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Que seja eterno, mas não silêncio


Por MAURO MORAIS

16/06/2013 às 07h00

Estamos, sempre, entre o aborto e o parto. Holocausto brasileiro (Geração Editorial), livro que a jornalista da Tribuna Daniela Arbex lança na próxima quinta-feira, 20, às 19h, na Livraria Saraiva, se volta para os dois extremos para reconstruir o que considera como um dos capítulos mais dramáticos da História do Brasil. Do aborto de vidas, como a de Cibele Aquino, Conceição Machado, Sueli Rezende e mais 60 mil outros Ignorados de tal, e do parto de um novo Adelino Rodrigues, de uma nova Elza do Carmo, de uma outra Sônia da Costa, de uma feliz Geralda Santiago, e mais outros poucos sobreviventes, que conheceram a liberdade e a vida social após abandonarem o maior hospício brasileiro, nasceu um livro, cujos detalhes de crueldade aterrorizam e as manifestações de reconstrução, solidariedade e coragem comovem numa medida ainda maior.

Após 50 anos da publicação de imagens chocantes feitas pelo fotógrafo Luiz Alfredo para a revista O Cruzeiro, Daniela resgatou a história do maior hospício do Brasil em uma série de reportagens, publicadas na Tribuna em novembro de 2011 e intitulada Holocausto brasileiro: 50 anos sem punição. Vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo de 2012, o conjunto de matérias guardava personagens e situações que mereciam ser eternizados na literatura. Entre junho e julho de 2012, Daniela percorreu o Estado de Minas Gerais e foi até Niterói, no Rio de Janeiro. Durante 60 dias, ela viajou todos os fins de semana para estar com os personagens por mais de uma vez.

No fim do ano estava quase pronta a narrativa que não se basta em linguagem objetiva, lançando mão de descrições detalhadas em uma dicção nitidamente indignada. Acredito na ética, quando você dá a chance de todos os envolvidos falarem, creio no respeito ao entrevistado, mas a imparcialidade não existe. Não foi intencional mostrar minha indignação. Quando comecei a escrever, vi que era preciso não julgar, olhar essas pessoas com o olhar daquela época. Se olhasse com o olhar de hoje aqueles que se omitiram diante desse genocídio seriam monstros para mim, explica.

Em sua jornada, entrevistou mais de cem pessoas, de sobreviventes a ex-funcionários, passando por familiares, médicos e outras figuras que se mostravam fundamentais para desvendar a trama sombria que até então permanecia no espaço de Barbacena. Quando você vai contar uma história dessas, é preciso fazer com que as pessoas confiem em você e queiram contar sua história. Às vezes, um primeiro contato é muito pouco para alguém que nunca te viu contar algo tão íntimo. À Barbacena, eu voltei mais de 50 vezes, conta, com o brilho nos olhos por partilhar com o país as pessoas que lhe renderam tantas lágrimas. Me apaixonei por todos eles, estou sofrendo de ciúmes por ter que dividi-los. Entendo que eles não são meus, são do Brasil, são brasileiros, reflete.

A tempo

Inquieta por natureza, Daniela Arbex é movida por perguntas. São tantas, que extrapolam o ambiente de trabalho, tornando-se característica cotidiana. Quando tive acesso às imagens, me perguntei: ‘Como minha geração desconhece essa história?’, diz, referindo-se à interrogação que lhe serviu de ponto de partida. Beirando o surreal, a trajetória de quase todo o século XX do Hospital Colônia reproduz as crueldades vividas nos campos de concentração nazistas. Setenta porcento dos pacientes não tinham sequer o diagnóstico necessário à internação, eram o que a sociedade da época considerava escória: epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, rebeldes, estupradas, desvirginadas e, até mesmo, os tímidos.

Não precisei de coragem, precisei só usar o que o jornalista tem que usar: o compromisso dele com a verdade e com a transformação social. A verdade tem força mesmo que seja 50 anos depois. Sessenta mil mortes é um número forte em qualquer época. Isso é atual e grave ainda. Perdemos 60 mil brasileiros, ressalta a repórter especial da Tribuna por quase duas décadas, com mais de 20 prêmios no currículo. No prefácio da obra, a respeitada jornalista e escritora Eliane Brum destaca: É preciso perceber que nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a nossa omissão, menos ainda uma bárbara como esta.

