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‘É muito ingênuo afirmar que a moda é fútil’


Por RENATA DELAGE

30/10/2012 às 07h00

A moda percorre as sociedades, assume viés sociológico, psicológico, artístico, histórico. Está no vestuário, mas não apenas, postula o professor do Curso de Design de Moda da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutorando na área na Universidade de São Paulo (USP), Tarcísio D’Almeida. O pesquisador esteve na cidade para lançar o livro Moda em diálogos: entrevistas com pensadores, no III Simpósio Regional em Design de Moda do Centro de Ensino Superior (CES/JF).

Resultado de encontros entre D’Almeida e pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, a obra se volta à produção intelectual e científica contemporânea sobre moda. São sete visões de pessoas que pensam a moda, mas que também estão atuando no mercado, destaca o autor. Participaram do projeto o filósofo francês Gilles Lipovetsky – autor de O império do efêmero, uma das obras de filosofia da moda mais lidas na atualidade -, a historiadora de moda norte-americana Valerie Steele, o antropólogo italiano Massimo Canevacci, o antropólogo anglo-americano Ted Polhemus, a socióloga norte-americana Diana Crane, e o presidente da Federação Francesa da Costura, do Prêt-à-porter dos Costureiros e dos Criadores de Moda Didier Grumbach, e o embaixador da marca brasileira de joias H.Stern, Christian Hallot.

O livro traz ainda um ensaio sobre a importância das ciências humanas para a reflexão do tema e uma genealogia de obras expressivas de moda organizada num quadro com ano, autor, enfoque e tipo de publicação. Inicio com Voltaire e o primeiro registro de pensamento sobre moda, em 1736, e termino com Caroline Evans, em 2007, explica D’Almeida.

É importante propor reflexões que vão além dos ‘achismos’ e dos manuais de como se vestir, embora estes tenham seu valor no mercado, pontua. Não existe nada de fútil na moda. Ela está no vestuário, mas também na indústria automobilística, na telefonia móvel, na hotelaria. É tão pulverizada que não conseguimos definir precisamente. O autor ressalta o crescimento do pensamento crítico na academia brasileira. É um setor de reflexão em ampla produção, longe de estar estagnado, e que agora está crescendo no país. Ainda há muito para acontecer, avalia.

Tribuna – Em que a opinião dos entrevistados do projeto Moda em diálogos: entrevistas com pensadores foi convergente? E em que eles diferem?

Tarcísio D’Almeida – O que coincide é a questão de entender a moda em um viés multifacetado. A moda já não é mais só vestuário. Essa leitura caiu por terra há algumas décadas. Os profissionais compreendem a moda como uma dinâmica mutável, variável no tempo e nas sociedades. Isso permeia todas as entrevistas, mas cada um dos entrevistados têm uma especificidade. Por exemplo, a Valerie Steele, historiadora norte-americana, curadora do Fashion Institute of Technology em Nova York, relaciona a moda com o erotismo, o fetiche e o poder, tema da tese de doutorado dela. Essas visões diferenciadas são muito enriquecedoras.

– Qual a importância desse debate para a área? Como mudar a percepção de a moda ser algo fútil, efêmero?

– É importante olhar e entender a moda como um campo de reflexão. A ideia criada pela sociedade, sobretudo, no século XX, de que a moda é um objeto fútil, já foi derrubada, embora algumas pessoas persistam nessa ideia estereotipada, nesse preconceito. No Brasil, a moda é o segundo setor a gerar maior número de empregos, só atrás da engenharia civil. É muito simplista e muito ingênuo as pessoas afirmarem que é fútil. Talvez isso ocorra por não entenderem e não conhecerem historicamente sua a importância para as sociedades, ocidentais ou orientais. A alta-costura, por exemplo, quando surgiu na França, no final do século XIX, gerava o segundo maior PIB para o Governo francês. Só que, do século XX para o XXI, começamos a ter mais abordagens de pensadores da literatura de moda no Brasil.

– De que maneira a moda reflete as relações humanas e se insere no cotidiano das pessoas?

– Logo ao acordar, você se imagina com determinado vestuário. Esse é o primeiro exercício de satisfação psicológico. Ou seja, a sua psiquê vai te dizer: hoje estou com tal espírito e quero me vestir de tal forma. Sociologicamente, você primeiro se satisfaz para, depois, satisfazer a sociedade. Por exemplo, hoje vou me vestir só de preto. Mas um preto gótico ou um preto punk? A partir dessas divisões, temos os agrupamentos sociais.

– Moda também é cultura?

– No Brasil, a moda foi reconhecida como patrimônio cultural. Isso é muito bacana, porque partiu de um estudo encomendado, no fim dos anos 2000, pelo Ministério da Cultura, realizado por uma pesquisadora doutora em história da arte na Unicamp, Patrícia Santana. O MinC analisou o levantamento, discutiu o tema e, em 2009, o então ministro Gilberto Gil anunciou, na São Paulo Fashion Week, que a moda passava a ser patrimônio cultural do país. A cachaça é um patrimônio cultural do Brasil, assim como algumas danças populares e folclóricas. Isso é muito importante, porque o Governo federal está abrindo uma chancela e dizendo que vai apoiar projetos nos três eixos da cadeia produtiva: criativo (estilistas, criadores), institucional (universidade, escolas de moda, ONGs) e empresarial (empresas e eventos na área de moda).