Blues, jazz e esquinas
Poucos instrumentos ilustram tão bem quanto a gaita a metamorfose que se dá entre músico e máquina durante a criação musical. Encerrando a programação do JF Vijazz e Blues hoje, o premiado gaitista estadunidense Peter Madcat é um retrato desta fusão. Tão pequena quanto notável, parece ser uma extensão do corpo do instrumentista, uma prótese capaz de fazê-lo emitir das mais pungentes sonoridades do country americano às mais eufóricas notas do rock’n’roll. Misturo características de diversos gêneros com o blues, acho que por isso os músicos mais conservadores do blues me acham meio doido, diverte-se o músico em entrevista à Tribuna.
Ganhador de um Grammy por seu desempenho como solista, Madcat é amplo pesquisador da chamada música americana de raiz, que reúne gêneros como o blues, o country e o folk – entre outros – e dá base a uma série de estilos contemporâneos, como o rock e o R&B. Escutar este tipo de música há 50 anos faz você aprender a tocá-la, brinca o gaitista. Adoro estudar os gêneros tradicionais, mas gosto de captar influências musicais do mundo todo e criar algo novo. Não me limito, gosto de expandir minhas possibilidades, explica Madcat, que também canta, toca ukelele, violão, chimbau (prato), penny-whistle (pequena flauta de metal muito usada na música celta, medieval e escocesa), além de fazer música com objetos inusitados, como escovas de dente, brinquedos, moedas e muitos outros, trazendo a lembrança inevitável de Hermeto Pascoal.
Desde 1998, Madcat tem frequentado festivais de jazz e blues no Brasil, além de ter feito várias turnês pelo país tocando ao lado do blueseiro carioca Big Joe Manfra, com quem gravou o disco Madcat live in Rio em 2006. Os músicos brasileiros são muito talentosos e versáteis. Quando toco com Big Joe, por exemplo, fazemos o autêntico blues americano, com muita qualidade. Já o (gaitista) Jeferson Gonçalves gosta de incorporar gêneros tradicionais brasileiros ao blues, uma mistura que eu acho incrível, pondera.
Entre a calma e o frenesi
Com um pé na bossa nova, o violonista, arranjador e compositor mineiro Juarez Moreira caminha com tranquilidade pelo terreno do jazz, tendo ambos os gêneros como norte musical. Os músicos de jazz se sentem muito à vontade para improvisar ao longo das harmonias de bossa nova, apesar de serem diferentes. A bossa nova tem a calma do samba. Já o jazz tem um frenesi, uma velocidade que é muito própria das sociedades anglo-saxônicas.
Autodidata, Juarez aprendeu a tocar violão com 12 anos, mas diz ter encontrado sua universidade ao lado de grandes nomes, sobretudo dos rapazes do Clube da Esquina, como Wagner Tiso, Beto Guedes e os irmãos Lô e Telo Borges. São artistas que fornecem um grande laboratório de ideias, tendências, conceitos, uma grande fonte de conhecimentos.
Incluindo autorais e releituras de gênios atemporais como Tom Jobim, Lennon e McCartney, Juarez busca sempre imprimir personalidade em seu repertório instrumental, regido pela brasilidade. Tento inserir o máximo de elementos brasileiros na improvisação, tanto melódicos quanto rítmicos.Também uso e abuso das cadências harmônicas que vêm da MPB tradicional e moderna.
JF VIJAZZ E BLUES
Juarez Moreira Trio e Peter Madcat
Hoje, às 16h
Parque do Museu Mariano Procópio
(Rua Mariano Procópio 1.100)