Segundo Daniela, a teoria eugenista, em sua opinião ainda não superada, foi a maior responsável pela vida longa do hospital. A sociedade tem um discurso de que existem vidas que valem menos. A vida das pessoas da Colônia valiam menos, eles não eram gente. A vida dos adolescentes em conflito com a lei também vale menos. A vida de sentenciados também vale menos, revolta-se, para logo completar: Na verdade, todos os modelos de atendimento ainda são de segregação, de isolamento e de total risco de retorno desses abusos, porque todas as vezes que você tira dos olhos, você corre o risco de cometer novas violações. Em meio a suas muitas perguntas, uma ainda não foi respondida: Os crimes da Colônia duraram 80 anos debaixo de nosso nariz. Como pode ter acontecido isso e até hoje o Brasil não sabe?

Carne, osso e alma

Um dos maiores desafios, que em Holocausto brasileiro se tornou o maior mérito, foi a humanização dos duros personagens. Apesar de ocupar poucas linhas e aparecer em uma fotografia (são muitas durante o livro, entre registros passados e outros atuais), Conceição Machado torna-se encantadora pelas descrições que a colocam como uma corajosa rebelde. Sônia da Costa, a mulher que hoje veste muitos vestidos e sapatos para restituir os tempos de nudez absoluta, mostra-se extremamente amável, dessas que se deseja abraçar. Elzinha, que partiu de Oliveira rumo ao inferno do Colônia, também faz o coração disparar. O casal Adelino e Nilta despertam o desejo de se conhecer, tamanha a superação que o levou do hospício para um lar doce lar.

Consegui um distanciamento ao humanizar personagens que, a princípio, tinham tudo para ser descritas como monstros, avalia Daniela, retomando a história de Sueli e Débora, uma das mais dramáticas da narrativa. Considerada a paciente mais agressiva e bárbara do lugar, Sueli pariu Débora, mas teve logo que se despedir, recordando-se ano a ano o aniversário da menina. Ambas se procuravam e nunca se encontraram. A Sueli foi tão violentada, tão violada na sua dignidade que ela se desumanizou, porque desumanizaram ela. O olhar da Débora também me ajudou, pelo amor que tinha por essa mãe, conta a jornalista que durante toda a apuração sofreu com as saudades do pequeno filho Diego, então com poucos meses, que ficava com o marido enquanto ela viajava.

Retirado do convívio da mãe, interna durante curto período, e enviado a um orfanato, João Bosco guarda na memória mais antiga as dores causadas pelo hospital e nas lembranças recentes o reencontro com Geralda. De acordo com Daniela, em uma de suas conversas com o hoje chefe da banda do Corpo de Bombeiros de Minas ouviu: O que mais me cativou em você foi a sua coragem de me ligar e tocar em um assunto tão delicado. Isso me impressionou.

Contudo, passadas as 256 páginas, a mesma impressão de João Bosco arrebata o leitor. O drama do Colônia, que hoje persiste em se reproduzir com outra cara em outros espaços de reclusão, exigia estômago e um tanto maior de sensibilidade. O livro mostra tanta dor, mas também muita coragem e solidariedade. Mesmo nas condições mais adversas, essas pessoas que foram violadas a vida inteira e tiveram a sua dignidade confiscada ainda sonham, emociona-se Daniela, que em nenhum momento deixa de vibrar com a oportunidade de tornar público algo para o qual se desejava silêncio. Com tiragem inicial de cinco mil exemplares, Holocausto brasileiro acaba de ganhar uma segunda reimpressão, o que contabiliza 15 mil exemplares, número bastante expressivo no cenário literário nacional e prova de que o Colônia, enfim, será invadido por muitos olhos atentos. O papel do jornalista é mostrar a realidade, mas ajudar a buscar soluções. Não quero só contar uma história, quero que as pessoas ao lerem repensem sua posição, quero fazer valer a pena, conclui Daniela.