glitter assinou um contrato com a gravadora italiana Heart of Steel Records. "Recebemos propostas de gravadoras do Brasil também, porém todas queriam explorar muito nosso trabalho e não nos pagar direitos por isso. Ao fechar com a Heart Of Steel Records, que tinha um projeto para nós, sabíamos que o mercado nacional nos valorizaria muito mais. E de fato foi o que aconteceu. Sem dúvida nossa exposição aumentou, é diferente para o nosso público saber que tem alguém forte e de outro país investindo em nosso trabalho."
No solo musical brasileiro, uma iniciativa que pode ajudar novos talentos na circulação de seus produtos é o Selo Versão Acústica, que possui parceria com a Sony Music e foi idealizado por Emmerson Nogueira e Nando Costa. "Escolhemos algumas bandas e artistas em que acreditamos que tenham potencial e apresentamos à Sony. Se forem aprovados, são imediatamente contratados, e seus projetos passam a fazer parte do cast do selo, sendo distribuídos pela Sony para todo o território nacional e possivelmente em outros países", explica Emmerson.
Para o superintendente da Funalfa Toninho Dutra, parte das barreiras da distribuição cultural pode estar na falta de conhecimento sobre o público a que os produtos se destinam. "A primeira coisa que um artista deve saber é se seu produto tem um nicho de consumo – que não necessariamente é de venda – no mercado. A Lei Murilo Mendes tem vários produtos que se esgotam e outros que não circulam bem, ou porque o autor sabe aproveitar esse incentivo e a mídia espontânea que ele cria, ou porque não sabe bem a que público o trabalho se destina." Segundo Toninho, é preciso que haja um esforço conjunto dos produtores e do poder público para que esta realidade mude. "Temos produtos muito bons que mereciam ser mais conhecidos. Para que isso ocorra, ambos os lados precisam sair de suas zonas de conforto, para que a realidade juiz-forana seja discutida, e caminhos viáveis para os artistas e o poder público sejam encontrados."
Traçando seu próprio caminho, os artistas do Coletivo Sem Paredes têm alcançado projeção em diversas capitais. "Temos centros espalhados por todo o país e funcionamos como uma rede colaborativa. O trabalho circula virtual e fisicamente. Quando uma banda ou exposição chega a uma cidade, toda a parte de divulgação já foi feita com a ajuda da internet, e assim o intercâmbio rola no Brasil inteiro", conta o músico Marcelo Castro, um dos gestores da iniciativa em Juiz de Fora.
Para o ator e diretor Marcos Marinho, que apresentou sua peça "Meu dia perfeito" em vários países da América Latina, arregaçar as mangas e continuar produzindo é a primeira certeza que um artista pode ter de que seu trabalho chegará às pessoas. "Há dificuldades? Sim. Mas, parafraseando o jornalista João Saldanha, acho que ‘quem reclama já perdeu.’ É preciso ter mais garra, investir mais em sua própria arte, pôr o pé na estrada."









