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‘O que me interessa é quem abate o boi’


Por MAURO MORAIS

10/10/2013 às 07h00

Sentados na boleia de um caminhão, dois conhecidos conversam pausadamente. Um conta da rotina abatendo gados e outros animais. O outro fala dos tempos na prisão. Observador, o narrador logo reflete: São confissões de sangue e morte para os que já estão condenados. Há outros deles na beira da mesma estrada, sobre o solo e debaixo dele. O murmúrio das lamentações dos que jamais regressaram está ali, ecoando nas pedras, porque, quando não há quem rogue, as pedras clamam. Após falar dos catadores de lixo, na novela O trabalho sujo dos outros, dos cremadores, em Carvão animal, e contar da brutalidade de um personagem chamado Edgar Wilson, em Entre rinhas de porcos e cachorros abatidos, capaz de ajudar um amigo a recuperar um rim doado, arrancando-lhe da mulher que o recebeu, Ana Paula Maia se volta para um abatedouro.

Nascida em Nova Iguaçu, região metropolitana do Rio de Janeiro, e radicada na capital fluminense, a escritora de 35 anos, voz doce e aparência sóbria, é considerada uma das mais importantes vozes da nova geração. Os ambientes inóspitos e seus personagens sempre marginalizados, exercendo funções desprezadas, porém essenciais à rotina social, fazem com que suas narrativas sejam singulares diante de uma cena tomada pelos textos memorialísticos, em primeira pessoa e, em sua maioria, contendo as marcas da classe média brasileira.

Edgar Wilson, uma das mais inquietantes criações de Ana Paula, retorna no novo livro, De gados e homens (Editora Record, 128 páginas). A obra chega amanhã às livrarias do país e tem noite autógrafos no próximo dia 21, às 19h, na Blooks Livraria, em Botafogo, no Rio de Janeiro.

Após sobreviver a uma implosão na mina em que trabalhava, passagem que consta no último livro da escritora, Carvão animal, de 2011, o homem se vê às voltas com a morte de gados. Ocupando o cargo de atordoador, ele martela a cabeça dos animais, que logo em seguida são desmembrados e, ao fim de um ciclo, viram bife de hambúrguer.

Muito mais humanizado do que na novela Entre rinhas…, de 2009, Edgar Wilson, uma referência ao escritor americano Edgar Allan Poe, se mostra à beira da sensibilidade. É um indício de misericórdia, comenta a autora. Ágil e ao mesmo tempo altamente reflexivo, De gados e homens escancara o que existe mas insiste em não ser percebido. Como um tiro seco, o quinto romance da escritora não deixa ninguém sair ileso. À luz do sol, há julgamento, porém, às sombras, tudo de se encobre, devaneia um narrador disposto a embrulhar o estômago na hora do hambúrguer.

Em entrevista por e-mail à Tribuna, Ana Paula Maia, que veio à cidade no último ano e tem uma relação afetiva com o lugar onde passou momentos de suas férias, ao lado de tios e primos que moram por aqui, fala sobre o novo trabalho e não deixa de elogiar o parceiro ficcional: Não existe ninguém no meu cotidiano semelhante ao Edgar Wilson. Só me relaciono com ele.

Tribuna – Por que retomar o personagem Edgar Wilson?

Ana Paula Maia – Porque ele é indispensável quando se trata de certos assuntos.

– E qual a relevância dele em sua literatura?

– Desde o meu segundo romance, ele está presente na minha escrita. Há tempos Edgar e eu temos uma parceria quando se trata de contar histórias. Somos muito ligados. Edgar Wilson é mais do que um alter ego. Ele é de verdade e independente.

– Em Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, o Edgar Wilson soa incorrigível, insensível e absurdamente rígido. Em De gados e homens, nasce uma faceta mais humanizada. A que se deve esse lado menos obscuro?

– Em De gados e homens, esse Edgar Wilson é mais jovem, já que a história se passa anos antes de Entre rinhas…. Seu caráter ainda está sendo lapidado, embrutecido. O ápice de sua truculência está em Entre rinhas…, até o momento. Eu gosto muito desse momento do Edgar, mais humano, mais questionador, e, explicitamente, ele está sendo moldado pela vida que leva.

– Ainda que o livro revele um lado mais sensível, Edgar Wilson se dispôs a matar friamente um parceiro de trabalho. De onde surgem essas cenas brutais?

– Surgem da necessidade de Edgar Wilson colocar a sua misericórdia em ação. De fazer justiça. De ser fiel a suas convicções.

– Em determinado momento, ele confessa considerar um crime a morte dos gados da forma como faz, mas ainda assim ele se vê fazendo. Essa postura, de certo conformismo, reserva uma crítica?

– Uma resignação, eu diria. Mas ele prefere abater o gado à sua maneira, pois acredita que, da maneira como faz, consegue aliviar a dor do animal, de alguma forma. Edgar Wilson acredita que se ele não abater, outro o fará. Que é uma produção em cadeia. Nunca faltará quem execute essa tarefa.

– Como se vê falando de pessoas que ninguém vê?

– Essas pessoas me interessam. Não estou interessada no sujeito que compra a carne embalada num açougue, o que me interessa é quem abate o boi. E é preciso coragem e força para isso.

– Fazendo essa literatura naturalista, com um olhar para os marginalizados, você se percebe cumprindo algum papel social?

– Em muitos momentos não. Estou tão mergulhada no universo ficcional que não me dou conta exatamente de quanto social abordo. Mas acredito que levantar o assunto de certas coisas que nos cercam é sempre interessante para uma reflexão geral.

– Há algo de biográfico no que escreve? De que forma você está em De gados e homens?

– De biográfico, nada. Estou presente no livro em termos de reflexão sobre o tema e em vivenciar uma experiência com um elenco de personagens que me cativou tanto.

– Em Entre rinhas… e em Carvão animal, você conclui a saga dos brutos, mas retoma o personagem no novo livro. Está disposta a fazer de sua literatura esse espaço dos brutos?

– A minha literatura é o espaço dos brutos.

– Você disse, em seu blog, que esse livro é muito macho. O que caracteriza essa escrita masculina?

– A ambientação, os personagens, os diálogos e a trama.

– Como é, enquanto mulher, assumir essa outra voz?

– Eu não assumo, eu reproduzo as vozes deles. É um desafio maravilhoso. Sou parte do bando. Minha relação com meus personagens masculinos é um tanto possessiva. Eles nunca têm um relacionamento amoroso, por exemplo. Quando têm, fracassam. Percebi que não admito outra mulher dividindo espaço comigo nesse território de homens. Sou apaixonada pela paisagem que construo de homens, poeira e gado.

– Entre os gados e os homens, em qual acredita mais?

– No Edgar Wilson.